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«Reforma agrária idealizada por Fidel foi marco teórico», diz Stédile em Havana

O dirigente do MST abordou a proximidade com a associação de pequenos agricultores de Cuba e salientou que a experiência liderada por Fidel moldou o conceito de reforma agrária popular.

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Créditos / Brasil de Fato

Reunido em Havana com dirigentes camponeses e investigadores num fórum dedicado à história e à actualidade da Associação Nacional de Pequenos Agricultores de Cuba (ANAP), João Pedro Stédile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), destacou, esta quinta-feira, a proximidade com a organização cubana, «praticamente desde o início».

Stédile contou que a relação entre o MST e a ANAP remonta praticamente ao nascimento do movimento brasileiro. No início da década de 1980, o Brasil atravessava os últimos anos da ditadura civil-militar, num contexto de profunda intensificação da luta de classes.

Era um período em que a agricultura tradicional estava a ser deslocada pelo grande agronegócio assente em monoculturas viradas para a exportação, provocando um êxodo rural em massa. 

Como resposta, começaram a surgir lutas locais pela terra, apoiadas pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), nas quais milhares de camponeses se mobilizavam para reivindicar o acesso ao seu meio de trabalho e de subsistência.

Foi neste contexto que, em 1984, ocorreu o I Encontro Nacional dos Sem Terra, que reuniu mais de 80 delegados e dirigentes camponeses de pelo menos 13 estados brasileiros, com o objectivo de articular as diferentes lutas que se espalhavam pelo país. Um ano depois, em Curitiba (Paraná) teve lugar o congresso de fundação do MST.

O dirigente nacional do MST lembrou que, na altura, ainda não sabiam onde desembocaria o processo de organização do movimento. Ainda assim, o congresso contou com a presença internacional de movimentos camponeses de 16 países. 

Entre estes, estavam representantes da ANAP, que o MST tinha decidido convidar desde o primeiro encontro nacional. «Nem sequer sabíamos, mas tínhamos essa referência: a ANAP tem que estar no nosso congresso», disse Stédile, citado pelo Brasil de Fato.

«Ainda estávamos saindo da ditadura e, naquela época, falar de Cuba era um perigo. Nem sequer tínhamos relações diplomáticas», explicou, entre risos. «Então, não sei como eles chegaram até lá, mas chegaram dois representantes da ANAP», acrescentou.

A reforma agrária cubana como referência

Depois de abordar as diferentes concepções de reforma agrária ao longo da história, João Pedro Stédile destacou que a experiência cubana, impulsionada por Fidel, é uma referência fundamental para compreender as concepções do MST e a evolução das lutas pela terra à escala internacional.

«Consideramos que a reforma agrária idealizada por Fidel e transformada em lei também foi um marco teórico para o desenvolvimento da ideia de reforma agrária para todo o campesinato mundial», declarou.

O dirigente do MST explicou que a ideia de reforma agrária surgiu no contexto da expansão do capitalismo industrial, entre meados e o final do século XIX, promovida pelas burguesias industriais da Europa, dos Estados Unidos e do Japão. Então, a distribuição de terras e o confronto com as oligarquias rurais tiveram um papel central no desenvolvimento das forças produtivas industriais.

Num contexto em que os camponeses representavam entre 80% e 90% da população, as burguesias industriais promoveram esse processo de «reforma agrária clássica» com o objectivo de transformar um campesinato maioritariamente despossuído em produtor e consumidor de mercadorias. Dessa forma, pretendiam ampliar o mercado para a indústria.

Com a Revolução Mexicana e Emiliano Zapata ocorreu um dos primeiros grandes abalos na luta pela terra. Zapata desenvolveu uma concepção mais radical de reforma agrária, sintetizada na palavra de ordem: a terra para quem nela trabalha.

«Depois veio a Revolução Mexicana, nesse mesmo período. E Zapata construiu outra concepção de reforma agrária, que era radical, mas não tinha lei. Eles queriam apenas a terra, terra para quem trabalhava nela, e para isso fizeram a revolução», afirmou Stédile, lembrando que «a lei de reforma agrária mexicana foi feita com o fuzil».

Revolução Cubana como ponto de inflexão

Neste percurso, Stédile situou a experiência da Revolução Cubana como um verdadeiro ponto de inflexão na história das reformas agrárias. «Quando vocês fazem a reforma agrária em 1959, surge um novo tipo de reforma agrária que marcou a história da reforma agrária em termos universais. E, por isso, também serviu como um guia. Nós classificamos a reforma agrária cubana, inclusive, como uma reforma agrária popular», afirmou.

O dirigente do MST explicou que o carácter popular da reforma agrária cubana se relacionava com a existência de um movimento camponês organizado e a sua participação activa na luta revolucionária, assim como com a posterior construção de um governo surgido desse processo e de um Estado que representava os interesses populares.

Com a reforma agrária cubana, acrescentou, a terra deixou de ser concebida como uma mercadoria destinada à especulação e passou a ser considerada um bem comum a serviço da sociedade e da soberania alimentar.

Fidel não usava relógio

O método de trabalho desenvolvido por Fidel com os camponeses foi uma questão que impressionou e influenciou o MST, indica o Brasil de Fato.

Stédile destacou a preocupação constante de Fidel em conhecer directamente a realidade do campo e manter um contacto próximo com as comunidades rurais, bem como o seu diálogo permanente com o povo e uma forma de exercer a direcção política baseada numa extraordinária capacidade de escuta.

«Fidel não usava relógio, não é? Isso nos impressionava. Em qualquer situação, sempre ouvíamos: Fidel estava ali, no meio do povo, nos momentos bons e nos momentos ruins. E também a forma como ele ouvia. Sempre nos disseram que Fidel fazia muitas perguntas e ouvia o camponês. Foi um dos melhores jornalistas que este país já teve», afirmou.

«Com esse método de trabalho e de organização dos camponeses, nos atrevemos a dizer que Fidel foi, na realidade, um grande pedagogo do exemplo», declarou Stédile, frisando que manter um contacto directo com os camponeses continua a ser fundamental para conhecer os seus problemas e construir uma política ligada à sua realidade.

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