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Fidel Castro, 60 anos na batalha das ideias

Ler Fidel Castro – Palavras de um Revolucionário não é um exercício de nostalgia mas de sobrevivência: o privilégio de poder pensar com Fidel, com o seu legado lúcido e corajoso – uma ferramenta que ilumina os tempos sombrios que hoje temos pela frente.

É no mínimo irónico que o centenário do nascimento de Fidel Castro se celebre este ano, o mesmo ano em que o Departamento de Estado norte-americano decidiu, ao fim de 67 anos de revolução socialista em Cuba, emitir um comunicado de cerca de 100 páginas intitulado Cuba – Capital do Comunismo do Século XXI, em que acusa a revolução cubana de ser  uma ameaça aos Estados Unidos. «A ofensiva de Cuba contra os Estados Unidos nunca foi, na sua essência, uma disputa sobre política económica, soberania ou mesmo a posse de um território específico. Trata-se de uma revolução contra a própria civilização ocidental – travada, em parte, através do método inédito e insidioso de persuadir os filhos do Ocidente  a virarem-se contra a sua própria herança», diz o relatório de Marco Rubio e os seus acólitos em Miami-Washington.

É que ler Fidel Castro – Palavras de um Revolucionário, colectânea de discursos que percorrem mais de 60 anos do líder histórico da revolução cubana, recentemente editado pelas Edições Avante!, permite-nos de imediato perceber que o método não é «inédito e insidioso». Pelo contrário, é absolutamente franco e revolucionário. E o objectivo de “persuadir os filhos do Ocidente” não será “contra a sua própria herança”, mas num processo de auto-conhecimento tão profundo dessa herança, que só a sua superação pode finalmente abrir caminho à emancipação.

É precisamente assim, em quatro “eixos”, que se pode ler este livro, que abre com a veemente defesa do jovem advogado Fidel Castro na prisão, na sequência do “falhanço” da tomada do Quartel Moncada em Santiago de Cuba, em 1953, historicamente intitulado A história absolver-me-á. A obra passa depois por inúmeros momentos-chave da revolução cubana e do seu lugar e relação com/no mundo: o Manifesto do 26 de Julho de 1955; a Primeira Declaração de Havana de 1961; as Palavras aos Intelectuais de 1961; a formação do Partido Comunista de Cuba em 1965; a declaração da Missão Internacionalista em Angola em 1975; o anúncio do «Período Especial em época de Paz» em 1990; a Batalha de Ideias de 2003; o legado dos Comunistas cubanos e da revolução cubana já na década de 2000.

Mais do que uma leitura cronológica destas “palavras de um revolucionário”, faz sentido perceber, num processo dialéctico, como o próprio se posiciona perante as transformações de que foi actor, motor e testemunha, em Cuba e no mundo. De 1953 a 2016, há passagens de uma impressionante actualidade, muito além do recrudescimento do bloqueio norte-americano que hoje Cuba sofre (seis meses depois do cerco petrolífero imposto pelos EUA em Janeiro deste ano), para o qual Fidel avisava sempre, num permanente estado de alerta para a possível crueldade sem fim de que o imperialismo americano é capaz e a que só um projecto humanista e um povo politicamente consciente e emancipado poderá resistir.

A tomada de consciência política do povo cubano é, portanto, uma das linhas condutoras destes discursos, num reconhecimento sincero da luta, dos sacrifícios, mas também dos sonhos e aspirações dos cubanos ao longo de mais de seis décadas de revolução. Dizia Fidel, em 1953, de que povo falava quando a ele se referia: «Entendemos por povo, quando falamos de luta, a grande massa não resgatada, a quem todos oferecem e a quem todos enganam e traem, a que deseja por uma pátria melhor, mais digna e mais justa; a que que é movida por um desejo ancestral de justiça». Também por isso «esta é a revolução socialista e democrática dos humildes, com os humildes e para os humildes» (1961). Mas esse povo,  «digamo-lo, não como um motivo de vergonha, mas sim de orgulho – e como prova do que os povos podem fazer, e como prova das possibilidades das revoluções» (1970), passou por um processo de transformação política, de que, sem dúvida, Fidel foi também o seu artífice. O historiador Vijay Prashad costuma dizer que o Ocidente não entendia como Fidel poderia  discursar durante três, quatro, seis horas sempre diante de enormes massas de gente atenta. Esquecem-se, explica Prashad, que o que Fidel fazia era um processo de elevação da consciência das massas. Era através de Fidel que se expunham dados sobre o país, sobre o mundo, que se analisavam dinâmicas do imperialismo, se punha em relação informação e conhecimento a que muitas vezes, sobretudo no início da revolução, o povo não tinha acesso. Como dizia recentemente o economista cubano, José Enrique González Calvo: «[Fidel] não mudou um Governo. Mudou uma maneira de pensar».

