A Cimeira da Indústria, o «grande debate da indústria em Portugal», realizou-se no passado dia 26 de Maio, no Theatro Circo, em Braga. A organização do evento coube ao jornal Observador e à Associação Empresarial do Minho (AEM), com a parceria da consultora PWC, da Tabaqueira, Siemens, Elior-Derichebourg, os bancos BPI e CaixaBank e a Universidade Católica, trazendo à cidade minhota figuras como o primeiro-ministro Luís Montenegro e Gonçalo Matias, ministro Adjunto e da Reforma do Estado, entre vários outros representantes de empresas como a Bosch ou a Continental Mabor.
Também a Câmara Municipal de Braga (CMB), liderada por uma coligação PSD/CDS-PP e PPM, se fez representar na figura do seu presidente João Rodrigues (filho do dono da gasolineira Joaquim Barros Rodrigues & Filhos, cliente da Spinumviva de Luís Montenegro). A CMB, a Transportes Urbanos de Braga (TUB) e a Empresa de Águas, Efluentes e Resíduos de Braga (AGERE) foram parceiros institucionais da Cimeira da Indústria – cada uma destas instituições municipais celebrou um contrato de ajuste directo de 19 999 euros (um deles de 19 990) com o Observador para o evento.
Em comunicado, a Organização Regional de Braga do PCP denuncia a utilização de dezenas de milhares de euros de fundos públicos para a realização de uma cimeira que junta o patronato da Bosch Portugal, Banco BPI, Siemens Portugal, Continental Mabor, Tabaqueira, TMG e DST Group – empresas que, no seu conjunto, apresentam mais de 800 milhões de euros em lucros anuais. É um «grave "desvio" de dinheiro dos bracarenses» para iniciativas de grupos milionários, consideram os comunistas.
A «fina flor do capitalismo nacional e regional», sustentada e apoiada presencialmente pelo «poder político ao seu serviço», não devia precisar de sorver os recursos públicos da autarquia para os seus eventos particulares. Para além de levar o assunto à próxima sessão da Assembleia Municipal de Braga, o PCP afirma que fará participação deste caso à Inspecção-Geral de Finanças, ao Tribunal de Contas e à Direcção-Geral das Autarquias Locais (DGAL).
Em 2020, no contexto da pandemia Covid-19, o Observador rejeitava «apoio governamental»
A 6 de Maio de 2020, o Conselho de Ministros do XXII Governo (PS) determinou a criação de um apoio governamental especial para a comunicação social no contexto da pandemia Covid-19. Para apoiar o trabalho destas organizações, o Governo avançou com a compra antecipada de publicidade institucional nestes órgãos. Por essa ocasião, o conselho de administração do jornal Observador (António Carrapatoso, Duarte Schmidt Lino, José Manuel Fernandes e Rui Ramos) fizeram grande alarde da sua recusa em receber «subsídios» do Estado - «este programa não cumpre critérios mínimos de transparência e probidade para que o Observador possa aceitar fazer parte dele».
Anos volvidos, vale a pena colocar a questão. Os ajustes directos do município de Braga são assim tão diferentes da «subsidiação directa» (como a apelidava o Observador) da compra antecipada de publicidade institucional?
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