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Livre como o vento

À gratuitidade chamamos entrada livre porque ela é um dos passos essenciais para derrubar barreiras ao acesso e abrir caminho para a descoberta de um património comum, garantindo com isso o seu futuro.

Casa-Museu Abel Salazar, em São Mamede de Infesta. 

Créditos / VisitPortugal

Na cidade onde eu cresci havia uma casa-museu. Quando a primavera chegava, a casa onde Abel Salazar viveu, numa importante fase da sua vida, em S. Mamede de Infesta, era visita obrigatória para as escolas de toda a região. Abel Salazar era um homem excecional. Para quem nada sabia das coisas do mundo, aquela ideia de um médico ser simultaneamente cientista, pintor, intelectual e escritor, suscitava um certo fascínio e uma admiração. A vida encarregar-se-ia de me possibilitar um reencontro quando descobri a sua relação com o Neorrealismo – o movimento para o qual Abel Salazar foi um exemplo.

A casa-museu fora o princípio de uma relação com espaços museológicos, à qual devo uma parte significativa do meu interesse pela cultura portuguesa e a descoberta de outros mundos. Talvez por isso, nas viagens de trabalho a Lisboa em que acompanhava o meu pai, para passar as longas horas que duravam as suas reuniões, encontrei na Fundação Gulbenkian um refúgio e uma solução para o tédio. Foi lá que descobri Maria Helena Vieira da Silva, Júlio Pomar, Almada Negreiros, entre outros grandes nomes da pintura portuguesa do séc. XX Sem qualquer mediação, sem qualquer conhecimento de história da arte, apenas com tempo, entusiasmo e paciência, aprendi. Aprendi muito.

A rede de museus em Portugal, nesse tempo, era deficitária. Os museus eram um espaço das elites, sobretudo quando se tratava de museus internacionais. As escolas, em particular os professores, apesar das limitações, faziam o que podiam. Mas faltava um serviço de mediação. Dependia-se, sobretudo, da disponibilidade dos técnicos, muitas vezes sem qualquer formação nessa mediação com o que hoje chamamos “públicos”. Imagino que, para muitas mulheres e homens, os museus continuassem a ser um lugar estranho, com os quais não sentiam qualquer relação – espaços bafientos, cheios de quadros e livros de gente morta ou de uma arte que não conseguiam entender (coisas a que só gente que pode ser erudita tem acesso).

As circunstâncias do acesso à arte não facilitaram a harmonização e a democratização da cultura, enquanto fenómeno amplo e diversificado, que se estende das formas mais populares e coletivas de criação dos indivíduos à sua mais íntima e refletiva expressão artística. É compreensível que alguém que não tenha sido estimulado a experienciar essa diversidade cultural tenha sérias reservas em entrar num lugar com o qual não sente qualquer afinidade. Não basta, por isso, conceder entrada gratuita a crianças e jovens. É fundamental incentivar adultos.

Há já algum tempo que o discurso político das instituições museológicas, nacionais e internacionais, ainda assim, mudou. As preocupações com a mediação entre estes espaços e os tais “públicos” melhorou: criaram-se serviços educativos; estimularam-se visitas orientadas e uma programação paralela, que vai das apresentações de livros e das conferências ao cinema ou à música. Abriram-se as pesadas portas institucionais e levaram-se os museus para fora de portas.

«Salvo raríssimas exceções, a ideia de que tudo isto tem de ser rentável, porque não se pode estar a despejar dinheiro sem retorno, integra um dos mais consensuais discursos das últimas décadas. Toda a política cultural imposta por sucessivos governos vai demonstrando uma tendência para transformar os fenómenos culturais em mercadoria, desde as festas populares aos museus.»

Mas apesar das boas intenções e das diretivas, de horas e horas de encontros para pensar isto e aquilo, as conceções de acesso à cultura continuam a ter numa natureza elitista e classista e continuam a tentar convergir com a lei do mercado. Como em tantas dimensões do modelo político e económico em que vivemos, os museus continuam a ser um inevitável reflexo da ideologia dominante. Salvo raríssimas exceções, a ideia de que tudo isto tem de ser rentável, porque não se pode estar a despejar dinheiro sem retorno, integra um dos mais consensuais discursos das últimas décadas. Toda a política cultural imposta por sucessivos governos vai demonstrando uma tendência para transformar os fenómenos culturais em mercadoria, desde as festas populares aos museus.

Apesar de parecer contraditório, há cerca de dois anos, o governo português decidiu conceder a entrada gratuita em museus a todos os cidadãos portugueses, com um limite de 52 entradas por ano. A medida foi tomada num contexto em que se discutiam os efeitos nefastos do turismo. Para garantir que “os portugueses primeiro”, piscando o olho para o eleitorado que tem perdido para a extrema-direita, o governo avançou com esta possibilidade, passando a ser possível aceder a Museus, Monumentos e Sítios gratuitamente, para além da entrada livre aos domingos, instituída uns anos antes. As famílias passaram a encarar este programa como uma oportunidade para descobrir o que é, afinal, tão apelativo nos museus e não como uma despesa acrescida. Não sendo esta uma medida que resolva um problema estrutural (o acesso à cultura começa, em primeiro lugar, quando partimos todos das mesmas condições, do momento em que nascemos até ao descanso eterno) e com limitações, ela veio resolver um dos bloqueios a esse acesso.

