No contexto da grave situação económica que as camadas populares vivem no país austral, milhares de pessoas mobilizaram-se esta quinta-feira na capital argentina, até ao Ministério da Economia, reclamando ao governo de Javier Milei que tome medidas face à crise de endividamento familiar.
A acção de protesto foi convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), as duas centrais dos Trabalhadores da Argentina (CTA-T e CTA-A) e a União dos Trabalhadores da Economia Popular (UTEP), a que se juntaram organizações de endividados – pessoas que se organizaram ao descobrir que o seu problema não era individual mas colectivo –, para exigir a imposição de limites às taxas de juros.
As organizações estimam que cerca de 20 milhões de pessoas na Argentina tenham algum tipo de dívida com entidades financeiras, das quais cerca de seis milhões estão em «situação crítica». Em comunicado, a CGT afirmou: «As famílias argentinas endividam-se para poder viver, pagar a renda, comprar comida, pagar as facturas da luz e do gás, ou suportar as despesas básicas da casa.»
Muitos alertas e críticas a Milei
Cristian Jerónimo, co-secretário-geral da CGT, apontou as responsabilidades do governo. «Há aqui dois culpados e dois responsáveis: o presidente e o ministro da Economia. Estão a implementar uma política regressiva e totalmente orientada para a austeridade, que está a sufocar os salários dos trabalhadores, a destruir o consumo e a paralisar todo o sistema produtivo», denunciou.
Por seu lado, Hugo Godoy, secretário-geral da CTA Autónoma, associou a crise do endividamento à queda do emprego formal. «Já foram destruídos 340 mil empregos formais e quase 30 mil empresas continuam a fechar», disse, citado pela TeleSur.
O secretário adjunto da CTA-T, Roberto Baradel, salientou que o fenómeno não se limita às famílias, uma vez que «o problema do endividamento» também atinge «as pequenas e médias empresas, que devem dinheiro aos bancos ou às carteiras digitais».
Já Norma Morales, secretária adjunta da UTEP, lembrou a situação das mulheres dos bairros populares, que «se endividam para manter a vida das suas comunidades», tendo acrescentado: «A dívida não é uma questão individual; é uma dívida colectiva. Uma população endividada é consequência de políticas governamentais que defendem os poderosos, que nunca perdem.»
Também em diálogo com a imprensa, Jorge Sola, secretário-geral da CGT, definiu a situação como uma «pandemia de endividamentos», sublinhando que «não se trata de um assunto entre privados», numa alusão directa à atitude e às declarações de Javier Milei.
Recorde-se que, no início deste mês, o presidente argentino disse numa entrevista que as pessoas não se endividaram com «uma pistola apontada à cabeça», pelo que não cabe ao Estado intervir.
Noutra entrevista, classificou o endividamento como «uma transacção entre privados», que tem de ser tratada «entre privados».
Governo deve assumir a responsabilidade pelas suas políticas
Em declarações à TeleSur, Jacqueline Morisco, da Secretaria de Género da Associação dos Funcionários Públicos e das Finanças (APEH), abordou as dificuldades que as famílias vivem para suprir as necessidades básicas: «Não conseguimos pagar a conta da luz, a renda, não conseguimos pagar o seguro de saúde privado, não há serviços sociais que nos cubram em caso de doença», disse.
E responsabilizou directamente o governo: «O que queremos é que o governo assuma a responsabilidade e não diga que a culpa é nossa, que as políticas que implementam diariamente são as responsáveis pelo endividamento de quase metade, quase 56%, dos argentinos.»
Por sua vez, Julia Moragues, membro da Associação dos Funcionários da Segurança Social (APOPS), relacionou o endividamento com a falta de aumentos salariais. «Estamos há 32 meses com um governo que não abre negociações colectivas; os salários estão muito abaixo da inflação», declarou.
Para Moragues, isto mudou a própria razão do endividamento familiar. «Significa que as famílias precisam de recorrer ao endividamento não para comprar electrodomésticos ou viajar, coisas para as quais costumavam pedir empréstimos, mas para comprar comida», alertou.
Entre os sectores mais afectados, lembra a fonte, encontram-se os reformados, muitos dos quais conciliam trabalhos informais – como conduzir para aplicações de transporte ou fazer biscates – com a pensão mínima, que em Agosto de 2026 se situa nos 489 775,92 pesos (cerca de 279 euros), já incluindo o bónus extraordinário, congelado nos 70 mil pesos (40 euros) há meses.
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