No meio da espuma dos dias, a arte é várias vezes confundida apenas com uma representação estética. O debate é antigo e as fronteiras ténues, mas no meio do barulho das luzes e das discussões laterais, há quem assuma frontalmente os seus posicionamentos políticos, identificando os perigos que nos rodeiam e os combatam.
O novo trabalho que junta o rapper João Pestana e o produtor DarkSunn é um exemplo disso mesmo. Intitulado Estado Noção, neste álbum, a dupla não ficou calada, num quadro em que, dadas as ameaças anti-democráticas bem evidentes, o silêncio pode ser, cada vez mais, sinal de cumplicidade.
Pestana é já um nome de peso do rap underground nacional, com rimas e uma métrica perfurante, resultantes de um descomprometimento e independência dignos de que não pede licença a ninguém para expressar o que pensa. Já DarkSunn, fundador da MonsterJinx, é um produtor que pinta retratos, com o melhor exemplo disso a ser o seu álbum Almada Velha, um trabalho coeso onde cada instrumental traduz uma textura de homenagem à sua terra de sempre.
Agora, em Estado Noção, o rapper e o produtor juntam-se e trazem consigo um trabalho de combate político. Ao longo de 15 faixas, sob os instrumentais meticulosamente trabalhados com samples que não nos são estranhos aos ouvidos mais atentos, João Pestana debruça-se sobre Portugal, sobre os problemas estruturais do país, sobre a exploração, sobre racismo, sobre a luta e sobre a(s) classe(s), onde cada faixa é uma denúncia da política neoliberal que alimenta os ímpetos fascizantes.
Quem acompanha a história do rap em Portugal pode lembrar-se de Sindicato Sonoro, ou do Menos Pão, Luz e Água de Bob da Rage Sense. Estado da Nação entra directamente para esse campo, para o campo de um rap que se situa numa região bem demarcada, politicamente assumida e frontalmente antifascista. Não falamos de um fetichismo por uma estética revolucionária, mas de um contributo político para uma forma de arte que pode ter relegado para o passado um activismo que sempre lhe fora característico.
O melhor exemplo disso é a faixa ANTIFASCISTA, que é o single do álbum. Nesta faixa, João Pestana e DarkSunn trazem Uno para rimar, e as letras não podiam ser mais esclarecedoras. Pestana afirma que «o rap tem lugar para todos, menos para fachos» e que este «aceita toda a gente, toda a crença e toda a raça. É dos trabalhadores e das massas».
O grito de combate contra o que designam como «rapper facho tuga» é complementado por Uno, que explora o crescimento do fascismo no silêncio até ser partilhado de forma desavergonhada, inclusivamente no rap: «MCs separam-se pelos egos, prefiro que seja pela política», reitera, esclarecendo que «o hip-hop é imigrante e invasor», numa postura intransigente contra quem usa a arte para propagar uma ideologia de ódio.
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