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Parentalidade fora de escala: as dificuldades das trabalhadoras da aviação civil

Temos colegas que pedem licença sem vencimento todos os meses para poderem tomar conta dos filhos sem faltar injustificadamente, porque a empresa se recusa a aceitar pedidos de horário parcial que oferece noutros países da rede.

Créditos / Pixabay

Antes do 25 de Abril, o casamento e a maternidade eram vedados às tripulantes da TAP. Entendia-se que trabalhar na aviação civil, em particular a bordo, era incompatível com a responsabilidades parentais. Uma assistente de bordo teria que ter total disponibilidade para a empresa.

Esta ideia, que julgávamos demasiado bafienta para voltar a contaminar o diálogo dentro e fora das empresas, tem voltado sorrateiramente ao leque de argumentos para justificar a dificuldade em garantir os direitos de parentalidade às trabalhadoras do sector.

A este propósito trago alguns exemplos concretos das dificuldades que enfrentam as minhas colegas. Os problemas começam antes da gravidez. Na base de Faro, devido à sazonalidade do trabalho, as mulheres não podem engravidar nos meses de Verão se não querem passar a licença com graves dificuldades financeiras. Quando engravidam, independentemente da área geográfica, contactam o sindicato. Algumas fazem-no pela primeira vez porque sabem que mais cedo ou mais tarde terão que recorrer ao departamento legal por questões relacionadas com amamentação, horários ou assistência aos filhos.

A empresa orgulha-se de oferecer dispensa de amamentação e horário flexível mediante requerimento das tripulantes. Contudo, aquilo que oferece realmente são restrições de horário pré definidas para facilitar a sua programação de escalas. Se a trabalhadora quiser uma dispensa ou horário minimamente adaptado às suas circunstâncias, terá que recorrer aos tribunais.

«Antes do 25 de Abril, o casamento e a maternidade eram vedados às tripulantes da TAP. Entendia-se que trabalhar na aviação civil, em particular a bordo, era incompatível com a responsabilidades parentais.»

Mesmo após definidas restrições, a empresa pressiona as colegas para fazerem trabalho suplementar, ignorando as consequências que isso terá na vida daquelas mães e dos seus filhos, pois a sua única preocupação é a simplificação das operações ao máximo.

A pressão vem de vários departamentos, mas é nas chefias locais que ouvimos ecos daquelas ideias tão pouco democráticas mencionadas anteriormente. 

Temos colegas a quem foi dito que teriam que deixar os filhos com menos de doze anos sozinhos vários dias, que arranjassem babysitter(!), quando podiam perfeitamente enviar outros colegas para fora nesses períodos e manter as mães a operar voos de ida e volta, como aliás é a nossa operação normal.

Tivemos uma colega que foi enviada para Itália para fazer uma formação, que a chefia garantiu não ser possível fazer em Portugal. No primeiro dia da formação, foi-lhe dito pelo próprio formador que a prática para mães a amamentar era fazerem a formação na sua base e que na semana seguinte estaria a dar uma formação em Lisboa. Esta colega passou uma semana a ouvir o choro da filha ao telefone, a milhares de quoilómetros de distância, sozinha e num estado de total fragilidade.

Temos colegas que pedem licença sem vencimento todos os meses para poderem tomar conta dos filhos sem faltar injustificadamente, porque a empresa se recusa a aceitar pedidos de horário parcial que oferece noutros países da rede.

Há ainda tripulantes, noutras empresas, que partilham abertamente não poderem engravidar porque isso implicaria nunca mais serem chamadas para operar. A lei proíbe a discriminação, mas a prática normaliza-a.

Um país que obriga as mulheres a escolher entre a maternidade e o trabalho é um país sem futuro. O retrocesso nesta matéria é verdadeiramente incontestável. É urgente criar as condições para o combater.

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