Mas a verdade é que foi sol de pouca dura. Não tardou a que a União Europeia, imbuída do seu magnânimo espírito integrador, declarasse que a medida era discriminatória. Era o que faltava um Estado soberano adotar políticas para incentivar os seus próprios cidadãos à fruição cultural sem contemplar turistas. O governo português, temente à divindade e à sanção, começou a dar sinais de recuo.

Há umas semanas, o AbrilAbril dava conta de uma entrevista ( https://www.abrilabril.pt/nacional/boa-moda-elitista-ministra-da-cultur…) em que a ministra, que acolheu no seu vasto ministério a pasta da Cultura, deu a um desses jornais de spin liberal, onde considera rever a medida da entrada livre nos Museus. Alega Margarida Balseiro Lopes, de quem não conhecemos uma única análise ou reflexão sobre o que quer que seja, que «alguma coisa que não é paga terá menos valor do que alguma coisa que é paga». Pois, claro, como sabemos, quando é de borla, as pessoas não vão. E sabemos isto como? Intuímos. Assim se perpetua um discurso que nos tenta convencer que tudo se vende e tudo se compra, que tudo é mercadoria, incluindo o ar. A este lugar-comum liberal, responde-se com um lugar-comum democrático: a cultura não é uma despesa, é um investimento na nossa relação com a história que nos é comum.

E assim se compreende como é que os alunos da escola secundária de S. Mamede de Infesta sabem porque é que o estabelecimento onde passam os dias se chama Abel Salazar e porque é que existe um busto deste médico, intelectual e artista dentro da escola e no centro da cidade onde moram. Assim é, também, com Adriano Correia de Oliveira em Avintes ou com Miguel Torga em Sabrosa.

«A valorização começa com os mecanismos que garantem um acesso igual e livre, com a política que escolhemos para estimular o gosto pela aprendizagem e pela participação na vida cultural das aldeias, vilas e cidades. A valorização da cultura começa, também, em políticas que reduzem e regulam o horário de trabalho e o trabalho por turnos, permitindo a todas as famílias passar o seu tempo de lazer a conhecer e usufruir da diversidade cultural do seu país.»

À gratuitidade chamamos entrada livre porque ela é um dos passos essenciais para derrubar barreiras ao acesso e abrir caminho para a descoberta de um património comum, garantindo com isso o seu futuro. A valorização começa com os mecanismos que garantem um acesso igual e livre, com a política que escolhemos para estimular o gosto pela aprendizagem e pela participação na vida cultural das aldeias, vilas e cidades. A valorização da cultura começa, também, em políticas que reduzem e regulam o horário de trabalho e o trabalho por turnos, permitindo a todas as famílias passar o seu tempo de lazer a conhecer e usufruir da diversidade cultural do seu país.

Sempre que regresso ao lugar onde passei toda a minha infância e juventude, regresso também à Casa-Museu Abel Salazar, que continua, ainda hoje, a acolher centenas de visitas de alunos. Naquela que foi a residência do médico durante largos anos, num dos períodos mais negros da nossa história, o espólio que nos deixou comunica com formas contemporâneas de criação artística, que vão dando atualidade às suas conceções de arte e cultura. Se o critério para a sua sobrevivência fosse a rentabilização do espaço, dificilmente teríamos numa pequena cidade entre Matosinhos e o Porto um lugar culturalmente tão importante. Gerações e gerações de miúdos como eu dependeriam sempre das condições materiais das suas famílias para ter a oportunidade de descobrir os distintos elementos que compõem a sua cultura, podendo assim ganhar perspetiva e desenvolver a sua consciência sobre o mundo que os rodeia.

As mulheres e homens que se preocuparam com a democratização da cultura em Portugal deixaram uma herança de reflexão sobre este tema que não interessa ao gestor de negócios que governa Portugal. A ele interessa que trabalhemos mais horas, que ganhemos o mínimo possível e que no tempo disponível gastemos o salário em bens de consumo, preferencialmente em casa, para não incomodar ninguém. Mas os ecos daquela herança, felizmente, ainda são visíveis e estão gravados nas pedras que erigimos na alvorada da revolução portuguesa.

No coração da cidade do Porto, no Instituto Superior de Biomédicas com o seu nome, está inscrita aquela que é talvez a mais célebre frase de Abel Salazar: «O médico que só sabe de medicina, nem de medicina sabe». A vivência cultural que inspira o pensamento livre só pode acontecer quando com ela nos cruzarmos naturalmente, sem barreiras, quando nela pudermos participar e com ela nos pudermos envolver. Só assim resistiremos às tentativas de travar a consciência de que a nossa emancipação é possível.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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