E é o próprio Fidel que admite esse processo de formação de consciência política do povo cubano: «A maioria do nosso povo, no início de 1959, nem sequer era anti-imperialista, não havia consciência de classe, instinto de classe!, que não é a mesma coisa. É necessário recordar que os primeiros anos foram os anos de grandes batalhas políticas, de grandes batalhas ideológicas entre o caminho capitalista ou o caminho socialista, entre o caminho burguês ou o caminho proletário, e que o trabalho da pequena vanguarda revolucionária foi conquistar, antes de mais nada, a consciência das massas» (1970). Mas também é por isso que esse povo «sem apenas uma verdadeira e mínima cultura política, foi capaz de fazer a  revolução, defender a pátria, alcançar depois uma extraordinária consciência política e iniciar um processo revolucionário sem igual» (1999).

Isto também foi possível através da combinação de uma retórica anticolonial e anti-imperialista, ancorada numa narrativa patriótica de identidade nacional, de libertação e descolonização. É assim que o Movimento 26 de Julho vai, desde o assalto a Moncada, assumir a linhagem histórica com os heróis da independência – Carlos Manuel Céspedes, Antonio Maceo e Máximo Gómez, a geração de 1868, a que se junta Jose Martí na segunda Guerra de Independência (1895-98).

Não é por acaso que, logo na sua defesa judicial, em 1953, Fidel assume: «Parecia que o Apóstolo [Jose Martí] iria morrer no ano do seu centenário [nascimento de Martí 1853]». Mas será a Geração de Moncada a dar-lhe vida: «Vive, não morreu, o seu povo é rebelde, o seu povo é digno, o seu povo é fiel à sua memória». O discurso de 1968, na celebração dos  100 anos das Guerras de Independência, sela, portanto, essa linhagem em que a revolução de 1959 se insere, porque «tem raízes muito profundas na história da nossa pátria».  Escravos ontem, hoje homens e mulheres livres, «levando adiante a batalha contra o subdesenvolvimento», capazes de «defender a revolução contra o imperialismo», indo «às raízes desse pensamento revolucionário».

«Grande parte destes discursos é atravessada por conceitos e leituras do mundo que denotam não só a evolução e o aprofundamento do próprio pensamento de Fidel Castro sobre a história, a nação, o socialismo, o comunismo, a revolução, mas também um fio condutor que permanece intacto desde o primeiro momento: sentido de justiça, humanismo e transformação emancipadora.»

Explica Fidel: «Se uma revolução em 1868, para se chamar revolução, tinha de começar por dar liberdade aos escravos, uma revolução em 1959, se quisesse ter o direito de se chamar revolução, tinha como questão elementar a obrigação de libertar as riquezas do monopólio de uma minoria que as explorava em benefício exclusivo próprio. (...) Porque a revolução é o resultado de cem anos de luta, é o resultado do desenvolvimento do movimento político, da consciência revolucionária, armada com o pensamento político mais moderno, armada com a concepção mais moderna e científica da sociedade, da história e da economia, que é o marxismo-leninismo; arma que veio completar o acervo, o arsenal da experiência revolucionária e da história do nosso país» (1968).

É assim que revolucionários em 1898, revolucionários em 1959, e também revolucionários hoje enfrentam a ira dos imperialistas. «Os imperialistas (...) assim como também usaram a palavra ‘mambí’ contra os nossos libertadores como uma ofensa, também tentam usar a palavra ‘comunista’ como uma ofensa, e a palavra ‘comunista’ não é para nós uma ofensa, mas uma honra» (1965).

O imperialismo e a sua ameaça permanente é outro dos eixos principais destes discursos. Não porque não assumisse, desde o primeiro dia, as dificuldades de construir uma  revolução: «Creio que este é um momento decisivo da nossa História: a tirania foi derrubada. A alegria é imensa. E, no entanto, ainda há muito por fazer. Não nos iludimos acreditando que daqui para a frente tudo será fácil. Talvez daqui para a frente tudo seja mais difícil» (1959). Sabia claramente das dificuldades, especialmente com uma revolução que triunfava nas barbas de um gigante como os Estados Unidos: «Nós diferenciamo-nos dos Estados Unidos porque os Estados Unidos são um país que explora outros povos, porque os Estados Unidos são um país que se apoderou de grande parte dos recursos naturais do mundo e que faz trabalhar em benefício da sua casta de milionários dezenas e dezenas de milhões de trabalhadores em todo o mundo. (...) Nós, com a nossa revolução,  não estamos apenas a erradicar a exploração de uma nação por outra nação, mas também a exploração de uns homens por outros homens».

E nada foi indiferente a um homem que atravessou todo o século XX, se fez marxista-leninista, liderou uma revolução socialista que triunfou, com todas as dificuldades, reveses e obstáculos com que se deparou (e continua a deparar) ao longo de décadas. Se «revolução é o sentido do momento histórico; é mudar tudo o que tem de ser mudado» (2000), a meses  da Queda do Muro de Berlim, expunha já as mudanças que se avizinhavam: «Vivemos um momento especial dentro do movimento revolucionário mundial. Não vamos andar com rodeios, temos de chamar as coisas pelos nomes. Há dificuldades no movimento revolucionário mundial; há dificuldades no movimento socialista», para depois afirmar que «penso que foram cometidos muitos erros, que trazem estes problemas» (1989).

