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Inquietação, Resistência e a capacidade de imaginar novos horizontes em Arte

Exposições «Realismo e humanismo na “arte inquieta” de Isolino Vaz» (Vila Franca de Xira), «Nada» de Isabel Sabino (Loures), «Partilhar» de Pia Camil (Porto) e «O Bestiário» de Carla Cabanas (Lisboa).

Obra de Isolino Vaz, Emigrantes, óleo sobre tela, 1956. Exposição «Realismo e humanismo na “arte inquieta” de Isolino Vaz» no Museu do Neo-Realismo (MNR), em Vila Franca de Xira, até 11 de outubro.

Créditos / Museu do Neo-Realismo

O Museu do Neo-Realismo (MNR)1, em Vila Franca de Xira, acolhe atualmente a exposição antológica «Realismo e humanismo na “arte inquieta” de Isolino Vaz», reunindo um conjunto representativo da produção artística do autor. Esta exposição pode ser visitada até 11 de Outubro.

A exposição integra obras de diferentes expressões artísticas, entre as quais desenho, pintura, escultura e cerâmica, evidenciando a versatilidade de Isolino Vaz e a constante procura de novas formas de expressão que marcaram a sua carreira. Através deste conjunto, agora apresentado, é possível compreender a dimensão humanista e realista da sua obra, bem como a singularidade da sua linguagem artística.

A exposição de Isolino Vaz constitui-se como uma excelente oportunidade para apreciar o legado de um artista cuja criação se distinguiu pela inquietação formal e estética e pelo olhar atento sobre a condição humana.

Associada às preocupações sociais e éticas que atravessaram parte significativa da produção artística portuguesa do pós-guerra, a obra de Isolino Vaz revela afinidades com o universo estético e ideológico do neorealismo.

Isolino Vaz (1922-1992) formou-se na Escola Superior de Belas-Artes do Porto e iniciou a sua atividade artística na década de 1940. Paralelamente ao trabalho como criador, desenvolveu uma relevante carreira pedagógica em escolas artísticas do Porto e de Lisboa, tendo sido professor de várias figuras que viriam a destacar-se no panorama cultural português, entre as quais os arquitetos Álvaro Siza e Alcino Soutinho e as artistas Graça Morais e Joana Vasconcelos.

Em 1956, Ferreira de Castro considerou «(...) uma obra admirável a interpretação que Isolino Vaz fez de “Emigrantes”, não só no seu quadro definitivo, mas também nos estudos que o precederam. É um pintor de grande talento. E, entre as suas muitas qualidades, possui aquela que indica o verdadeiro artista: a insatisfação».

Para Manuel António Pina, a obra de Isolino Vaz foi uma revelação, ao afirmar: «(...) revelação. E exemplo do radical inconformismo donde nascem, como na obra de Isolino Vaz, emoções temíveis. Eram dias difíceis em que a felicidade era feita de infelicidade e de solidariedade. A obra inquieta de Isolino testemunhava que não estávamos sozinhos e partilhava connosco o confuso sentimento épico da esperança (...)», segundo testemunho «Cinquenta anos de fidelidade»2.

Obra «Reset_it», 2026 (díptico), técnica mista de tintas acrílicas sobre tela, 152x220cm. Exposição “Nada” de Isabel Sabino na Galeria Municipal Vieira da Silva, em Loures, até 4 de Outubro. 

Créditos Alexandre Pomar

A Galeria Municipal Vieira da Silva3, em Loures, apresenta a exposição “Nada”, de Isabel Sabino, que reúne um conjunto de obras onde imagem, memória e imaginação se entrelaçam na construção de narrativas profundamente evocativas, até 4 de Outubro.

«A artista convoca paisagens físicas e emocionais, cruzando realidade e ficção num universo visual marcado pela presença da água, do território, da deslocação e da transformação. As obras exploram, simultaneamente, a fragilidade e a resistência da condição humana, convidando o público a refletir sobre temas tão atuais como guerra, pertença, esperança, sobrevivência e a capacidade de imaginar novos horizontes», segundo texto da exposição.

Quanto aos temas atrás referidos, a artista inspira-se mais precisamente numa história real de um antigo nadador palestiniano que, perante o elevado número de afogamentos de crianças na Faixa de Gaza, criou espaços improvisados para lhes ensinar a nadar, criando a partir desta narrativa a capacidade humana de imaginar futuros possíveis.

O texto da folha de sala refere ainda que em Nada, «cada imagem surge como um espaço de suspensão e possibilidade. Entre memórias preservadas e futuros incertos, Isabel Sabino propõe um percurso contemplativo, onde o visível e o invisível se cruzam e onde o significado permanece em constante movimento».

A obra «Partilhar» da artista mexicana Pia Camil no terreiro da Galeria Municipal do Porto, até 11 de Outubro. 

Créditos Inês Aleixo

Desde Maio, o terreiro da Galeria Municipal do Porto4 acolhe a obra «Partilhar» da artista mexicana Pia Camil, permanecendo neste espaço até 11 de Outubro.

