Dando sequência a protestos que duram há meses, os manifestantes exigem responsabilidades políticas ao governo de extrema-direita liderado por Narendra Modi, reclamam a demissão no ministro da Educação, denunciam «repetidas irregularidades e corrupção no sistema centralizado de exames» do país sul-asiático.
Na segunda-feira, a polícia respondeu de forma brutal aos manifestantes que seguiam em direcção ao Parlamento, provocando centenas de feridos e detenções. Logo a seguir, milhares de pessoas concentraram-se na capital indiana, para dar continuidade aos protestos e exigir responsabilidades ao governo central.
Os manifestantes reagruparam-se em Jantar Mantar, no centro de Nova Déli, e reorganizaram o local que a polícia tinha destruído horas antes. Milhares de pessoas, entre as quais M. A. Baby e outros dirigentes do Partido Comunista da Índia (Marxista), deputados de partidos progressistas e de esquerda, decidiram passar a noite com os estudantes em luta.
Segundo refere o Breakthrough News, as mobilizações que se seguiram esta semana na Índia constituem o maior movimento de revolta em muitos anos – algo que Srijan Bhattacharyya, secretário-geral da Federação dos Estudantes da Índia (SFI, na sigla em inglês), também deixou perceber em declarações à imprensa, afirmando que «há muito tempo que não via um movimento ganhar tanta força» no país.
Sem responder a questões de fundo, o governo indiano caracterizou os protestos como uma tentativa de criar «instabilidade e violência», na mesma linha de abordagem a outros grandes protestos no país, que foram caracterizados como «anti-nacionais».
Educação pública negligenciada, elevados custos para as famílias
Organizações estudantis indianas alertam que mais de uma dezena de estudantes se suicidaram nos últimos meses, depois de vários exames centralizados terem sido cancelados por alegadas «corrupção e irregularidades».
A imprensa noticiou dezenas de casos em que estes exames – relativos à admissão para medicina, engenharia, docência e diversos cargos públicos – foram cancelados à última hora ou imediatamente após a sua realização, com os responsáveis a alegarem «razões técnicas ou legais».
Na Índia – explica o Breakthrough News –, há milhões de estudantes a fazer estes exames, todos os anos, candidatando-se a uma de várias centenas de vagas.
«A maioria destes alunos, provenientes de famílias de classe média ou baixa, vê estes exames como oportunidades de ascensão social», e as famílias gastam grande parte dos seus rendimentos na educação dos filhos e na contratação de cursos que os preparem para os exames – num país onde a «negligência» para com o sistema público de educação é «sistémica», destaca a fonte.
Cada ciclo de exames acarreta um elevado custo económico, pelo que o cancelamento dos exames e as denúncias sobre irregularidades no processo geram enormes prejuízos económicos e emocionais para estudantes e famílias.
Manifestantes reclamam melhor educação e responsabilidades políticas
De acordo com a fonte, as denúncias de «corrupção e irregularidades» aumentaram consideravelmente com o governo liderado por Modi. A revolta popular foi crescendo, bem como as exigências de responsabilização política.
Os protestos, que em Junho reclamavam a demissão do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, assumem agora um espectro reivindicativo mais amplo, que passa pelo cancelamento total de alguns dos exames centralizados e pela demissão do governo indiano.
Vaga de solidariedade e denúncia de um «sistema desigual»
Ao longo da última semana, as mobilizações espalharam-se pelo país fora, de norte a sul, passando por estados como Kerala, Bengala Ocidental, Tamil Nadu, Punjabe, Haryana, Madhya Pradesh, Telangana, Maharashtra, Bihar, Karnataka, Goa ou Rajastão.
Além de organizações estudantis, partidos políticos de diversos âmbitos, sindicatos, organizações de mulheres, de agricultores e outras passaram a apoiar e a dinamizar os protestos.
Num comunicado conjunto, várias organizações de classe representando os trabalhadores, as mulheres, os agricultores, os estudantes e a juventude apelaram à mobilização em apoio à «enorme resistência» que estudantes e jovens têm estado a travar na Índia, e reclamaram a demissão imediata do titular da pasta da Educação.
Sublinham que jovens e estudantes «estão a lutar contra o sistema educativo altamente autoritário, pró-corporativo e sectário estabelecido pelo regime de Modi», e denunciam o «foco de corrupção» em que foi transformada a Agência Nacional dos Testes (NTA, na sigla em inglês).
As estruturas de classe referem-se à falta de trabalhadores estáveis na NTA, ao aumento brutal das taxas de inscrição nos exames, às múltiplas denúncias de corrupção – nomeadamente, fugas de informação sobre o conteúdo dos exames – e alertam para as centenas de suicídios ao longo dos anos. Neste sentido, reclamam também compensações financeiras para as famílias dos jovens que puseram fim à vida.
Numa declaração solidária emitida esta semana, a Assembleia Internacional dos Povos afirma que estes jovens estudantes pagam o preço de um «sistema desigual» com o qual continuam a lucrar «os ricos e poderosos».
Contribui para uma boa ideia
Desde há vários anos, o AbrilAbril assume diariamente o seu compromisso com a verdade, a justiça social, a solidariedade e a paz.
O teu contributo vem reforçar o nosso projecto e consolidar a nossa presença.
Contribui aqui