Em 1990, ainda antes do colapso da URSS, Fidel reconhece a alteração profunda na ordem mundial, incluindo na linguagem, que agora avançava, vitoriosa: «Há muito tempo que a palavra internacionalismo não é mencionada nos restantes países do que foi o campo socialista. A palavra revolução parece algo maldito, a não ser para confundir essa coisa grotesca que se chama contra-revolução com revolução, porque até distorceram os conceitos, as ideias, as palavras e o sentido das palavras».

E, finalmente, quando anuncia o «Período Especial em Tempo de Paz», avisa: «Haja guerra ou não, haja período especial ou não, este momento é o mais importante da história do nosso país e um dos mais importantes do mundo, em que se decide se todas as bandeiras revolucionárias serão dobradas e se uma gigantesca onda contra-revolucionária tomará conta do mundo por um longo período de tempo, ou se se luta, se resiste e se dá o exemplo e fazemos o que há que fazer» (1990).

O que havia – e há – a fazer também era a inevitabilidade da rebelião tricontinental. Se «o que os imperialistas não podem perdoar-nos é a dignidade, a integridade, a coragem, a firmeza ideológica, o espírito de sacrifício e o espírito revolucionário do povo de Cuba» (1961), era e é então evidente que como o imperialismo deseja, ainda, «sonhar que as revoluções vão acabar, aconteça o que acontecer, não passará de um sonho, porque os povos vão reagir contra a fome, contra a miséria, contra uma situação insuportável (...). Isso é uma realidade, esse Terceiro Mundo existe e o imperialismo vê em Cuba um exemplo  perigoso» (1990).

Grande parte destes discursos é atravessada por conceitos e leituras do mundo que denotam não só a evolução e o aprofundamento do próprio pensamento de Fidel Castro sobre a história, a nação, o socialismo, o comunismo, a revolução, mas também um fio condutor que permanece intacto desde o primeiro momento: sentido de justiça, humanismo e transformação emancipadora.

Claro, tudo isto só seria possível num comunista. E em vários discursos Fidel vai insistindo, do carácter de um revolucionário ao papel de um revolucionário, a auto-crítica vs. o auto-elogio, sobre os perigos internos e externos, as ameaças, «sabendo que nenhuma técnica, por mais sofisticada que seja, poderá prevalecer sobre o homem» e porque «a batalha de  ideias, a nossa arma política mais poderosa, prosseguirá sem tréguas» (2003).

É nesse eixo que se discutem ecologia, técnica, ciência, desenvolvimento, cultura, na denúncia sistemática da desigualdade galopante que o triunfo do capitalismo, predatório e destruidor, acelerou, denunciando assim as falácias do "mercado” e “da liberdade”, hoje tão banalizadas pelo discurso dominante: «É hipócrita afirmar que a liberdade do homem e a absoluta liberdade do mercado são conceitos inseparáveis, como se as leis deste, que têm originado os sistemas sociais mais egoístas, desiguais e implacáveis que o homem conhece, fossem compatíveis com a liberdade do ser humano, a quem o sistema transforma numa simples mercadoria» (1992).

«E se estas palavras ecoam com tanta força três décadas depois, é porque o diagnóstico não só se manteve cristalino como se agravou. O que era profecia então é hoje a nossa brutal realidade, e é por isso que regressar a estas palavras não é um exercício de nostalgia, mas de sobrevivência.»

Profundamente consciente do que a depredação dos recursos, a sede interminável de lucro e de acumulação de riqueza, a desumanização dos povos pelo imperialismo faria (como hoje assistimos) pela devastação dos ecossistemas e do planeta, afirma em 1992, na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento: «A realidade é que tudo o que hoje contribui para o subdesenvolvimento e a pobreza constitui uma violação flagrante da ecologia. (...) A troca desigual, o proteccionismo e a dívida externa agridem a ecologia e propiciam a destruição do meio ambiente. (…) Se se quer salvar a humanidade dessa autodestruição, é preciso distribuir melhor as riquezas e tecnologias disponíveis no planeta. Menos luxo e menos desperdício nuns poucos países para que haja menos pobreza e menos fome em grande parte da Terra. Não mais transferências para o Terceiro Mundo de estilos de vida e hábitos de consumo que arruínam o meio ambiente. Torne-se mais racional a vida humana. Aplique-se uma ordem económica internacional justa. Utilize-se toda a ciência necessária para um desenvolvimento sustentável sem poluição. Pague-se a dívida ecológica e não a dívida externa. Desapareça a fome e não o homem».

E se estas palavras ecoam com tanta força três décadas depois, é porque o diagnóstico não só se manteve cristalino como se agravou. O que era profecia então é hoje a nossa brutal realidade, e é por isso que regressar a estas palavras não é um exercício de nostalgia, mas de sobrevivência. Continuemos então a pensar com Fidel, com o seu legado lúcido e  corajoso, um pensamento que é, acima de tudo, uma ferramenta que ilumina os tempos sombrios que hoje temos pela frente.

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