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|Entrevista

Kaki Arkarazo: «Naquela época, estávamos seguros de que íamos fazer revolução»

Nos anos de pólvora no País Basco, havia bandas que eram praticamente o braço musical da ETA. Eram porta-vozes culturais do independentismo. Kaki Arkarazo foi um dos protagonistas dessa geração e através da guitarra integrou um dos grupos mais importantes dessa batalha, Negu Gorriak.

Créditos / Maialen Andres

Como produtor musical, Arkarazo tem estado por trás de vários projetos de esquerda e antifascistas no Estado espanhol e até além fronteiras, como a Banda Bassotti.

Como é que começou a tua carreira como artista musical no País Basco?

Bem, eu digo sempre que somos sortudos. Os músicos que podem viver de alguma forma, mesmo que paralelamente à música, são muito sortudos, porque a música, afinal, é, desde sempre, uma coisa que o ser humano precisa. Como músico, nunca antecipei a possibilidade remota de viver a trabalhar como artista musical. E muito menos no País Basco, cantando em basco, um idioma milenar, num país pequeno, em que numa digressão de dois anos já toda a gente te viu.

Tudo começou de forma inconsciente. Comecei a trabalhar em rádio e televisão. E desde os meus 14 ou 15 anos comecei a experimentar e a criar num processo em que participei em várias bandas. Tive a possibilidade de trabalhar em estúdio com Angel Katarain [produtor musical] desde muito jovem.

O que te agrada mais no processo de produção?

Por exemplo, o Angel Katarain diz que não gosta de gravar músicos, ele gosta de misturar. Eu não. Eu gosto de todas as partes do processo porque para mim o produto final é a sucessão de cada uma das partes. Agora, tenho mais prazer na parte da pré-produção. Preparar os artistas e ajudá-los nas músicas. Por exemplo, com o Jasper, no disco Loita Amada, estive uns cinco dias com eles a preparar os arranjos, a preparar os sons de trompete, as vozes, os coros. Isso é mais criativo.

Há uma história engraçada que envolve o Katarain, certo?

O Sarrionandia estava na prisão de Martutene e o Pikabea também. Anos antes, ainda durante o franquismo, a ETA deu a missão ao meu irmão de montar um comando para escavar um túnel precisamente até essa prisão. Isto porque havia vários membros da ETA condenados à morte e havia que tirá-los dali. Contudo, aquela zona é muito pantanosa e não havia forma de progredir porque a cada buraco saía água. A polícia ainda prendeu um dos nossos numa operação stop com uma bomba para tirar a água, foi um desastre completo. O meu irmão conseguiu fugir. Ele tinha uma boa relação com Sarrionandia porque era já um importante escritor no contexto da literatura basca. Era uma relação literária e, por isso, começou a visitá-lo em Martutene. Por isso, estabeleceu um contacto com o diretor da prisão para montar festivais dentro do cárcere com artistas bascos. Já tinha na cabeça a ideia de um plano de fuga para ajudar Sarrionandia a escapar. Por coincidência, o mundo é tão pequeno, o Katarain, que era o técnico de som da nossa banda da altura M-AK, conseguiu o sistema de som, com enormes colunas, não apenas para os músicos que iam tocar à prisão mas para meter os presos dentro desses aparelhos. Duas dessas grandes colunas estavam completamente vazias por dentro e foi aí que Sarrionandia e Pikabea se esconderam durante o concerto de Imanol.

Era uma época explosiva. Achas que esse contexto político te marcou?

As minhas primeiras recordações de dormir a ouvir um giro-discos todas as noites são de 1973, ainda antes da morte de Franco, em plena ditadura. Os primeiros concertos a que ia eram de grupos que vinham à parte francesa porque aqui estavam proibidos. Quando digo aqui, falo do sul do País Basco, a parte espalhola. Já ouvíamos a primeira geração de cantautores bascos, a Nova Canção na Catalunha ou a Nova Trova cubana. Em Portugal acontecia a mesma coisa. Eu adorava esses cantores como Benito Lertxundi, Mikel Laboa ou Xabier Lete. Eram grandes poetas com letras incríveis. Eram as raízes da nossa cultura que não estavam necessariamente, nesse momento, diretamente ligada a algum tipo de luta política. Era simplesmente uma reivindicação da cultura basca, muito reprimida. 

