No calçadão de Quarteira, no Algarve, Luís Montenegro, na qualidade de presidente do seu partido, subiu ao palco da Festa do Pontal, a festa dos «sociais-democratas» que marca a rentrée do PSD na actividade política depois da pausa de Verão. Num quadro em que a degradação do seu Governo é catalisada por sucessivos casos que envolvem vários ministros, os olhos estavam postos no primeiro-ministro.
Ao seu estilo, Luís Montenegro colocou em prática a linha comunicativa que tem marcado o Executivo, ou seja, diminuiu problemas reais e galvanizou supostos resultados que não são sentidos pela esmagadora maioria dos trabalhadores.
Reclamando para o seu partido uma pretensa identidade popular, Montenegro começou a sua intervenção a tentar refutar a ideia de que o seu partido governa para uma elite económica. Segundo o primeiro-ministro, o PSD «é o partido do povo», «um «partido de todos» e «um partido de gente de trabalho», afirmações que contrastam com o resultado da sua política, num contexto em que um quarto da riqueza do país está concentrada nas mãos de 1 por cento da população.
Depois de um início de intervenção pautado pelo populismo, sob a cosmética de uma suposta componente popular, porém desfasado do sentido da massas, Luís Montenegro quis passar à «prestação de contas». Abordando as questões relativas à região do Algarve, Montenegro começou por anunciar que o Hospital do Algarve «está a caminho» e que «o concurso público já foi lançado». Neste campo, o primeiro-ministro não quis dizer, no entanto, que esse mesmo hospital vai custar 1,118 milhões ao longo de 27 anos ao Estado, valor que engloba a construção e a despesa inerente à celebração do contrato de gestão em regime de Parceria Público-Privada.
Talvez o mais revelador da noção de prioridades do Governo foi o último anúncio de Luís Montenegro para o Algarve, uma região que se confronta com os mais elevados níveis de precariedade e desigualdade salarial a nível nacional: a Fórmula 1 e o Moto GP. «Também quero confirmar-vos, por mais que possa irritar alguns, que sim, no próximo ano vai haver o grande prémio de Fórmula 1 no Algarve, é verdade. E em 2028 também. E até 2029 vai haver a prova do Moto GP», avançou.
Se, até aqui, o tom do primeiro-ministro foi de sucesso político, o restante discurso só vincou o tom, mas sem o alicerçar em resultados efectivos. Reforçando que o seu Executivo está preocupado em fazer o «país maior», entre outros chavões, Luís Montenegro afirmou que Portugal tem que «ter a coragem de falar mais das grandes coisas» que o seu Governo «fez bem», e «falar menos das pequenas coisas que, por ventura, não corram tão bem». O presidente do PSD procurou, desta forma, menorizar as polémicas que têm levado ao desgaste do seu governo, associadas aos fracos resultados da sua governação, e começou a endereçar recados à comunicação social.
No momento de fazer a prestação de contas sobre o país, Luís Montenegro começou por lamentar «um ano particularmente duro». Invocando as tempestades e o contexto internacional, o primeiro-ministro elencou o conjunto de medidas adoptadas pelo Governo. Da destruição das tempestades, ao aumento do custo de vida, Montenegro quis dar a entender que os problemas que assolam a vida das pessoas foram mitigados, uma narrativa que contrasta com a vida de quem passa dificuldades.
Para virar a página, o primeiro-ministro puxou pelos supostos resultados da sua governação. «Fala-se muito pouco em Portugal daquilo que estamos a fazer», voltou a insistir. Sem mencionar os números da precariedade, ou o facto do número de trabalhadores com dois ou mais empregos em Portugal ter atingido um máximo histórico em 2025, ultrapassando os 267 mil cidadãos, Luís Montenegro aproveitou o momento para afirmar que os dados do emprego nunca foram tão positivos, com mais 100 mil pessoas a trabalhar que no trimestre anterior, menos 45 mil desempregados e mais 150 mil novos posto de trabalho criados nos últimos dois anos.
Como não podia deixar de ser, Montenegro insistiu na falácia que estes resultados no campo do trabalho surgem porque o Governo baixou os impostos às empresas, apesar de não haver nenhum indicador económico que corrobore essa narrativa. Aplaudido pelos militantes, voltou para cima da mesa a tese de que Portugal está mais rico. «Isto não são apenas números. São números, mas são pessoas», disse num momento em que o aumento do custo de vida e a crise habitacional se adensam.
De modo a comprovar o desfasamento face à realidade, procurando reiterar o tal sucesso governativo, num quadro em que mais de 2,5 milhões de trabalhadores têm hoje uma remuneração base mensal inferior a mil euros, o presidente «social-democrata» disse que os salários acima de 3000 euros duplicaram nos últimos dois anos e neste momento são 125 mil aqueles que auferem este tipo de vencimentos. Se provas fossem necessárias para ilustrar os profundos contrastes económicos, de forma involuntária, Montenegro acabou por as apresentar. Este foi, como não podia deixar de ser, o gancho para ser hasteada a bandeira do aumento do salário médio, um indicador facilmente distorcido por remunerações muito elevadas no topo da distribuição, mas que falha em retratar a realidade financeira da maioria dos trabalhadores.
Sobre a economia, Montenegro galvanizou os números do turismo e, desta maneira, só validou os argumentos daqueles que criticam o facto de Portugal ter uma economia de baixo valor acrescentado, dependente do sector do turismo e à mercê do tal contexto que fora lamentando pelo primeiro-ministro. Já como forma de justificar o caos dos serviços públicos, do SNS ou da Escola Pública, Montenegro criticou aqueles que acham que é com investimento que se resolvem os problemas: «nós não somos daqueles que gastam o dinheiro hoje que vai fazer falta aqueles que virão a seguir a nós. Nós não vamos legar nenhuma troika a ninguém», disse.
Esta acabou por ser a toada do resto do discurso do presidente do PSD. No campo da habitação continuou a ser defendida a política dirigida aos jovens com maiores rendimentos e no campo da ferrovia foi defendida a estratégia de liberalização deste sector estratégico. Desta forma, o PSD reentrou na actividade política, porém, sempre longe da vida e dos problemas que afectam a população. Incapaz de ultrapassar o desgaste do seu Governo, o primeiro-ministro nada de novo apresentou e o seu discurso foi apenas a propaganda a que tem habituado o país.
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