O que acontece quando dois cintos negros de karaté, homens do teatro, decidem escrever juntos uma peça? O resultado é Deixar o Karaté, um trabalho que está prestes a estrear-se e onde esta arte marcial é ao mesmo tempo autobiografia, filosofia e metáfora para o teatro e para a vida. «Se não fosse o karaté, levávamos pontapés e não sabíamos o que nos estava a acontecer», assume uma das personagens.
A criação, assinada por Pedro Gil, director da companhia Razões Pessoais, e Miguel Castro Caldas, artista associado, parte da coincidência que os dois conheciam há anos e que motivou conversas, talvez parecidas à que levam ao palco, embora com dissonâncias sobre a arte que imita a luta.
«Há esta coincidência de nós sermos cinto negro de karaté, e fomos acalentando esta fantasia de fazermos qualquer coisa a partir desse facto, dessa coincidência, porque o karaté foi uma coisa muito importante nas nossas vidas em determinado momento, e dissemos: "temos que aproveitar isto!"», conta Pedro Gil. Fizeram duas ou três sessões para «perceber se havia manancial» e concluíram que havia ali matéria para construir um espectáculo.
O processo criativo arrancou numa residência artística na Casa de Gigante, onde nasceu a coluna vertebral dramatúrgica. Numa segunda fase, a escrita passou a ser feita «a duas mãos», por Miguel Castro Caldas e Pedro Gil, chegando a uma primeira versão para ensaios, durante os quais o texto foi sendo reeditado e afinado.
O ponto de partida temático foi, naturalmente, o karaté. Mas rapidamente a conversa se alargou para a vida, para o teatro, para a pergunta que todos os karatekas ouvem: «Então e na rua?» Miguel Castro Caldas nota a ironia: «Quando as pessoas descobriam que eu praticava karaté, perguntavam sempre o que é que eu faria se fosse assaltado. A um actor nunca se pergunta o que é que ele faria na rua quando é assaltado.»
É desta dissonância que nasce o eixo central do espectáculo: uma dialéctica entre duas personagens que encaram o karaté de forma diferente. Uma acredita que o karaté é uma imitação da luta, mas só acontece dentro do dojo e na rua de nada serve. A outra defende que treinar a imitação da luta confere, ainda assim, alguma vantagem num confronto real. «Aqui exponenciámos um bocadinho essa dialéctica que está muito presente nas artes marciais», resume Pedro Gil.
Em ambos os casos, confirma-se o karaté como uma arte. «É uma arte porque é uma imitação», constata Miguel Castro Caldas. «Quando começámos a discutir, surgiu esta hipótese que eu acho que é bastante interessante, que é a ideia da arte como imitação, a ideia aristotélica da arte. De facto, o que se faz no karaté é uma imitação. Portanto, eu diria que é uma arte porque é uma imitação. É uma imitação com um fim diferente da guerra, da luta e da violência. Portanto, de repente foi uma coisa que eu ao fim de 20 anos consegui responder pela primeira vez», conta.
A reflexão aproxima o karaté do teatro: ambos são imitações. Um imita a luta, o outro imita a vida. E em ambos, o praticante ou o actor precisa de uma presença absoluta no momento presente. «Estar completamente no presente, mesmo que tenha um texto decorado, como o karaté tem um repertório de técnicas. Não posso estar a pensar no que vem a seguir, tenho que ouvir o que o Pedro está a dizer», descreve Miguel Castro Caldas. Ouvir e respeitar o texto, tal como as regras que se cumprem no dojo, num exemplo de que, para Pedro e Miguel, o karaté «tem tudo a ver com a vida». «Está sempre a estabelecer pontos com a sociedade, com a emoção, com o poder, com o nosso corpo, com o outro, com o respeito, com o esforço, com a tua insegurança», aclara Pedro Gil.
«Mas uma coisa que eu acho piada é que é sem querer, fala-se na vida sem querer, não é de propósito», acrescenta Miguel Castro Caldas. E se o karaté é infinito, fazer carcaças também pode ser. «É curioso que as regras do dojo podem ser regras para muitas actividades. Um jogador de futebol pode precisar disto. Um bailarino pode precisar disto. Um bom padeiro tem que fazer o pão com sinceridade, autocontrole, esforço, dedicação», admite Pedro Gil.
«Para aprender uma coisa é preciso dar atenção, e estar em combate é uma questão de atenção, e é uma atenção que não é fechada, é uma atenção aberta. Estamos habituados a dizerem, "ah, isso é o budismo, é o zen". Não, não é nada. É Aristóteles, é Platão, é universal», reage Miguel Castro Caldas.
Talvez por isso, a ideia de deixar o karaté nunca seja verdadeiramente conseguida, apesar do impasse a que chegam Pedro Gil e Miguel Castro Caldas durante o espectáculo, em que há mais vida (e personagens) além do karaté. Pedro chama-lhe um processo de descontextualização. «Queríamos pôr as personagens a fazer outra coisa e que o público as visse num outro lugar. Descontextualizá-las. Quisemos no fundo fazer esta figura de estilo e ver o que acontecia», conta. Miguel Castro Caldas acrescenta uma chave de leitura: «Um combate de karaté perfeito é quando nenhum dos dois consegue atacar. É uma espécie de impasse.» «O que fazemos no espectáculo é que não há nada que fique resolvido», conclui.
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