Passa pela cabeça de alguém que através de um mágico clique, accionado algures no reino de Marrocos, quiçá em Telavive ou Washington, dezenas de milhares de marroquinos e outros africanos se tenham posto simultaneamente em movimento ao assalto da cidade autónoma espanhola de Ceuta, para daí tentarem espalhar-se por todo o território espanhol?
Onde estarão os congeminadores, os agitadores e os cúmplices desta operação? Não é possível, ou pelo menos seguro, apontá-los a dedo. Mas sabe-se como funcionam, percebem-se as suas estratégias, identificam-se os seus objectivos.
O objectivo, não tenho disso qualquer dúvida, é o de derrubar o governo de Pedro Sánchez em Madrid. Um executivo montado com base no Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e que, quando já ninguém esperava que tal coisa acontecesse, descarrilou do trajecto neoliberal e suicida adoptado pelos seus «irmãos» em todo o mundo.
Por esta razão, e devido às consequências que se vão desenvolvendo com uma coerência assustadora para as estruturas do poder globalista em Bruxelas e Washington, a autocracia que se esconde atrás da «democracia liberal» decidiu agir. Coleccionou motivos, pretextos e conspirações convergentes para pôr fim à vida do governo de Sánchez.
Nem nos piores pesadelos de Von der Leyens, Costas e Trumps poderá haver lugar para enfants terribles, soberanistas e pensamentos discordantes no interior da União Europeia e da NATO. Os polícias da «democracia liberal», dos nossos «valores compartilhados» e da «nossa civilização» não admitem opiniões dissonantes no interior de um pluralismo que se manifesta com voz única.
Governo de Sánchez é para abater
Não tenham dúvidas, nem ilusões: em Washington e Bruxelas já foi definido o futuro de Sánchez: chefe de governo a abater. O problema é que não lhes será fácil atingir esse objectivo golpista com um estalar de dedos: não menosprezem Espanha como um país corajoso, senhor de si e da sua diversidade. Espanha nunca foi, nem é, um reles «bom aluno»; conhece o seu poder, não se acobarda e, pelos caminhos que trilha, nunca aceitará dissolver-se e desaparecer num magma em que as nações e os cidadãos sejam reduzidos à ínfima espécie. Espanha, não tenham dúvidas, é um calhau nos sapatos das máfias de Bruxelas e Washington. Não será fácil removê-lo.
A carga contra Ceuta através do desumano aproveitamento de toda a espécie de carências e indignidades coloniais a que estão submetidos os marroquinos e outros povos do Norte de África é a última versão dos instrumentos usados para desestabilizar Espanha. O senhor de Washington e os súbditos de Bruxelas acarinham essa ideia fixa desde que Pedro Sánchez provou, sem deixar dúvidas, de que não está em sintonia total com o regime de capitalismo selvagem cultivado pelos Estados Unidos e a União Europeia, com objectivos militares e globalistas.
Pedro Sánchez não é um revolucionário social, não questiona o sistema capitalista; porém, aparenta ser um social-democrata que mantém referências a uma social-democracia que já não se usa. Para ser hoje um autêntico ocidental é preciso venerar o fundamentalismo neoliberal. Sánchez não o faz, logo é um erro de casting, um bug no sistema. Basta alguém seguir uma linha em alguma medida desrespeitadora da receita política única para cair em desgraça nos bastidores sombrios, conspirativos e vingativos de Bruxelas e Washington.
Ora, Sánchez não irá permitir que a juventude espanhola pague o preço dos delírios belicistas e expansionistas em que a União Europeia mergulha cada vez mais para tentar garantir a sobrevivência do nazismo banderista de Kiev. Delírios esses associados, por sua vez, ao mito das supostas ambições russas em toda a Europa – a tal falsificação que garante lucros brutais, de volumes inimagináveis, às mega corporações do armamento, da energia e dos media.
Sánchez também usa a sua voz firme e confiante para defender a Palestina, o povo palestiniano e para confrontar – sem medo – o regime fascista sionista de Israel, as suas práticas genocidas e anexionistas e o desrespeito pelo direito internacional. Eis o insólito a que chegámos: o governo espanhol é o único do mundo ocidental, que tanto diz guiar-se pelo direito internacional, a respeitar, de facto, o direito internacional. E para os autocratas de Bruxelas isso é inadmissível.
Ter vontade e personalidade é fatal
O cerco a Pedro Sánchez iniciou-se ao nível mais elementar – o plano interno. E logo com um admirável peso de legitimidade: os franquistas do Vox e do Partido Popular, marchando em ordem unida com o poderoso aparelho patronal, rastejando todos eles no pântano da corrupção institucional, montaram uma campanha contra a suposta corrupção do governo de Sánchez. Apesar de uma boa parte da comunicação social ser muito dócil quando se trata das ordens dos sectores passadistas, a campanha ainda não atingiu os objectivos; mas não morreu, apenas parece patinar.
A seguir somaram-se à campanha de descrédito contra o governo as posições patrióticas assumidas por Sánchez perante as ordens da NATO e de Trump para aumentar os gastos militares de cada aliado até 5% do PIB. O não de Sánchez foi rotundo desde logo – colocando-o na mira de Trump, que o adoptou como inimigo de estimação.
