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A luta de classes está também a passar por aqui

Em Portugal, Espanha, França ou Bélgica, o que a luta dos trabalhadores tem demonstrado é a actualidade da luta de classes e desenganem-se aqueles que acham que esta acabará com um novo ciclo eleitoral. Estamos apenas no início da história. 
 

Créditos CGTP-IN / CGTP-IN

O projecto político-ideológico que se aprofundou no pós-queda do Muro, e se intensificou após a crise da dívida pública, dois acontecimentos marcantes que serviram de catalizadores às intentonas anti-populares neoliberais, está esgotar-se. A alternância política na Velha Europa, sob a batuta de uma União Europeia cuja natureza capitalista e imperialista é irreformável, apresenta-se cada vez mais esgotada, ficando cada vez mais evidente a quem serve.

Colapso dos serviços sociais, crise na habitação, aumento do custo de vida, baixos salários, pobreza e fome são algumas das tragédias que o consenso neoliberal tem proporcionado aos povos, a troco de um excedente, de um ponto percentual no PIB, de um F-35 comprado aos «aliados», ou de uma qualquer estabilidade nos «mercados».

Em contraste com a degradação das condições de vida dos trabalhadores, os grandes grupos económicos continuam a aumentar as suas margens de lucro, os accionistas multiplicam os dividendos e a desigualdade aumenta vertiginosamente. Eis que, por todos estes motivos, a luta intensifica-se Europa fora.

De França, Espanha e Bélgica, chegam-nos imagens de fortes protestos. A adesão juvenil é reveladora, a acção sindical o motor do descontentamento, e a organização uma marca de água. A comunicação social foca-se em episódios de confronto, omitindo que a causa é a violência da política neoliberal, mas, acima de tudo, o que há é uma resposta das massas populares contra um projecto político que falhou, uma resposta de classe que exige a ruptura com a política que nos está a impor o retrocesso social.

Em Portugal não ficamos atrás. Os fãs da importação de modelos reivindicativos tendem a desvalorizar, mas, em menos de meio ano, foram realizadas duas greves gerais, que paralisaram o país, construídas em cada local de trabalho, fruto de um profundo processo democrático, e não convocadas por decreto. O resultado, ao contrário de outros países, foi vitorioso: derrotou-se o pacote laboral.

No próximo sábado, 17 de Outubro, há mais um capítulo dessa luta. «Contra o aumento do custo de vida! Por melhores salários, direitos e horários dignos», é o mote da jornada de luta convocada pela CGTP-IN, com manifestações agendadas para o Porto, Lisboa e Coimbra.

A proposta de Orçamento do Estado para o próximo ano prevê a manutenção do subfinancimento dos serviços públicos, numa opção reiterada pela degradação destes para abrir caminho à sua destruição e privatização, e os estudantes do Ensino Superior estão confrontados com aumento de propinas. A par disto, o Governo de Montenegro, com a extrema-direita, cozinha mais aumentos das rendas e a facilitação dos despejos.

As condições estão criadas para a intensificação da luta de classes em Portugal com vista à ruptura deste consenso neoliberal e dos falsos salvadores que servem exactamente os interesses de quem ganha com a nossa crise. A narrativa do «lá fora é que sabem lutar» tenta escamotear as inúmeras acções de luta que por cá se travam (como vimos no passado sábado), e às quais a nossa comunicação social dedica muito menos atenção. A insatisfação vai continuar a sair à rua, já no dia 17. É papel de cada um reivindicar melhores salários e direitos, em vez de ficar à espera que os ares de Espanha, França ou Bélgica, magicamente, contagiem o povo português. A luta de classes está também a passar por aqui. 
 

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