Passar para o conteúdo principal

|cinema

Redescobrir Amílcar. Lutar como Cabral

Numa época em que o fascismo tenta reerguer as suas sombras, a memória de Cabral expõe a violência do império colonial. Quando se tenta normalizar a retórica do fim dos tempos, revisitar Amílcar Cabral é um acto de resistência que nos alimenta de profunda confiança.

«Amílcar», de Miguel Eek

Créditos / DocLisboa

O cinema é sempre um espelho do tempo presente, mesmo quando procura não entregar nada, mas a proposta feita pelo Festival DocLisboa, num fim-de-semana em que milhares de trabalhadores e jovens saíram à rua, trouxe a figura de Amílcar Cabral ao ecrã como um grito vivo de poesia e urgência.

O filme de Miguel Eek é uma viagem intimista pelos escritos, poemas, arquivos e cartas privadas de Amílcar Cabral (Bafatá, Guiné-Bissau, 1924-1973). Assim, o realizador não nos entrega o típico documentário tradicional de entrevistas, e elege antes uma travessia mais arriscada, a de caminhar pelas palavras do próprio Amílcar Cabral.

Moldado a partir da correspondência pessoal de cartas de amor e preocupações que Amílcar enviou à sua primeira esposa, Helena, e posteriormente a Ana Maria, a segunda esposa, entrelaçada com os documentos da PIDE, o documentário do realizador maiorquino reconstrói o percurso de vida do herói da resistência e líder da luta anticolonial da Guiné-Bissau e de Cabo-Verde.

A voz de Nuno Miranda, num discurso directo a partir desses escritos, tece um diálogo entre o homem afectuoso e o líder revolucionário, uma opção assumida pelo realizador na busca por um lado mais intimista de uma figura que era muito maior que o seu tempo. Miguel Eek constrói assim a história de Amílcar Cabral na primeira pessoa, apesar das adaptações efectuadas, mas mantendo uma proximidade que se assemelha mais às formas de comunicação actual. Há uma construção poética encantadora na forma como a imagem se revela. 

«Assim, o realizador não nos entrega o típico documentário tradicional de entrevistas, e elege antes uma travessia mais arriscada, a de caminhar pelas palavras do próprio Amílcar Cabral.»

O arquivo histórico, como as gravações em película recolhidas pela solidariedade internacional durante a guerra de libertação e arquivos de iniciativas internacionais cosem-se com o grão da película de 16mm das imagens rodadas no presente.

Esta obra, que nasce do desencanto do realizador perante o sufoco social que se sentia em Espanha em 2013, demorou 13 anos para nascer. O antídoto acabou por ser encontrado em Cabo Verde, na história do estudante de agronomia que sonhou a soberania da Guiné-Bissau e de Cabo-Verde e que se tornaria um dos mais importantes líderes revolucionários do mundo. O filme aborda a ligação entre os afectos das cartas de amor e a sua profunda ligação ao povo guineense, donde emerge a luta de libertação.

É retratado assim um homem que transcendeu fronteiras, apoiando os movimentos de libertação dos Países de Língua Oficial Portuguesa e obtendo apoios à libertação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, na União Soviética e na Suécia. Revela também as suas capacidades diplomáticas e o seu génio carismático ao conseguir, na ONU, o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau por 70 nações.

Mas é talvez nas imagens da sua participação na Conferência Tricontinental de Solidariedade dos Povos de África, Ásia e América Latina, onde liderou a delegação do PAIGC, que o reconhecimento de Cabral como um grande líder da luta anti-imperialista é expressa nas palavras de Fidel Castro.

Numa época em que o fascismo tenta reerguer as suas sombras, a memória de Cabral expõe a violência do império colonial. Quando se tenta normalizar a retórica do fim dos tempos, revisitar Amílcar Cabral é um acto de resistência que nos alimenta de profunda confiança.

A mesma confiança que, até ao seu assassinato em 1973, Amílcar Cabral nunca abandonou, a de que os povos e os trabalhadores têm, na sua unidade e luta, a capacidade de transformar a realidade. Este filme é uma viagem pela matéria da qual são feitas as ideias de um homem que, sublevando a cultura africana como elemento de resistência, uniu a ternura, a luta e a poesia, como a que nos convoca:

«— sai…
Sai para a luta (a vida é luta)
os homens lá fora chamam por ti,
e tu, Poesia és também um Homem.»1

  • 1

    «A minha poesia sou eu», de Amílcar Cabral, em «revista Seara Nova». 1946

Tópico

Contribui para uma boa ideia

Desde há vários anos, o AbrilAbril assume diariamente o seu compromisso com a verdade, a justiça social, a solidariedade e a paz.

O teu contributo vem reforçar o nosso projecto e consolidar a nossa presença.

Contribui aqui