Depois de, na semana passada, os bloqueios aos portos, refinarias e depósitos de combustível terem secado as bombas de gasolina e paralisado de forma parcial a economia, esta semana os trabalhadores franceses deram início a um novo conjunto de greves, agora concentradas nos transportes.
Desde dia 31, a circulação ferroviária foi fortemente afectada, na sequência de uma greve por tempo indeterminado convocada pelos sindicatos na companhia SNCF. Apesar de terem obtido algumas cedências da administração, quanto à organização do tempo de trabalho, os sindicatos da Central Geral do Trabalho (GGT) e SUD Rail mantêm-se firmes na luta pela retirada da lei do trabalho.
As reivindicações salariais e a oposição à desregulamentação laboral levaram também os trabalhadores do Metro de Paris, os trabalhadores portuários e estivadores a fazer greve. Se o Governo não ceder, a CGT ameaça com uma nova paralisação de 24 horas no dia 14.
No sector da aviação civil, os controladores aéreos agendaram uma greve para este fim-de-semana. O SNPL e o SPAF, dois sindicatos que representam mais de 75% dos pilotos da Air France, aprovaram a realização de uma greve de 11 a 14 de Junho, já durante o Europeu de futebol, que começa no dia 10. Os pilotos repudiam a degradação das condições de trabalho, nomeadamente os cortes nos salários.
A pressão sobre o Governo irá por certo aumentar à medida que se aproxima o evento desportivo. Já foi convocada uma manifestação nacional para dia 14 em Paris e adivinham-se novos bloqueios e paralisações caso o Executivo se mantenha surdo e inflexível como até aqui.
Entretanto, as acções de boicote (nomeadamente a postes de alta tensão) e os cortes de estrada por parte de trabalhadores em greve continuam a ocorrer em diversos pontos do país (Bretanha, Toulouse, Rouen, Flammanvile). A CGT, que é a principal central sindical francesa, já deixou claro que não tem como objectivo «bloquear o Europeu», mas acusa o Executivo de se recusar a dialogar.
Erro político
Apesar da onda de protestos que dura há quase três meses - fortemente reprimidos pelas forças policiais - e da oposição maioritária dos franceses à chamada «Lei do Trabalho» ou «Lei El Khomri», bem como das profundas divisões no grupo parlamentar «socialista» e dos discursos dissonantes que se ouvem no seio do próprio Governo, o presidente François Hollande e o primeiro-ministro Manuel Valls continuam a defender que a lei do trabalho é «boa».
No seio da «esquerda», a ofensiva laboral lançada por Hollande no final do seu mandato é tida por muitos como «um tiro no pé», «um erro político», e, neste sentido, um grupo de 56 deputados do PS, PCF e ecologistas dirigiu, no dia 27 de Maio, uma carta ao presidente a pedir-lhe que ponha cobro à crise. Contudo, Hollande insiste que o Governo não vai retirar o projecto e o primeiro-ministro considera que «erro político» seria fazer marcha atrás.
Lei boa... para o patronato
Há muito que os opositores ao projecto de lei sublinham que a sua aprovação irá permitir ao patronato impor condições drásticas de trabalho. Entre outras medidas, o projecto contempla: aumento da carga horária e da precariedade das condições de trabalho; facilitação dos despedimentos e diminuição do valor das indemnizações quando eles são impostos; o primado dos acordos de empresa sobre os acordos sectoriais, designadamente no que respeita à remuneração de horas extraordinárias, horário máximo semanal, tempos de repouso e férias.
Prevê-se que o projecto de lei seja debatido no Senado de 13 a 24 de Junho, com a votação a ocorrer no dia 28.
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