É uma história com uma conclusão que não é rara no mundo das startups. De acordo com dados do Eurostat de 2022, a taxa de mortalidade de startups nos primeiros 5 anos ronda os 50%. Já um estudo de Shikhar Ghosh, da Harvard Business School, concluiu que a taxa de falhanço dessas empresas é de 30-40% se considerarmos a perda total do investimento; de 70-80% se considerarmos o retorno financeiro projectado; e de 90-95% se considerarmos a falha em cumprir as projecções iniciais.
Não faltam estudos que comprovam que investir em startups acarreta um elevado risco, mas isso não impediu os governos de canalizar fundos públicos para a incerteza. Sendo certo que é do Estado que parte o incentivo à inovação, algo que os liberais optam por nunca mencionar, a verdade é que esse investimento deve ter em conta um conjunto de pressupostos que tenham em conta o real desenvolvimento do país.
Num contexto em que o actual Governo está muito preocupado com as supostas fraudes relativas às prestações sociais e invoca os prazos do PRR para poder aprovar à força a Prestação Social Única, o caso da Unbabel acaba por ser revelador da política de classe que serve de bússola orientadora das políticas de direita,
Fundada em Lisboa em 2013, a Unbabel é uma startup portuguesa que traduz e adapta conteúdo para vários idiomas e que desenvolveu os seus próprios modelos de IA, como o TowerLLM. A história da empresa não por aqui, no entanto, uma vez que integrou a Unicorn Factory Lisboa uma iniciativa promovida por Carlos Moedas que procurava ser um grande polo de inovação e empreendedorismo, para além de desenvolver e fixar as denominadas «startup unicórnio» empresas jovens, de rápido crescimento, que atingem uma avaliação de mercado de 1 milhão de milhões de euros.
Todos estes elementos permitem já traçar o escândalo. Ao longo dos últimos anos a Unbabel foi amealhando dinheiro do PRR, a famosa «bazuca» que supostamente iria permitir garantir uma economia mais resiliente. Ao todo estava previsto receber um financiamento de 14,8 milhões de euros, sendo que recebeu 89,6% deste, ou seja, 13,3 milhões.
A projecção da empresa era tal que esta chegou a liderar um dos consórcios de inteligência artificial financiados pelo PRR, com 75 milhões de fundos comunitários. Este sua liderança chegou ao fim após a compra da Unbabel pela americana TransPerfect, empresa de tradução norte-americana. Ao ECO, jornal que lidera o número de notícias sobre a empresa, Vasco Pedro, cofundador e CEO da Unbabel, disse que a operação iria permitir aumentar significativamente a escala da empresa.
A operação aconteceu a Agosto de 2025 e essa entrevista de Vasco Pedro foi em Agosto do mesmo. Acontece que passado um mês, o ECO noticiou que a «Venda da Unbabel por “valor relativamente baixo” gerou “perda total” para muitos investidores». «Com perspetivas "pouco animadoras" e uma queda de 50% no volume de negócios, Unbabel foi vendida por "um valor relativamente baixo". Alguns investidores perderam tudo», pode ler-se na peça.
Já em Dezembro de 2025 soube-se que o fundo espanhol Buenavista Equity Partners, investidor da Unbabel, intentou uma acção contra a venda da startup à TransPerfect no valor de 12,75 milhões de euros.
Nem um ano passou e no passado mês de Março de 2026 a Agência para a Competitividade e Inovação, I.P. (IAPMEI) começou a analisar se a Unbabel concluiu os projetos financiados pelo PRR. Ou seja, além do processo em tribunal, as autoridades portuguesas começaram a investigar a empresa. Digno de registo foi o silêncio das entidades políticas que incentivaram o investimento público em empresas altamente especulativas.
Acontece que a abertura de investigação por parte do IAPMEI só surge depois da notícia que veio confirmar todas as suspeitas: a Unbabel tinha pedido insolvência no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa. «No Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa, Juízo de Comércio de Lisboa – Juiz 2 de Lisboa, no dia 10 de março de 2026, pelas 16h40, foi proferida sentença de declaração de insolvência da devedora: Unbabel, Lda», lê-se na sentença.
«Sem atividade nem ativos significativos, a insolvência da Unbabel Lda. é mais um capítulo nesta história que marca o empreendedorismo português», escreveu o ECO, num processo que vai deixar muita gente a arder já que a empresas nada tem. Entre essas entidades que nada vão ver de retorno está o proprio Estado que injetou bastante dinheiro na empresa.
Numa altura em que se discute a «subsidiodependência», importa vincar que nem a direita nem a extrema-direita levantaram esta bandeira, a bandeira das empresas que arrecadam milhões dos contribuintes e nada acrescentam para a economia nacional.
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