Banda de rock basca Negu Gorriak, formada em Irun em 1990, com Kaki Arkarazo (primeiro à direita)

Quando morreu Franco, surgiram muitos grupos que finalmente podiam cantar e faziam letras muito politizadas. O meu primeiro grupo era da nossa aldeia, era um grupo de folk. Tínhamos uma canção relacionada com os versos de padres bascos que estavam encarcerados na prisão de Zamora. Toda a gente acreditava que a transição democrática ia ser maravilhosa, mas não foi. E tudo isto num contexto de violência política e de como se desenvolveu esse processo de transição com a ETA. Evidentemente, quando éramos jovens, subíamos as montanhas e com 13 ou 14 anos todo achávamos que algum dia seríamos da ETA. Isso era uma coisa normalíssima naquele momento. Agora, dizes «não é normal porque eram terroristas», não é assim, fazia parte das nossas vidas, era algo normal. O meu irmão estava preso ou exilado, os meus ídolos eram presos ou assassinados pela polícia. Eram heróis para nós.

Achas que, de certa forma, se pode dizer que as bandas de que fizeste parte eram os portadores dessa luta?

Claro. Não digo da ETA especificamente. A ETA era composta por quatro frentes e a frente cultural era muito importante. Em 1964, quando ainda faltavam 11 anos para que morresse Franco, eu estudei numa escola de esquerda, ilegal e clandestina. Quem é que a montava? A ETA. Não andavam a apenas disparar.

E dá-se também uma mudança musical no País Basco.

Sim, porque passámos da música de protesto para músicas com sonoridades que vinham de fora. Houve uma quantidade de elementos que se foram somando e que foram criando esse caldo de cultivo que depois explodiu no rock radical vasco. Era um movimento de entusiastas de cinema, de rádios livres. Casualmente, no final dos anos 70, houve uma explosão punk em Inglaterra. Quem liderava naquele momento um pouco o movimento cultural estava muito fechado. Parecia que tudo o que vinha de fora era mau. Eram muito protecionistas da cultura basca, ligados a um tipo de música muito tradicional. Nós, não. Ouvíamos tudo. Antes de sermos punks, começámos por ser hippies. Hippies a sério. De chinelos e flores. Íamos para cavernas experimentar som. Era tudo um momento de libertação. 

«Quando morreu Franco, surgiram muitos grupos que finalmente podiam cantar e faziam letras muito politizadas.»

Quando chegou o punk, tudo explodiu. Em determinado momento, o País Basco foi vanguarda musical de todo o Estado espanhol. De repente, nos anos 80, tínhamos rádios, discográficas. Havia uma potencialidade brutal porque havia um caldo de cultivo. Supostamente estávamos numa democracia mas o Estado militar, policial e judicial não tinha mudado. Não permitiram que Navarra fizesse parte do País Basco e, por outro lado, os militares não quiseram abandonar a violência política. Houve os GAL [grupo de paramilitares espanhóis financiados pelo Estado]. Depois a polícia começaram a infiltrar heroína entre os jovens. As ruas queimavam como cantavam os Kortatu. O ambiente era de revolta.

De certa maneira, tornaste-te, através de vários grupos, um dos referentes musicais de uma geração, de uma época. E vocês eram também muito internacionalistas.

Vamos lá ver, o povo basco, nesse sentido, sempre foi muito solidário. Desde que apareceu a ETA, não era um movimento contra ninguém, nem era supremacista. Até me lembro de discutir com o Manu Chao, que era sempre anti-bandeiras e não sei quê, e de lhe explicar que somos muito patriotas mas não nos achamos melhores do que ninguém. A cultura independentista basca sempre foi de esquerda e internacionalista, pela Europa dos povos.

Isso marcou-vos? Vocês tocaram em vários países da América Latina, por exemplo.

Claro, tu tens uma noção mais clara do abuso de poder do Ocidente sobre as colónias. Nos boletins da ETA havia muitas referências ao Sahara Ocidental e aos curdos, que ainda não estavam a ser instrumentalizados por outros interesses…Mesmo nas Canárias havia movimentos independentistas. E, na América do Sul, nem te conto. Os tupamaros [guerrilheiros uruguaios], por exemplo. Houve um tipo que fugiu, não me lembro agora do nome, um escritor que viveu em Cuba toda a vida, e que fugiu do Uruguai de avião. 

