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Olhar sem ver

Não. Fernando Alexandre não culpou «os sindicatos». E não: não é uma questão de semântica. Nada neste Governo é uma questão de semântica, quando estão em causa os direitos de quem trabalha.

Créditos António Pedro Santos / Agência Lusa

A notícia é clara e objectiva: Fernando Alexandre culpa a Fenprof. Nada mais a acrescentar. Nas redes sociais, muitos partilharam a notícia e, justamente, mostraram a sua indignação. Mas também houve quem preferisse partilhá-la, acrescentando o seguinte comentário: Fernando Alexandre culpou «os sindicatos».

Ora nada pode ser mais vago, vazio e cómodo do que «os sindicatos», já que os há de muitas formas, feitios e inclinações: os que assinam acordos com o Governo? Os que não assinam? Os que fazem greve? Os que não fazem? Os que estão na CGTP-IN? Os que estão noutras centrais? Os que representam trabalhadores do sector público? Os que representam trabalhadores do privado? Os que defendem determinada política laboral? Os que defendem outra?

Não. Fernando Alexandre não culpou «os sindicatos». E não: não é uma questão de semântica. Nada neste Governo é uma questão de semântica, quando estão em causa os direitos de quem trabalha. A verdade (e às vezes esquecemos isso) é que as palavras contam, porque também contam os alvos que se escolhem, as organizações que se atacam e as lutas que se procuram descredibilizar.

Fernando Alexandre acusou e culpou a Fenprof, que é uma federação sindical de classe e a maior federação de sindicatos de professores no nosso país. Repito: não culpou «os sindicatos». Culpou, e acusou, uma Federação específica afecta à CGTP-IN, que esteve na linha da frente na luta contra o Pacote Laboral que tem defendido de modo intransigente e consequente a Escola Pública e os direitos dos professores.

«A notícia é clara e objectiva: Fernando Alexandre culpa a Fenprof. Nada mais a acrescentar.»

Acusou e culpou uma organização sindical que tem tido uma intervenção concreta e consequente, com posições concretas e consequentes e com uma história concreta e consequente de luta. 

É precisamente por isso que a tentativa de dissolver esta acusação no indistinto «os sindicatos» não é uma simplificação inocente: apaga o alvo político da acusação.

Aliás, esta acusação à Fenprof não surge por acaso, no vazio. Surge porque a Fenprof não concorda com o pagamento de «um complemento remuneratório de um euro por item classificado em suporte digital» e exige o pagamento de todo o trabalho suplementar e do ressarcimento pelas férias não gozadas, conforme o direito dos professores (como o AbrilAbril já tinha noticiado). E é precisamente aqui que a acusação de Fernando Alexandre deve ser lida.

Porque quando uma organização sindical exige que o trabalho seja pago, que o trabalho suplementar seja efectivamente remunerado e que direitos que não foram gozados sejam ressarcidos, não estamos perante uma questão de retórica sindical. Estamos, isso sim, perante uma disputa concreta sobre trabalho, remuneração e direitos laborais. E quando, perante essa contestação, o responsável político escolhe apontar o dedo à organização sindical que a protagoniza, também não estamos perante uma questão de palavras, ou uma questão de semântica. Longe disso.

Estamos perante um conflito político e laboral. Ignorar isto é olhar sem ver.

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