O peso da cada vez mais forte voz do governo espanhol em defesa da Palestina e dos palestinianos reforça o desespero dos aliados da NATO e da União Europeia. Sánchez foi o único chefe de governo destas alianças a passar das palavras aos actos, dando o exemplo de medidas que podem, de facto, embaraçar o totalitarismo sionista. Além disso, a firmeza do governo espanhol ultrapassou as fronteiras do país, encorajou populações de nações europeias e dos Estados Unidos a não temerem colocar-se ao lado dos palestinianos e ostentarem simbologia e bandeiras que fizeram crescer a visibilidade da questão palestiniana no mundo.
«Pedro Sánchez não é um revolucionário social, não questiona o sistema capitalista; porém, aparenta ser um social-democrata que mantém referências a uma social-democracia que já não se usa.»
Para infelicidade de muitos, sobretudo os que tudo fizeram, a começar por Trump, para que a indomável Espanha não vencesse o campeonato do mundo de futebol, o tiro saiu-lhes pela culatra. Apesar das manobras de viciação da competição, uma executadas, outras preparadas, a verdade desportiva acabou por prevalecer dentro das quatro linhas.
O exemplo espanhol alastrou e observaram-se acções de solidariedade com a Palestina em quase todos os jogos da competição. As selecções do Egipto e do Irão tomaram também como suas as bandeiras palestinianas e por essa razão, ninguém duvide disso, foram vítimas de miseráveis e fatais erros de arbitragem.
A campanha de matriz espanhola, contudo, deu grande alento à causa palestiniana. A imagem do genial jovem jogador Lamine Yamal exibindo uma enorme bandeira da Palestina nos festejos da vitória espanhola, e solidarizando-se com o seu povo em muitas entrevistas, deixou uma marca que não irá apagar-se e, certamente, frutificará.
Não restam dúvidas, portanto, de que o ataque a Espanha conduzido por Marrocos e os seus protectores visíveis e invisíveis, sacrificando dezenas de milhares de pobres e marginalizados do Norte de África numa enorme vaga de desestabilização, é uma operação de grau superior contra o governo de Sánchez. Não é por acaso que surgiram dos quadrantes fascistas as primeiras sugestões para que a Espanha seja suspensa do Acordo de Schengen, por não saber lidar com os problemas da imigração. A inimitável Meloni, o reaccionaríssimo governo finlandês, os dirigentes xenófobos da Suécia e da Dinamarca e o imprescindível Ventura cavalgam na crista da onda para que o governo espanhol seja castigado.
Marrocos, por seu lado, ficou ainda com as costas mais quentes depois de Donald Trump, como dono do mundo, ter garantido a construção de uma auto-estrada de 120 quilómetros ligando o território marroquino ao território ocupado da República Saarauí Democrática, como via para a anexação da antiga colónia espanhola do Saara Ocidental.
Circunstância que representa também um ataque directo contra os direitos internacionais espanhóis. Isto é, os Estados Unidos, a União Europeia e Marrocos, que durante décadas prorrogaram a organização de um referendo tutelado pela ONU para que o povo saarauí pudesse decidir o seu futuro, aceitam agora que uma autoestrada resolva o problema e Marrocos possa finalmente engolir o Saara Ocidental. Para gáudio do Ocidente e de Israel, de modo a que assim se cumpram, à sua maneira, os direitos humanos e o direito internacional.
Um resort de luxo em Gaza e uma auto-estrada turística, que também possibilitará a rapina de outras importantes riquezas do Saara Ocidental, consumarão as limpezas étnicas na Palestina e neste país do Norte de África. Assim sendo, engordarão ainda mais os bolsos de quem de direito e, no fim da linha, instalará paraísos turísticos sobre os restos mortais de milhões de seres humanos supliciados. Desta maneira humanista, o Ocidente tenta dar-nos a ilusão de que implantou as bandeiras da paz e da civilização em territórios há muito amaldiçoados por impuros, bárbaros, hereges. Mais uma cruzada bem sucedida.
«Marrocos, por seu lado, ficou ainda com as costas mais quentes depois de Donald Trump, como dono do mundo, ter garantido a construção de uma auto-estrada de 120 quilómetros ligando o território marroquino ao território ocupado da República Saarauí Democrática, como via para a anexação da antiga colónia espanhola do Saara Ocidental.»
No entanto, do fundo das catacumbas de conspiração onde se cozinham as receitas dos novos e falsos pacifismos emergiu a Espanha, com o seu quê de inesperado, sabendo nós como o totalitarismo é absorvente e alérgico aos desvios de linha. Apesar do cerco e de tantas manobras multifacetadas, o governo de Pedro Sánchez renova-se em coragem e não se deixa abalar pelas ameaças.
O ataque a Ceuta é grave, e uma aposta forte dos inimigos da Espanha. Aqueles que o conduzem não têm qualquer respeito pelos seres humanos que sacrificam, quanto mais não seja porque os fins justificam os meios. E montaram a operação, como é próprio de mentes perversas e doentes, de maneira a coincidir com a tragédia dos pavorosos incêndios que assolam o território espanhol e mobilizam a maior parte dos seus efectivos de segurança e protecção civil.
Entretanto, muitas das vítimas da gigantesca arruaça reconheceram o engodo, o logro, e estão a regressar a Marrocos, evitando, in extremis, a armadilha que lhes foi montada por quem não os considera gente.
Os cidadãos dos países da União Europeia e da NATO têm muito a agradecer a Espanha e devem pôr os olhos no seu exemplo. Afinal, e ainda que não seja fácil, é possível pôr em xeque o totalitarismo do chamado «mundo ocidental» e desmascarar essa fraude ardilosa conhecida como «democracia liberal».
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