Passar para o conteúdo principal

|desigualdade

A desigualdade, a luta e a confiança no futuro 

Nas análises que vamos fazendo, olhamos muitas vezes para a riqueza que todos os anos é produzida no nosso país e para a forma como é distribuída. É a partir desta análise que concluímos que há uma grande desigualdade.

Menos de metade do total criado vai para salários e pensões (estatisticamente enquadradas no conceito «remunerações») e, mesmo na parte distribuída sob a forma de lucros, rendas e juros («Excedente Bruto de Exploração» – EBE na linguagem estatística) que vai para as empresas do sector financeiro e não financeiro, a apropriação da riqueza é muito desigual. As 1723 grandes empresas no nosso país (0,3% do total) ficam com quase metade do EBE de todas as empresas. Em 2024 (último ano com dados desagregados disponíveis), estas grandes empresas apropriaram-se de 35,4 mil milhões de euros, um aumento de 60% face a 2021, quando o EBE total aumentou 49,2%, isto é, acentuou-se o nível de concentração da riqueza nestas grandes empresas.

O INE publicou recentemente o «Inquérito à Situação Financeira das Famílias 2024», onde o efeito acumulado desta realidade pode ser visto. A abordagem do INE incide sobre a riqueza líquida (que corresponde à diferença entre o valor total da riqueza (activos reais e activos financeiros) e o valor total da dívida) detida por cada agregado familiar, acumulada ao longo do tempo e não apenas aquela que resulta da repartição da riqueza criada em cada ano. Os dados são avassaladores.

O INE divide a população por grupos (percentis) ordenados de forma crescente em função da riqueza líquida de cada um, para nos mostrar como esta está distribuída. Começa com os 20% que menos ganham, e termina nos 10% que mais têm.

Em 2024, os 10% mais ricos detinham tanta riqueza como o resto da população toda junta. Metade da população detinha apenas 8,9% da riqueza total. 80% dos que vivem e trabalham no nosso país só ficam com um terço da riqueza. Os 10% mais ricos detinham 4,3 vezes mais riqueza que metade da população e 389,6 vezes do que é detido pelos 10% mais pobres.

Para termos uma ideia destes níveis de desigualdade, imaginemos um grupo de dez pessoas (onde cada uma representa 10% da população – por simplificação, onde os dados do INE nos dão um percentil de 20%, assumimos que cada um dos dois indivíduos do nosso exemplo recebem o mesmo) e que a riqueza total acumulada é de 100 euros.

Neste grupo de dez pessoas, há uma que fica com aproximadamente 50 euros do total por nós assumido de 100 euros. Metade, cinco pessoas todas juntas, detêm apenas 8,90 euros. Os oito que menos ganham acumulam no total 33,50 euros. Enquanto que o mais rico deste grupo tem quase 50 euros, os dois mais pobres têm dez cêntimos cada.

O exemplo é uma ilustração, mas o país onde isto acontece é o nosso, aos dias de hoje. A política de direita, os que defendem os interesses desta minoria, querem apresentar este grupo de dez pessoas como um grupo de amigos ou, quando isto se torna insustentável, colocar os nove que menos ganham uns contra os outros. Sempre para manter e, se possível, aumentar o fosso que nos separa a todos da ínfima minoria que se apropria da maioria da riqueza existente em Portugal.

«Em 2024, os 10% mais ricos detinham tanta riqueza como o resto da população toda junta. Metade da população detinha apenas 8,9% da riqueza total.»

Estudos sobre esta matéria demonstram que, mesmo entre os 10% mais ricos, a distribuição da riqueza possa ser semelhante à que aqui se apresenta para o todo nacional, ou seja, que 1% detenha tanto como os outros 9% deste grupo, mas os dados do INE não fazem esta desagregação.

A influência política, económica, social e cultural desta minoria é incontornável. Dominam órgãos de comunicação, minam os centros de pensamento, disseminam a ideologia que justifica e glorifica a sua riqueza. São eles os beneficiários da política de privatizações, da tentativa de desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS), da transformação do direito à habitação num activo financeiro, do ataque que pela calada está em desenvolvimento na Segurança Social, da degradação de funções sociais e dos serviços públicos. É a eles que se dirige o pacote laboral, que visa colocar em ainda piores condições aqueles que já tão pouco têm da riqueza que existe, e tão mal distribuída está.

É para os 90% da população que se dirige a política patriótica e de esquerda, é para unir os que têm os mesmos interesses, mobilizar e lutar por uma distribuição justa da riqueza que é criada por quem trabalha.

Não tem sido um caminho fácil. A luta tem sido longa e feita de avanços e recuos, mas também de momentos de clara demonstração de força e unidade. As duas greves gerais que marcaram este período foram muito mais do que meros protestos. Foram a expressão inequívoca de que a maioria deste país recusa viver com dificuldades crescentes enquanto uma minoria acumula fortunas. Foram o sinal de que há consciência, organização e vontade de mudar.

Por isso, olhamos para o futuro com confiança. Não uma confiança ingénua, que espera passivamente que a realidade se transforme, mas a confiança de quem sabe que a luta colectiva produz resultados, que temos organizações consequentes para dar corpo e forma a esta batalha. A confiança de quem acredita que é possível construir um país onde a riqueza seja repartida com justiça, onde ninguém tenha dez cêntimos enquanto outro tem 50 euros. O futuro será feito da nossa coragem e da nossa união. E por ele continuaremos a lutar.

Tópico

Contribui para uma boa ideia

Desde há vários anos, o AbrilAbril assume diariamente o seu compromisso com a verdade, a justiça social, a solidariedade e a paz.

O teu contributo vem reforçar o nosso projecto e consolidar a nossa presença.

Contribui aqui