Reclamando a reabertura das negociações salariais, a restituição do Fundo de Incentivo aos Docentes e, de um modo geral, o cumprimento da Lei Nacional da Educação, os docentes argentinos realizaram uma paralisação de 24 horas esta segunda-feira, sendo que a ameaça governamental de «inspecções aleatórias» para garantir «um mínimo de 75%» das aulas parece ter funcionado ao contrário.
Para os sindicatos que dinamizaram conjuntamente a jornada de luta em todos os níveis de ensino – Ctera, Conadu e Conadu Histórica –, a estratégia de «vigilância» dos «libertários» acabou por deitar mais lenha para a fogueira e mostrar que as reivindicações dos docentes são «válidas».
As estruturas sindicais, que evitaram apontar números oficiais – que podiam depois servir de base a uma «argumentação punitiva» –, qualificaram como «forte» a adesão ao protesto desta segunda-feira, algo que o Página 12 confirmou na cidade de Buenos Aires e em províncias como Buenos Aires, Santa Fé, La Pampa, Córdoba, Santa Cruz ou Terra do Fogo.
Salários de fome
Na capital, a mobilização teve lugar frente ao Ministério da Economia, onde a secretária-geral do Ctera, Sonia Alesso, se referiu aos «salários de fome» que os professores recebem, bem como ao modo como se endividam um mês atrás doutro, com um salário mínimo federal congelado nos 500 mil pesos (cerca de 290 euros).
Alesso repudiou a Lei da Liberdade Educativa – de que já há rascunhos conhecidos – e denunciou o facto de o governo de Milei «não ter construído uma única escola durante o seu mandato», e não ter concluído, como prometido, as escolas iniciadas no final do governo anterior.
Vários dirigentes sindicais firmaram um projecto de declaração, apresentado à Câmara dos Deputados, que insta o Poder Executivo «a respeitar e a garantir o pleno exercício da liberdade de associação e do direito à greve» e «a abster-se de aplicar sanções administrativas, multas ou quaisquer outras medidas de retaliação às organizações sindicais e trabalhadores da educação por convocarem, organizarem ou participarem na greve nacional dos professores de 3 de Agosto de 2026».
No dia de greve, a educação era «essencial» para o governo
Em declarações ao Página 12, Hugo Yasky, deputado e secretário-geral da Central dos Trabalhadores da Argentina (CTA), denunciou que, «para o governo, a educação é essencial no dia em que os professores fazem greve, quando tudo fez para destruir e desfinanciar o sistema educativo».
«O nível de adesão que esta greve teve em todo o país demonstra que o clima social está num ponto de viragem. Acredito que começou uma contagem decrescente para o aumento do conflito social, e esta greve reflectiu isso de uma forma clara», avaliou Yasky.
«Esta tentativa de extorsão que ocorreu nas redes sociais – foi assim que descobrimos – só serviu para dar mais legitimidade e legalidade à greve. O direito à greve é constitucional e as nossas reivindicações são legítimas», disse, em alusão à ameaça de inspecções, María Laura Torre, secretária-geral do Suteba (sindicato dos trabalhadores da educação da província de Buenos Aires). «Estamos a exigir os nossos salários e o direito à educação para todos os argentinos», frisou.
Numa semana marcada por várias mobilizações, Torre acrescentou que as reivindicações dos docentes se vão continuar a sentir na manifestação convocada para esta quinta-feira frente ao Congresso contra a lei da propriedade estrangeira das terras.
«Sabemos que os docentes não se vão salvar sozinhos. Como foi dito hoje na manifestação, estamos a caminhar para uma marcha federal e uma greve geral. Fazemos parte de tudo isto que se está a sofrer e fazemos parte da luta», declarou.
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