Vivemos numa sociedade em que nunca foi tão fácil comunicar e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil distinguir informação de influência. A comunicação deixou de ser apenas um instrumento de transmissão de informação. Tornou-se um poderoso espaço de disputa pela atenção, pela emoção e, em última instância, pela capacidade de influenciar as decisões de cada um de nós.
Esta realidade tornou-se particularmente evidente nos processos eleitorais, onde as redes sociais e os meios de comunicação tradicionais assumem um papel determinante na formação da opinião pública. Mas o fenómeno ultrapassa largamente a política. Está no desporto, na cultura, na economia, na publicidade e nas relações quotidianas. Em todos estes espaços, ganha força uma lógica que privilegia protagonistas, líderes, ídolos e «heróis», muitas vezes à custa das ideias, dos factos e das consequências das decisões.
Uma informação falsa ou manipulada pode alcançar milhares de pessoas antes de ser desmentida. Quando chega o desmentido, a primeira impressão pode já estar instalada. É esta uma das forças da desinformação: não precisa de convencer toda a gente, basta-lhe lançar a dúvida, provocar indignação, alimentar o medo ou confirmar preconceitos que já existiam. É assim que se pode limitar a liberdade sem aparentemente a proibir.
Se um cidadão recebe sistematicamente informação selecionada de acordo com aquilo que os sistemas digitais sabem que mais intensamente desperta as suas emoções; se é exposto repetidamente às mesmas narrativas; se desconhece quem produziu determinado conteúdo e com que intenção; se factos e opiniões lhe são apresentados como se tivessem o mesmo valor; se a mentira circula com a mesma aparência da verdade; se o medo, a indignação ou o sentimento de pertença são utilizados deliberadamente para condicionar comportamentos, então a liberdade formal de escolher pode continuar intacta. Mas a liberdade material de construir a própria escolha começa a ser fragilizada.
E este é um ponto essencial: uma democracia não depende apenas da possibilidade de votar. Depende também da capacidade de cada cidadão formar livre e esclarecidamente a sua opinião.
«É esta uma das forças da desinformação: não precisa de convencer toda a gente, basta-lhe lançar a dúvida, provocar indignação, alimentar o medo ou confirmar preconceitos que já existiam. É assim que se pode limitar a liberdade sem aparentemente a proibir.»
A transformação da vida pública numa sucessão de protagonistas merece, por isso, uma reflexão séria. O futebol oferece talvez o exemplo mais evidente. A recente operação de intoxicação pública associada ao abandono do estágio da seleção nacional por Cristiano Ronaldo mostra como um atleta pode rapidamente deixar de ser apenas um desportista para se transformar numa figura de identificação coletiva. O mesmo acontece com comentadores, influenciadores e outras figuras públicas.
Um comentador não deve ser acreditado porque aparece todos os dias num canal de televisão. Um «influenciador» não deve ser considerado autoridade apenas porque possui milhões de seguidores. Um ídolo desportivo não deve transformar-se numa referência moral simplesmente porque é extraordinário na sua profissão.
Confundir notoriedade com conhecimento, popularidade com autoridade ou emoção com verdade é uma das formas mais eficazes de enfraquecer a capacidade crítica dos cidadãos.
Perante isto, impõe-se a pergunta inevitável: o que fazer?
Desde logo, reforçar a literacia mediática e digital. Não basta ensinar a utilizar tecnologias. É necessário ensinar a pensar perante aquilo que elas nos apresentam. Desde a escola, cada cidadão deveria ser preparado para formular perguntas simples, mas fundamentais: quem produziu esta informação? Com que intenção? Qual é a fonte? Que evidências existem? O que está omisso? Quem beneficia com a sua divulgação?
Estas perguntas são hoje instrumentos de liberdade.
É igualmente necessário responsabilizar quem produz e distribui deliberadamente desinformação. Uma sociedade democrática não pode ser indiferente perante aqueles que utilizam conscientemente a manipulação para condicionar comportamentos, explorar emoções ou degradar a confiança dos cidadãos nas instituições, nos outros e no coletivo a que se pertence.
Mas a responsabilidade não pode ser apenas dos que produzem ou distribuem desinformação. É também nossa. Uma sociedade livre exige cidadãos disponíveis para questionar, verificar, comparar e pensar antes de aceitar e partilhar.
A liberdade democrática que nos foi devolvida com a Revolução de Abril não termina quando depositamos o boletim de voto numa urna. Continua todos os dias: no local de trabalho, no local de residência, na família, na rua, nas redes sociais, em cada conversa, em cada opinião, em cada escolha e em cada decisão coletiva.
É por isso que, hoje, a defesa da liberdade passa também pela defesa da liberdade perante a pressão comunicacional. Este talvez seja um dos maiores desafios democráticos do nosso tempo: garantir que, numa sociedade inundada de informação, imagens, opiniões e estímulos emocionais, cada pessoa continue verdadeiramente livre para pensar, escolher e decidir.
Livre não apenas para votar, mas para formar a sua própria opinião. Livre não apenas para falar, mas para não ser conduzida pela manipulação. Livre, finalmente, para exercer a sua cidadania sem perder a noção de coletivo e da enorme força transformadora que este conceito encerra.
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