Álbum ao vivo Hipokrisiari Stop! Bilbo 93-X-30 da banda basca Negu Gorriak (Kaki Arkarazo à esquerda)

Claro, quando chegas ao Uruguai ou a Buenos Aires, com esse pessoal todo, e percebes as barbaridades que os norte-americanos lhes fizeram. Isso foi fonte de inspiração para letras, canções. Eu escrevi uma e o Fermin [Muguruza] também, sobre uma criança que apanhava as granadas e as lançava de novo. Conseguíamos produzir muito, inspirávamo-nos muito nessas viagens. Entretanto, mudou tanta coisa. Antes, os jovens encontravam-se nas ruas, e digamos que a sua própria experiência social, a sua vida, os seus interesses, tudo o que faziam era diferente em grande medida. Hoje, de certa forma, toda a sociedade está mais individualizada. Os jovens conhecem-se na internet, alguns já produzem música através de ferramentas digitais. 

Sentes que há mudanças conceptuais na produção de um disco?

Na questão musical, estritamente musical, eu nunca imaginei, mas também está dentro dessa tendência de individualização, consequência também da tecnologia. Para nós, a tecnologia foi a grande mudança, porque as aplicações digitais dão um salto brutal, qualitativo. E podes, com muita qualidade, gravar música sozinho em casa, o que já muda todo o problema de ir com a banda, todos juntos, ensaiar, gravar o disco juntos, que era tão bonito e realmente tão criativo. Agora, podes fazer tudo em casa mas acabas por te tornar num marciano.

Sentes que um projeto coletivo tem mais riqueza do ponto de vista musical?

Claro, mas não só musicalmente, também a nível da experiência musical. Toda a vida, a música era feita e gravada em grupo. Então, agora, vamos perdendo certas noções, algo que acontece com a sociedade em geral. Dantes, a vida girava à volta das associações culturais, de casas ocupadas e de lugares onde toda a gente se juntava. Agora, isso não interessa porque toda a política e todos os sistemas de comunicação estão a forçar, através da internet, e com todas as suas armas, ao individualismo. Já nem sequer a família é um ente válido de reunião, cada um vive a sua própria vida e isso influencia tudo, também a música, a forma como se fazem os concertos, na forma como se desenvolve o show business.

Falavas de como a tecnologia mudou muitas coisas. Sentes que quando há mais acesso à música, quando parece mais democratizada em comparação com o passado, ao mesmo tempo parece haver uma maior uniformização.

Claro. É que há menos experiência, menos experimentação. Aí eu tenho a minha tese, que é muito mais complicada do que isso. Em teoria, a tecnologia poderia produzir música original. Qual é o problema? Imagina, os grandes criadores de pintura e literatura desde a Idade Média quantos mestres tiveram? Um. Quanto muito, dois. Eu, por exemplo, desde criança, tive a raiz musical do meu país, o blues, que eu adorava, e a música experimental, que é o que fez de mim um artista, porque eu gostei sempre de incomodar. Ou seja, fazer música que não seja confortável, mas que faça o ouvido pensar ou passear. Quando surgiu a internet, os meus filhos podiam fazer o download a discografia toda de Led Zeppelin num segundo e ouvi-la toda. Isso faz explodir o cérebro, são demasiadas influências. Os jovens escutam tudo, assimilam tudo, e depois ao comporem têm demasiadas referências e tudo o que tocam soa a alguma coisa que já ouviste antes. Não há espaço para a criatividade. Ter uma ou duas referências fazia-te crescer e superar isso que tinhas na cabeça. Valorizavas mais o esforço que tinhas de fazer para conquistar esse conhecimento. Não conseguias ter todos os discos de uma vez. Compravas um e ouvia-lo 20 vezes. Falavas com amigos e partilhavas essa experiência. O conhecimento era muito mais profundo ao nível de relações e de tudo. O que acontece é que estamos a matar a nossa capacidade de criar com tanta informação. É demasiada informação. É o que penso.

É importante também ler o tempo em que vivemos. Continuas a acreditar que a música é uma ferramenta de luta? Pode ser uma ferramenta de luta? Deve ser uma ferramenta de luta?

