De há uns tempos a esta parte tenho tido vontade de escrever alguma coisa sobre o pensamento do Barata-Moura (aspectos biográficos estão na internet). O trato coloquial artificializa uma familiaridade própria de quem se deixou entranhar pela obra, transpondo a proximidade da convivência. Recentemente, tive o clique de que necessitava. Aquando da passagem de um amigo e colega dos tempos de faculdade pela terra onde moro, a conversa recaiu sobre a altura em que ambos fomos alunos do Barata-Moura e da importância que o seu pensamento e as suas interpretações dos conceitos filosóficos têm tido nas nossas investigações. O meu amigo sublinhava a existência de uma Escola Baratamouriana – será possível, no futuro, delinear as influências do Barata-Moura noutros pensadores, nomeadamente no âmbito do Materialismo-Dialéctico. Concordo, mas deixo isso para a historiografia futura e para quem tem mais capacidades e conhecimentos para traçar esse desenvolvimento. Fica o desafio.
Eu não prossegui pela investigação em Filosofia. Todavia, a escrita de artigos passa, comummente, por uma consulta, mais ou menos breve, à obra do Filósofo José Barata-Moura. A minha investigação de doutoramento não é excepção. Nuns aspectos “mais filosóficos” dessa investigação em História da Arte, a interpretação baratamouriana é parte fundamental da matriz de onde parte a reflexão. Esses momentos de consulta suscitaram algumas reflexões focadas na sua origem. Num momento de maior descontracção, perguntei ao Professor Barata-Moura como é que tinha conseguido conjugar o estudo da filosofia com a composição das canções, tendo tido sucesso em ambas as áreas, ao que me respondeu algo como “descansando de umas coisas com as outras”. Nunca consegui fazer isso, mas descanso agora do doutoramento com este texto mais banal – sem pretensão de fazer justiça à complexidade pensante que o motiva. A bem da verdade, também faço uma tentativa de sistematização e esquematização de algo que já está entranhado na minha forma de pensar. Se a minha interpretação não for a correcta, tome-se isso como o fluxo natural do pensar, que excede o cérebro onde teve origem.
Questões de método e métodos do questionamento
Filosofia Antiga foi a primeira cadeira da Licenciatura em Filosofia, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em que fui aluno do Prof. Barata-Moura – frequentei cadeiras leccionadas por ele entre 2010 e 2014. A leitura dos textos em grego antigo determinava, desde logo, a importância que tem a língua forjadora dos conceitos para os compreendermos. A partir daí, as camadas semânticas dos conceitos eram explicadas, estabelecendo relações com a nossa língua, com outros idiomas e com a transformação histórica dos termos. A língua em que pensamos é parte fundamental da rede matricial de onde nascem os conceitos. Assim o é, hoje e ao longo de toda a História. A etimologia das palavras é um ponto de entrada no seu significado e no que significam no contexto em que são utilizadas. Quando estudamos a História da Filosofia, de nada serve estarmos a decorar, importa perceber como é que os filósofos pensaram, a forma como encadearam as formulações, as ferramentas do pensar que utilizaram. São essas as ferramentas para o nosso próprio acto de pensar. O Professor sublinhava recorrentemente que não são apenas os filósofos que pensam, mas a tarefa dos filósofos é o pensar. Esse pensar assenta nas ferramentas determinadas pela tradição filosófica, seguindo um processo vivo que constrói a Filosofia – área do conhecimento delimitada a partir da Grécia Antiga. Talvez seja correcto afirmar que a filosofia se funda na concepção de categorias universais para explicar o real – com todas as necessidades de descasque que isto acarreta.
«A intervenção prática dos seres humanos é elemento integrante, transformador e transformado, no/do real. Os humanos não estão aí como meros intérpretes, olhando, do alto da montanha, a vida a acontecer. A interpretação faz parte do processo, mas não é o processo. A verdade do real não é algo de estático à espera de ser descoberto. As condições objectivas de possibilidade do real fundam-se no movimento (dialéctico) do todo – “contradição” incluída.»
Não se faz Filosofia sem o exercício da leitura e da escrita. Os textos contêm o pensamento que nos precede, reflectem a sistematização do afã pensante. Da leitura, não se quer decoração, um ornamento intelectual para papaguear e ficar bem em conversas de esplanada. Lemos para saber onde as coisas estão, onde as vamos buscar – é o preenchimento criterioso dum armário de ferramentas para auxílio na construção e arranjo das reflexões que vamos tendo ao longo da vida. Dado o meu parco poliglotismo, substituo o idioma original pela confiança crítica na tradução especializada. A escrita é a tradução da nossa compreensão, exige treino, exige aprimoramento, para afinar e encurtar a distância entre o pensado e o exprimido. Ambos os exercícios, pensados historicamente, em relação à pluralidade dos indivíduos relacionando-se (até consigo próprios), alimentam-se mutuamente.
