Ensaio sobre a Lucidez foi o texto escolhido por ser “«muito interessante e muito actual», ao pôr «em causa uma democracia que é extremamente frágil», acrescentou o encenador da companhia, José Carlos Garcia.
Ao contrário do que a companhia faz habitualmente, que é pegar numa ideia, desenvolvê-la no palco e depois, no final, elaborar o guião, desta vez foi decidido «dissecar o livro de José Saramago, página por página, e perceber» como seria possível «contar esta alegoria que ele faz, este exercício de imaginação, e depois transportá-la para palco», explicou o encenador.
O «sentido de humor e a própria ironia» do escritor e das suas personagens estão também na peça, uma vez que «não deixam de ser personagens reais observadas por ele na sua vida», disse José Carlos Garcia.
«Ensaio sobre a Lucidez é exactamente o que acontece no dia em que as pessoas decidem por vontade própria, não por uma organização, sem falarem uns com os outros, voarem quase todos em branco», o que faz com que o medo se instale no governo, levando a que um Estado democrático «possa revelar impulsos autoritários», frisou. «Por isso, a questão de uma democracia frágil», enfatizou.
Nos 30 anos da companhia, o colectivo decidiu então «montar um espectáculo através de um livro de José Saramago». Fazia-lhes «todo o sentido, 30 anos depois estar a falar desta democracia que, às vezes, como se diz, é frágil, mas também musculada», precisou José Carlos Garcia.
O encenador sublinha que se trata de um texto super actual, que «faz todo o sentido hoje em dia, pelos sinais velados de que podemos estar nesse caminho», alertou.
Em cena, Ensaio sobre a Lucidez pauta-se pelo cenário minimalista, sem mecanismos cenográficos nem figurinos especiais, em sintonia com a estética da Companhia, privilegiando-se «todo o trabalho de corpo do actor para servir a história».
A peça começa com uma enorme tempestade, com os delegados da secção 14 de voto muito preocupados com a ausência de votantes. Só após o temporal é que chegam eleitores para votar, o que leva os delegados e o presidente da mesa a ficarem extremamente contentes até ao momento do escrutínio em que percebem que a maior parte da população votou em branco.
A partir daqui, começa a escalada: o Governo volta a marcar eleições, das quais resultam 83% de votos em branco, dando o tiro de partida para um clima de medo e de violência que o Governo vai instalar face a um povo que nem revoltado estava, mas apenas lúcido.
«E se o maior perigo para um governo não for um povo revoltado, mas um povo lúcido?», é a questão deixada pela peça que estará em cena até 25 de Outubro, no Chapitô, com sessões de quinta-feira a sábado, às 21h, e, ao domingo, às 17h.
A peça é uma criação colectiva e conta com interpretação de Jorge Cruz, Pedro da Silva, Susana Nunes e Tiago Viegas. Na assistência de produção e de encenação está Leandro Araújo.
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