Um dia depois da entrega do Orçamento do Estado na Assembleia da República, Luís Montenegro deslocou-se ao Parlamento para participar no debate quinzenal. O debate arrancou com o secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, que foi rápido nas críticas feitas ao Executivo.
O comunista, de forma assertiva, começou por dizer que o Orçamento do Estado coloca as famílias em défice, em contraste com os grupos económicos que são premiados com mais benefícios fiscais. Com esta caracterização, fazendo a ponte com o aumento do custo de vida e aqueles que ganham com a inflação, Paulo Raimundo questionou se, face aos lucros da Galp, da grande distribuição e da banca, o primeiro-ministro não considera que estes devem ou não contribuir para mitigar os impactos do fenómeno inflacionista.
Confrontado com uma pergunta simples, Luís Montenegro quis falar de tudo. Disse que as pessoas vivem com mais rendimentos, abordou as descidas do IRS, puxou pelo IRS jovem, invocou a isenção de IMT, salientou a descida do IRC. Já sobre os lucros daqueles que impõem dificuldades à famílias, não teceu uma palavra.
Claramente desagradado com a ausência de resposta, Paulo Raimundo insistiu e desta vez o primeiro-ministro não teve como fugir, alegando que os grandes grupos económicos «não só devem como estão a contribuir». O secretário-geral do PCP não deixou o primeiro-ministro sair ileso com o peso da sua afirmação infundada e relembrou que o Governo prepara-se para dar 1700 milhões de euros em benefícios fiscais às grandes empresas e deixou uma garantia ao Governo: «Quanto mais avançar, mas força terá a luta das populações».
Após uma abertura de debate tensa, pautada pela denúncia da política direccionada para o favorecimento dos grandes grupos económicos, seguiu-se Hugo Soares para colocar em prática a narrativa do Governo. O líder da bancada parlamentar do PSD diz que as métricas que devem ser tidas em conta para avaliar o sucesso governativo é a ausência de aumento de imposto, a regulação na imigração e as melhorias na educação e saúde, apesar de não ter mencionado que o OE2027 prevê cortes nestes sectores.
No seguimento, Luís Montenegro, optou por manifestar desconforto com a crítica pública às suas políticas e acenou com supostos bons resultados económicos, procurando assim contraria o que considera ser «pessimismo». Alegando que o «excedente não é um fim último», apesar de subfinanciado serviços públicos para o alcançar, o primeiro-ministro concluiu a sua resposta a Hugo Soares com um tom triunfal.
Claro está que de seguida André Ventura teve a palavra e, além de mais uma vez contribuir para a degradação do debate político, o presidente do Chega evidenciou estar investido em roubar as bandeiras da Iniciativa Liberal e pautou a sua primeira intervenção sobre matérias fiscais, numa lógica de demonizar os impostos. Claro está que, no quadro das suas opções de classe, o Chega em momento algum procurou denunciar o aproveitamento que os grandes grupos económicos fazem da inflação.
Neste sentido, ficou evidente que o PS ao anunciar a viabilização do Orçamento do Estado deu margem ao Chega para encenar uma alegada oposição. Em resposta a André Ventura, Luís Montenegro procurou vender o seu peixe com o desconto do ISP nos combustíveis, a redução do IRS, e o aumento de pensões e do complemento solidário para idosos.
O momento insólito do debate chegou quando André Ventura quis parecer que é contra as portagens. O líder do Chega esqueceu-se, no entanto, que o seu partido, em Cascais onde participa no Executivo municipal, está a preparar-se, juntamente com o PSD, para criar portagens na EN6.
Pelo PS teve a palavra José Luís Carneiro, secretário-geral do partido, que começa a não ter grande margem para críticas na medida em que se irá abster no Orçamento do Estado. Apesar deste facto, e tendo noção da política levada a cabo pelo Governo, acusou o Executivo de Luís Montenegro de «grande insensibilidade para responder às questões fundamentais que se colocam às pessoas».
Carneiro quis ainda abordar a grave crise habitacional, apesar do seu partido ter votado contra todas as propostas que faziam frente à especulação imobiliária e, a pretexto deste tema, Luís Montenegro acusou os «socialistas» de não terem «a mínima autoridade» para falar sobre o tema.
A verdade é que, independentemente do tema, os embates entre o PS e o Governo nunca divergem muito. Se no caso da habitação, Luís Montenegro diz que em ex-governos PS a situação estava pior, esta é a cassete para todo e qualquer tema invocado por José Luís Carneiro, e no fim acabam por convergir.
Em matéria de convergência aparece também Mariana Leitão que apelou ao Governo para ir mais longe na liberalização do mercado de arrendamento. Em resposta à presidente da Iniciativa Liberal, Luís Montenegro reiterou que o «mercado precisa de mais oferta» e reconheceu «coragem» aos liberais.
Ainda em matéria de habitação, de registo fica o facto de Luís Montenegro ter acusado o Livre de ter apoiado politicas que levaram ao aumento das rendas e preço das casas: «as políticas que os senhores deputados andaram a apoiar e a patrocinar durante oito anos conduziram a um aumento exponencial do preço de arrendamento e de aquisição». Este argumento de Montenegro espalhou apenas o seu grave preconceito ideológico na medida em que há 8 anos o Livre não tinha assento parlamentar.
Pelo BE, o deputado único Fabian Figueiredo optou por questionar o Governo sobre o alegado erro da Caixa Geral de Aposentações relativamente às 3000 pensões que foram cortadas. Luís Montenegro, como seria de esperar, vincou que esses pensionistas terão que devolver o dinheiro que receberam «a mais».
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