Ontologia e outras coisas de ordem prática
A noção de ontologia baratamouriana não se prende à pergunta pelo “ser” – como Heidegger popularizou. A tradução do grego de Aristóteles pergunta por “aquilo que é tal como é”. De “aquilo que é” não está excluída a realidade material, em transformação, em movimento. A intervenção prática dos seres humanos é elemento integrante, transformador e transformado, no/do real. Os humanos não estão aí como meros intérpretes, olhando, do alto da montanha, a vida a acontecer. A interpretação faz parte do processo, mas não é o processo. A verdade do real não é algo de estático à espera de ser descoberto. As condições objectivas de possibilidade do real fundam-se no movimento (dialéctico) do todo – “contradição” incluída.
«A descoberta das contradições das relações sociais que presidem o processo Histórico fundam a possibilidade de equivaler o que é produzido à sua detenção. A justiça é algo que vem depois, e se ajusta, no processo de criação de condições para que a abolição de classes aconteça.»
Nesta senda, a teoria de Marx não assenta numa “moral” – algo de subjectivamente condicionado, com laivos de transcendentalidade. A análise crítica ao capitalismo não assenta na demonização dos capitalistas e na santificação dos proletários, como capítulo de uma eterna luta do bem contra o mal e vice-versa. A necessidade de superação do capitalismo não se deve à condição de “coitadinhos” dos trabalhadores. O reconhecimento do papel histórico dos trabalhadores é uma demonstração da sua força. A descoberta das contradições das relações sociais que presidem o processo Histórico fundam a possibilidade de equivaler o que é produzido à sua detenção. A justiça é algo que vem depois, e se ajusta, no processo de criação de condições para que a abolição de classes aconteça.
Como projecto final da Licenciatura em Filosofia, sob orientação do Prof. Barata-Moura, trabalhei “A Categoria da Superação [Aufhebung] em A Ideologia Alemã de Marx e Engels (Parte I)”. As idas a reuniões na companhia de outro orientando, que trabalhava a estética marxista, fizeram-me interessar mais por esse ramo e, posteriormente, enveredar pelo estudo da História da Arte e dos Mercados da Arte – convencido de que a economia da Arte preside a História da mesma. Porém, recorrentemente, essa categoria dialéctica vem ao meu encontro. A superação [Aufhebung] dá conta do processo de eliminação, manutenção e elevação. Traduzindo por miúdos, superficialmente, a superação do capitalismo exige a eliminação de certos factores, manutenção de outros, para que o estado de coisas se eleve a um patamar mais rico. Esse processo dá-se em contexto determinado, concreto – temporalmente e espacialmente. Ou seja, as condições de superação do capitalismo nunca serão iguais na Rússia, na China, em Cuba, ou em Portugal – cada um destes territórios tem as suas particularidades, forças produtivas, cultura, localização geográfica, etc.
A transformação das condições materiais para abrir possibilidades de superação dos vários momentos históricos são um processo dialéctico entre o todo e a parte. A autarquia local é uma parte que se contextualiza num todo nacional. A intervenção numa instituição que representa um todo determinado (União Europeia, por ex.) é via de transformação duma parte (um país). O todo não é uma mera soma das partes, o indivíduo não é um ser isolado – o colectivo determina-se pela relação entre as singularidades, os sujeitos determinam-se na sua relação plural com a multiplicidade.
Para remate: à trave, que os golos são para outros campeonatos Este texto acabou por ser mais acerca do seu autor do que do José Barata-Moura – transbordei o exercício assente na memória. As profundezas do lago podem estar repletas de mistérios para desvendar, mas à superfície está o nosso reflexo – a ver se não me afogo como o Narciso. Noutro formato, teria tido mais cuidado com algumas formulações e referenciações. Contudo, mesmo que a compreensão não seja a mais acertada, não deixa de ser um ponto de partida para as tarefas pensantes que vou tendo em mãos (e cabeça). Com o rigor, que o academismo exige, posto de lado, esta não deixa de ser uma interpretação do pensamento, da obra e da actividade professoral do Filósofo em questão – e questionamento, perpétuo diálogo almejando algum enriquecimento do intelecto.
Estou convencido de que, tomando conhecimento disso, o próprio troçaria dessa formulação de Escola Baratamouriana, uma corrente do Materialismo Dialéctico, mas a verdade é que vários de nós fizemos escola com este professor e seguimos com o exercício pensante pautado pela sua interpretação dos conceitos – mesmo que a deturpemos um bocadinho.
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