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|E o mundo é a nossa tarefa

Estradas

E o mundo é a nossa tarefa é uma escolha semanal de Manuel Augusto Araújo.
Créditos David Hockney

Estradas

Não era noite nem dia. 
Eram campos, campos, campos 
abertos num sonho quieto. 
Eram cabeços redondos 
de estevas adormecidas. 
E barrancos entre encostas 
cheias de azul e silêncio. 
Silêncio que se derrama 
pela terra escalavrada 
e chega no horizonte 
suando nuvens de sangue. 
Era a hora do poente, 
quase noite e quase dia. 

E nos campos, campos, campos 
abertos num sonho quieto, 
sequer os passos de Nena 
na branca estrada se ouviam. 
Passavam árvores serenas, 
nem as ramagens mexiam, 
e Nena, para lá do morro, 
na curva desaparecia. 
Já da noite que avançava 
os longes escureciam. 
Já estranhos rumores de folhas 
Entre as esteveiras andavam, 
quando, saindo um atalho, 
veio à estrada um vulto esguio. 
Tremeram os seios de Nena 
sob o corpete justinho. 
E uma oliveira amarela 
debruçou-se da encosta 
com os cabelos caídos! 
Não era ladrão de estradas, 
nem caminheiro pedinte, 
nem nenhum maltês errante. 
Era António Valmorim 
que estava na sua frente. 

— Ó Nena de Montes Velhos, 
se te quisessem matar 
quem te havera de acudir? 

Sob o corpete justinho 
uniram-se os seios de Nena.
 
— Vai-te António Valmorim. 
Não tenho medo da morte, 
só tenho medo de ti. 
Mas já a noite fechava 
a saída dos caminhos. 
Já do corpete bordado 
os seios de Nena saíam 
— como duas flores abertas 
por escuras mãos amparadas! .. 
Ai que perfume se eleva 
do campo de rosmaninho! 
Ai como a boca de Nena 
se entreabre fria, fria! 
Caiu-lhe da mão o saco
junto ao atalho das silvas 
e sobre a sua cabeça 
o céu de estrelas se abriu... 

Ao longe subiu a lua 
como um sol inda menino 
passeando na charneca... 
Caminhos iluminados 
eram fios correndo cerros. 
Era um grito agudo e alto 
que uma estrela cintilou. 
Eram cabeços redondos 
de estevas surpreendidas. 
Eram campos, campos, campos 
abertos de espanto e sonho...

                          Manuel Fonseca

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