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Frei Betto: «A trincheira literária é uma das formas da minha militância política»

Frei Betto esteve em Lisboa na semana que antecedeu as eleições presidenciais brasileiras, com uma agenda cheia. Falou de educação popular, política, resistência no passado e também no presente, e concedeu uma entrevista ao AbrilAbril.

Créditos / DR

Frei Betto nasceu no Brasil, em Belo Horizonte, é frade dominicano e militante, desde sempre, pela paz e pelos direitos humanos. Estudou jornalismo, antropologia, filosofia e teologia. É escritor, autor de mais de 84 livros, editados no Brasil e traduzidos em vários países. Ganhou, em 1982, o Jabuti, principal prémio literário do Brasil, pelo seu livro de memórias Batismo de Sangue, e também o prémio Juca Pato pela sua obra Fidel e a religião.

Resistiu à ditadura juntamente com outros religiosos, foi preso e torturado, e participou intensamente no movimento social que democratizou o Brasil. Continua a falar, a escrever e a acreditar que a utopia é fundamental no caminho da transformação do mundo. Na semana passada, Frei Betto esteve em Lisboa para falar de educação popular, política, resistência no passado e também no presente. Apesar da agenda preenchida, conseguiu falar com o AbrilAbril, nas vésperas da segunda volta das eleições presidenciais no Brasil. 

 

O Frei Betto viveu com muita intensidade a luta contra a ditadura militar no Brasil. Olhando para essa experiência, de que é que ainda é importante falar hoje? O que é que, na sua opinião, pode fazer quem viveu esses tempos e tem memória para falar deles? 

Hoje, é importante fortalecer as democracias e evitar o crescimento da extrema-direita. Para isso, os sectores progressistas devem assumir intensa e urgentemente duas tarefas: voltar ao trabalho político junto aos segmentos populares e aprender a usar as redes digitais. Precisamos resgatar a dimensão utópica da vida.

 A Teologia da Libertação e o papel do Papa Paulo VI, tiveram uma influência decisiva na segunda metade do século XX, no diálogo que estabeleceu com os movimentos populares de resistência a guerras e a ditaduras, mas hoje os sectores religiosos têm também uma presença política muito significativa apoiando a extrema-direita, tanto no Brasil, como nos EUA, e em diversos países europeus. Mas a religião também é mobilizada em defesa do autoritarismo, da desigualdade e de agendas conservadoras. Como vê este cenário? 

Sempre foi assim. A religião, como a política, é uma arma de «dois gumes»: serve para libertar ou oprimir. Lembre-se que o principal conflito de Jesus foi com os religiosos de seu tempo. Ele se rebelou contra a religiosidade esclerosada do judaísmo. Por isso a Teologia da Libertação continua a ter um papel preponderante, de modo a reler a Bíblia pela óptica dos oprimidos. Para isso, devemos incrementar as comunidades eclesiais de base e adoptar o marxismo como método de análise da realidade, fortalecendo nossa fé na oração e na reflexão bíblica. 

A sua presença e posicionamento político convive com a sua escrita. Esteve ligado, por exemplo, ao Programa «Fome Zero» do Governo do PT. Como foi essa experiência num país como o Brasil e como vê a situação do Brasil neste momento, às portas do segundo turno das eleições presidenciais? Como têm sido para si estes dias?

São dias aflitivos, pois a disputa presidencial no Brasil está muito acirrada. Se Lula vencer, terá pela frente muita dificuldade de governar com as forças parlamentares, por isso deverá investir na mobilização popular. Se Bolsonaro vencer, o Brasil se tornará um protectorado trumpista, como a Venezuela.

«Devemos incrementar as comunidades eclesiais de base e adoptar o marxismo como método de análise da realidade, fortalecendo nossa fé na oração e na reflexão bíblica.»

Tem falado da importância do «trabalho de base», colectivo e de comunidade, de como voltar a construir vínculos colectivos, organizando quem quer um mundo melhor. Em sociedades de tanta desesperança e individualismo, que experiências e caminhos nesse sentido é que vê actualmente? 

Sim, o uso constante de telefones celulares para acessar redes digitais exacerba o individualismo e o narcisismo. Daí a importância de promover educação digital nas escolas e nos movimentos sociais. Estou convencido de que, na juventude, quanto menos utopia mais drogas. Em minha geração 68 havia drogas, mas quase não havia drogados, porque éramos viciados em utopia! 

A palavra utopia está, sem dúvida, entre as que continua a ter presentes, mesmo reconhecendo as dificuldades. Numa época em que muitos jovens enfrentam a insegurança económica, a crise climática e a solidão, qual é o papel desta ideia e qual poderá ser o papel da escola e de quem trabalha com os mais novos? 

A escola tornou-se uma empresa capitalista destinada a formar mão-de-obra qualificada para o mercado de trabalho. Ora, o papel da escola é formar seres humanos felizes, dotados de consciência crítica e capazes de protagonismo social. As nossas escolas necessitam de uma boa dose de Paulo Freire. E aos portugueses recomendo o Manifesto «Podemos Educar depois de Gaza?», da editora Observatório.

Em Maio de 2026, o Papa Leão XIV, dedicou a sua primeira Encíclica «Magnifica Humanitas» à necessidade de valorizar e proteger as mulheres e os homens, subordinando a ciência e a tecnologia ao interesse dos humanos e ao interesse por uma vida digna. Como vê esta mensagem e a centralidade no humano, nestes tempos? 

Os papas Francisco e Leão XIV têm sido as vozes críticas do nosso tempo. Eles abrem os nossos olhos diante dessa sociedade capitalista que cada vez mais investe na indústria da morte, potencializando a indústria bélica, e não é capaz de destinar recursos à preservação da vida, como o combate à fome ou a reconstrução de Gaza.  

Vive num país com uma cultura riquíssima, onde convivem diversas religiões e modos de lidar com a espiritualidade, como vive a Igreja Católica esta relação, e quais são as experiências que o marcaram ao longo do seu percurso neste sentido?

O povo brasileiro é polireligioso, numa mescla de cristianismo e religiões de matrizes africanas e indígenas. Isso se constitui numa grande riqueza espiritual e cultural. Infelizmente, os fundamentalistas cristãos têm ameaçado essa diversidade. Sempre fui muito aberto a outras religiões e experiências espirituais. Deus não tem religião! Por isso aprendi com indígenas a espiritualidade comunitária, de celebração ritual e dançante da presença misteriosa do transcendente. Eles me ensinaram a sacralidade da natureza. 

É autor de mais de 80 livros, como dissemos, também lido no nosso país. Como tem sido a sua relação com a escrita e a divulgação dos seus livros?

Agora, em Outubro de 2026, já são 84 livros. Neste ano lancei o romance O Voo da Locomotiva (Rocco), sobre o período da ditadura militar e, pela editora Vozes, Educação na Era Digital e Anatomia do Poder. A trincheira literária é uma das formas da minha militância política.  

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