Eu acho que sim. Em momentos de revolta, está dentro de um movimento, mas não gera o movimento. Tem que haver uma cultura nova, revolucionária, em que estaria, claro, como todas as outras artes, a questão musical. O que acontece é que a música é como um estandarte, é como uma bandeira. Todos gostam de música. E se estás num momento de revolta, revolucionário, queres ter canções que expressem isso. É a expressão, hoje em dia, mais direta e mais eficaz para transmitir o que se pensa e o que se tem dentro. 

«Valorizavas mais o esforço que tinhas de fazer para conquistar esse conhecimento. Não conseguias ter todos os discos de uma vez. Compravas um e ouvia-lo 20 vezes. Falavas com amigos e partilhavas essa experiência. O conhecimento era muito mais profundo ao nível de relações e de tudo.»

Nós, naquela época, nos anos 80, estávamos seguros de que íamos fazer a revolução. Não tínhamos nem dúvida da luta de classes, de que íamos ser líderes, estávamos seguros. Pensávamos que se nós, com 14 ou 15 anos, tendo os pais que tínhamos, tinhamos chegado a esse nível de consciência política, os nossos filhos iam ser incríveis. Fizemos um cálculo matemático errado mas naquele momento era assim. Então, as canções que fazíamos eram um método de expressão, um caminho de expressão, de liberdade, e o mesmo a nível musical, no sentido próprio da música, da textura musical. Fazíamos sempre coisas agressivas, para que as pessoas pensassem. Com os Negu Gorriak cada canção era diferente da anterior. Havia canções muito particulares. Era como a nossa bíblia. Aqui está o nosso mundo e se querem entendê-lo muito bem e se não quiserem também.

Qual foi o concerto que mais te impactou, de que mais te lembras?

Essa é uma pergunta difícil. Lembro-me de Cuba, do concerto que fizemos em Guanabacoa connosco a suar por todos os poros. Mas ali aquilo era como se fosse música para brancos. Não havia uma cultura de como dançar, o que fazer. Também me lembro dos concertos com grandes enchentes como o de Galindo em que os meus dois filhos mais velhos já tinham noção de que o pai era guitarrista de Negu Gorriak. E foi a celebração da vitória contra Galindo [Tenente-Coronel da Guardia Civil que pôs o grupo em tribunal] e foi o concerto em que a Banda Bassotti se voltou a juntar. A nível de evento social talvez tenha sido o mais importante. Mas houve também o concerto com Todos Tus Muertos, da Argentina, em Bilbau, que foi uma brutalidade porque estávamos na nossa máxima forma.

Produziste álbuns de bandas de esquerda e antifascistas não só no País Basco mas também na Galiza, Astúrias, Catalunha e Madrid. Há algum elemento que sintas que é comum a todas elas?

Sim, sempre foi um pouco no contexto da música independente e de músicas de géneros alternativos onde me movimentava mais. Cheguei a fazer coisas de mainstream. Ontem, o meu filho voltou a contar a piada de quando produzi os dois primeiros discos da banda de Xabi Solano, Etzakit. Um dia, ligaram-me da Warner Music, uma Jennifer, que me queria contratar para gravar o disco de um grupo de Irun chamado La Oreja de Van Gogh. «La Oreja de Van Gogh? Que raio de nome’, respondi. Perguntei pelas datas e respondi que estava ocupado com o disco dos Etzakit. Os La Oreja de Van Gogh acabaram a vender um milhão de cópias.

Nos anos 80, houve um boom contra as multinacionais e surgiram muitas bandas e discográficas alternativas. E não era só punk, havia de tudo. Nos anos 90, apareceram os Diplomáticos de Monte Alto e os Xenreira, na Galiza, Inadaptats, na Catalunha, e todos vinham gravar comigo. Ou tinha eu de ir lá. Também trabalhei com os Dixebra, das Astúrias. Gravei com os Spirit, o primeiro grupo do Juanra, que depois fundou os KOP, com quem trabalhei. Eram todos do rock independente, anti-sistema. Foi um movimento que agora desapareceu. A geração dos meus filhos é a, na história, que vai viver pior que a geração anterior. Então, o que falha? Por esta lógica, devia haver mais protestos, mas não há. Dantes, o nosso lema era independência e socialismo e agora quantas vezes se fala nisso? Porquê? Precisamos de voltar a ter esses objectivos presentes nas nossas lutas e os partidos de esquerda têm de consciencializar a juventude.

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