Pia Camil é reconhecida pelas obras de grande escala desenvolvidas em colaboração com comunidades locais. Estas obras foram criadas a partir de «peças de roupa de segunda mão recolhidas junto de residentes do Porto, “Partilhar” é um lugar que o público pode observar e habitar», segundo o texto da exposição.

O texto do curador João Laia acrescenta, no texto de apresentação, que «num cruzamento entre obra de arte e espaço lúdico, a instalação reflete as investigações de Pia Camil, focadas nas relações das práticas colaborativas abordando temas como o mundo da indústria têxtil e a forma como funcionam como repositórios de informações culturais e um retrato da consciência coletiva».

Pia Camil (n.1980) vive e trabalha entre Acatitlán e Cidade do México, possui bacharelado em artes (BFA) pela Rhode Island School of Design e um MFA pela Slade School of Fine Art, Londres (2008). Camil é uma artista multidisciplinar, «desdobrando-se entre pintura, escultura, performance e instalações de grande escala, explorando como a arte pode criar espaços alternativos para a reflexão e a experiência partilhada. Motivada por uma perspetiva feminista e anticapitalista, a sua prática envolve frequentemente a participação do público, práticas de construção comunitária e a reutilização de materiais como formas de confrontar as contradições inerentes aos legados patriarcais e capitalistas (...)».

A Galeria Municipal do Porto apresenta também, até 11 de Outubro, o trabalho do artista lituano Augustas Serapinas (1990, Vilnius), «Cultura do Corpo: Edição Porto», que analisa diversas interseções possíveis entre a história da arte e a história da representação do corpo, e a exposição sonora «Para a Voz», da artista Lydia Ourahmane. Esta obra foi criada em colaboração com a sua irmã, a compositora e música Sarah Ourahmane, e foi «escrita para duas cantoras com deficiência visual, a composição expande-se pelo espaço triangular da Galeria Municipal do Porto.», segundo a folha de sala, que pode consultar aqui.

Obra de Carla Cabanas, «Goofus Brid – Ninho», 2024. Vinil autocolante, dimensões variáveis. Instalação «O Bestiário» da artista Carla Cabanas na Galeria Quadrum, em Lisboa, até dia 11 de Outubro. 

Créditos Bruno Lopes

Na Galeria Quadrum5, em Lisboa, podemos agora assistir a «O Bestiário», em que a artista Carla Cabanas apresenta uma instalação composta por esculturas inspiradas no universo dos seres imaginários de Jorge Luis Borges. Esta instalação poderá ser visitada até ao dia 11 de Outubro.

Carla Cabanas (1979, Lisboa) tem vindo a criar a série de esculturas que compõem «O Bestiário» a partir deste universo de junção entre elementos, significados e histórias do livro de Jorge Luis Borges, publicado em 1957 sob o título de «Manual de Zoologia Fantástica», em que a artista usa folha de ouro de um modo análogo à filosofia wabi-sabi e à técnica kintsugi, duas tradições japonesas.

Como nos revela o texto da exposição, «tal como no wabi-sabi, que celebra a beleza da imperfeição, da impermanência e da incompletude, e no kintsugi, no qual se unem partes partidas de uma mesma peça com ouro, também nestas esculturas-seres se tornam evidentes as falhas e alterações físicas da matéria, causadas pelo tempo ou por acidentes inerentes às constantes mudanças ao longo da vida.

A técnica serve, assim, de metáfora para a cura do trauma a partir da aceitação das cicatrizes, tornadas mais visíveis pelo ouro. Já o uso de fotografias da artista retiradas dos seus álbuns de família na construção de cada uma das esculturas-seres torna inevitável a projeção de características humanas nestas figuras fantásticas e o reconhecimento de partes de nós mesmos nelas».

Nesta instalação, os seres de «O Bestiário» distribuem-se por três núcleos interligados. «Entre o fascínio pelo encontro com estes seres fantásticos e a sensação de estranheza perante aquilo que nos é incomodamente familiar nesse encontro, O Bestiário coloca-nos num estado liminar: entre espaços e tempos, num vaivém constante entre avanço e recuo. É precisamente aí que reside a sua magia: na profunda afinidade com a experiência da vida humana», refere Luísa Santos, a curadora da exposição.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

 

  • 1

    Museu do Neo-Realismo. Rua Alves Redol, 45 | 2600-099 Vila Franca de Xira. Horário: terça à sexta-feira e domingo, 10h – 18h; sábado, 10h – 19h.

  • 2

    Textos integrados nos testemunhos da página web da Associação Mestre Isolino Vaz – AMIV.

  • 3

    Galeria Municipal Vieira da Silva. Parque Adão Barata 2670, Loures. Horário: terça-feira a domingo, 10h –13h e 14h –18h.

  • 4

    Galeria Municipal do Porto. Rua D. Manuel II (Jardins do Palácio de Cristal) | 4050-346, Porto. Horário: terça a domingo, 10h–18h.

  • 5

    Galerias Municipais – Galeria Quadrum Palácio dos Coruchéus. Rua Alberto Oliveira, 52 | 1700-019,  Lisboa. Horário: terça-feira a domingo, 10h–13h e 14h–18h.

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