Convocados pela Assembleia Coordenadora de Estudantes Secundários (ACES), milhares de jovens chilenos contestaram esta quinta-feira a realização Foro de Madrid e repudiaram as políticas de austeridade do governo de José Antonio Kast.
Os Carabineiros intervieram de forma violenta pouco antes de a marcha entrar na Alameda, usando canhões de água e gás lacrimogéneo para tentar impedir a passagem dos manifestantes, alguns dos quais responderam com artefactos pirotécnicos, refere a Prensa Latina.
Vários jovens procuraram refúgio em instalações próximas à Universidade Católica devido à intoxicação provocada pelos gases. Lorena Salazar, uma das manifestantes, criticou as políticas de Kast, que reduziu as bolsas estudantis e pretende reformar a Constituição, para aplicar medidas como o estado de excepção sem aprovação do Congresso.
Em declarações à agência, denunciou também a mega-reforma tributária, que beneficia os mais ricos, num contexto de crescimento do desemprego e de subida dos preços da gasolina.
Por seu lado, Karol Peña referiu-se à realização do Foro de Madrid, que àquela hora juntava Kast, Milei e outros representantes da extrema-direita mundial em Santiago. «A extrema-direita nunca deu prioridade aos direitos humanos, nem aos direitos dos cidadãos», disse, numa mobilização a que se juntaram a Rede de Solidariedade Estudantil, a Confederação de Estudantes do Chile, entre outras organizações.
Presença «inaceitável» de extremistas no Chile
Numa outra mobilização, também no centro de Santiago, jovens e trabalhadores juntaram-se para condenar a presença no país austral daqueles que «querem consolidar os privilégios de uma pequena camada da sociedade».
Rafael Torres, um dos organizadores da mobilização convocada pela Assembleia Popular Antifascista e a Central Classista dos Trabalhadores, disse à Prensa Latina que a população se tem de manifestar, lembrando que as ruas são também uma ferramenta para lutar pelos interesses das camadas mais desfavorecidas.
Os manifestantes louvaram a coragem do movimento estudantil contra os canhões de água dos Carabineiros, sublinharam a importância de lutar contra o fascismo internacional, consideraram «inaceitável» a presença no seu país de porta-vozes do extremismo de direita e referiram-se à participação no chamado Foro de Madrid do embaixador dos EUA no Chile, Brandon Judd.
Extrema-direita sempre com a «liberdade» na boca
O diplomata norte-americano falou no painel «O novo papel dos Estados Unidos na Ibero-América», tendo feito a apologia da «Doutrina Donroe», que mescla as ideias de Donald Trump com a fórmula de James Monroe de «América para os americanos».
Judd disse que essa ideia tem uma aplicação diferente em cada país e que os embaixadores estão capacitados para a implementar de acordo com as circunstâncias. «O que é formidável é que, quando se tem uma administração como a do Presidente [José Antonio Kast], tudo se torna muito fácil», disse.
O quinto encontro regional do Foro de Madrid, promovido por uma fundação espanhola, abordou a «possibilidade real de abrir uma nova era de liberdade» na América Latina, refere a agência EFE, tendo em conta os avanços da direita e da extrema-direita na região e o modo como isso se articula bem com o projecto do actual presidente norte-americano para o hemisfério.
Louvores de Milei à ditadura no Chile
Depois das boas-vindas dadas aos participantes por um alto representante do partido fascista espanhol Vox, interveio o presidente argentino, Javier Milei, que destacou a importância de «tirar o cancro da esquerda das instituições».
Milei inaugurou a cimeira da extrema-direita em Santiago com a defesa aberta da ditadura de Pinochet e um ataque aos protestos de 2019 no Chile, a que se referiu como «onda de violência de esquerda».
«Depois da queda do comunista Allende, o Chile entrou num período de estabilidade e crescimento que durou mais de 40 anos», afirmou Milei, acrescentando que, como resultado deste processo, o país se tornou «a inveja de toda a região em termos económicos».
Em comunicado, Maya Fernández Allende, neta do presidente chileno derrubado pelo golpe de Estado fascista de 11 de Setembro de 1973, considerou as declarações do presidente argentino «extremamente graves», por enaltecer o golpe e por serem proferidas onde foram, a poucos dias de se assinalar o 11 de Setembro.
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