O acontecimento foi relatado com alguma discrição na comunicação/propaganda do regime oficial de «democracia liberal» implantado na União Europeia. O presidente ucraniano, legalmente fora de prazo, homenageou com pompas estatais a chegada a Kiev dos restos mortais do genocida nazi Andriy Melnik.
Pudor? Desconhecimento? Ou o reconhecimento da doutrina de que tudo é permitido ao chefe em funções da máquina nazi que se apoderou do Estado da Ucrânia na sequência do golpe norte-americano e europeu de 2014? Vale tudo, até a veneração de carrascos nazis e genocidas, em nome dos «os nossos interesses» e dos «nossos valores civilizacionais»?
«É extremamente simbólico que os nossos heróis ucranianos de hoje, que arrancaram a Ucrânia das mãos russas, fiquem ao lado dos ucranianos das gerações anteriores que também trabalharam para que a Ucrânia fosse o que é, que a Ucrânia fosse ela mesma, que a Ucrânia fosse livre», disse Volodymyr Zelensky perante a urna com os restos mortais de Melnyk, transportados desde o Luxemburgo, onde estiveram enterrados desde os anos sessenta.
Passando por cima do que «é hoje» a Ucrânia e de como é «a liberdade ucraniana», o maior significado das palavras de Zelensky, ao associar os «heróis» das «gerações anteriores» aos «heróis» de hoje, é o reconhecimento de que existe uma continuidade ideológica, política e militar entre os anos do colaboracionismo dos terroristas ucranianos com Hitler e o «nacionalismo» que assumiu o poder na sequência do chamado «golpe Maidan», em 2014.
O chefe da Ucrânia Ocidental proferiu as palavras em honra de Andriy Melnyk no Cemitério Militar Nacional de Kiev, lugar para onde pretende continuar a levar tudo o que resta dos principais dirigentes das várias organizações nazi-fascistas ucranianas dos anos trinta e quarenta do século passado. É o caso da UPA (Exército Insurgente Ucraniano), e da Organização dos Nacionalistas Ucranianos, também na sua versão OUN-B. O B significa Bandera, a par de Melnyk, um dos chefes terroristas que estiveram integrados no aparelho de guerra do III Reich e procedeu como tal durante os tempos da ocupação nazi da Ucrânia Soviética. Dizendo de outra forma, dirigentes hitlerianos que participaram activamente nas chacinas de mais de 26 milhões de cidadãos soviéticos realizadas nesses anos, entre os quais muitos e muitos milhões de ucranianos na terra que garantiam estar a libertar.
Bandera, recorda-se, é o herói nacional ucraniano por excelência, na actualidade. O dia do seu nascimento é feriado nacional, tem grandiosos monumentos espalhados por todo o lado e o nome associado a alamedas, ruas, estádios, teatros, cinemas e tudo o que possa imaginar-se.
A essência de um regime
Zelensky não é nazi, o regime ucraniano é um exemplo de democracia, nada tem de ditatorial, nem de racista e xenófobo, dizem e repetem, até à exaustão, os dirigentes da União Europeia e respectivos Estados membros, ecoados pelo subserviente aparelho de comunicação social.
Parece que, através de tal insistência, tentam não só disfarçar a realidade como convencer-se a si próprios da verdade de tais negações. Subconscientemente, ou não, assumem um dos princípios sagrados da doutrina Goebbels, segundo o qual uma mentira repetida muitas vezes acaba por tornar-se verdade.
Realidades como a ilegalização de mais de uma dezena de partidos políticos, a censura oficial da literatura e da imprensa, a proibição do uso de línguas nacionais que não seja o ucraniano e a caça violenta aos cidadãos com o objectivo de os mandar para a frente de batalha não incomodam os dirigentes ocidentais. Mesmo que existam tais pecadilhos, vagamente reconhecidos e logo justificados de quando em quando, trata-se de medidas que visam preservar o principal: a tal «democracia liberal»; e manter entretido o papão russo, sempre invejoso do nosso paradisíaco modo de vida.
Ao trasladar para solo ucraniano os restos mortais dos antigos terroristas nazis como símbolos da nacionalidade e da pátria, Zelensky não está apenas a dizer aos seus compatriotas que a Ucrânia é isto e que assim é a «liberdade ucraniana»; está a dizer a toda a União Europeia e aos Estados Unidos – e ao «mundo ocidental», em suma – que o preço a pagar por um «tampão» contra a Rússia é um ajuste de contas com a História que prossiga no caminho da restauração dos objectivos essenciais do nazifascismo.
Na prática, os dirigentes europeus assumem essa realidade. Ou por estarem dispostos a continuar a pagar esse preço, sem medir as consequências; ou por convicção de que a «democracia liberal» pode conviver em paz com o nazifascismo, mesmo que o risco seja diluir-se nele. No fundo, nada mais do que proporcionar as condições políticas necessárias para que o regime económico neoliberal, tão globalista quanto possível, se expresse com toda a sua vitalidade.
O que Zelensky, na sua impunidade, diz aos protectores é que a restauração do passado e a sua transição para o presente traduz a verdadeira essência ucraniana. Uma situação que, com variantes associadas a questões de oportunidade e ao desenvolvimento das circunstâncias, pode estar a viver-se em vários outros países do Leste europeu, já membros da União Europeia, onde o nazifascismo ressurge também como uma espécie de afirmação da identidade nacional «perdida» com o «domínio soviético». Países onde pilares do nazifascismo como o racismo, a xenofobia, o nacionalismo assente em elucubrações esotéricas e guetos religiosos voltam a ser fortes e essenciais, para gáudio do expansionismo e do enraizamento neoliberal.
Melnyk e os desencontros da História
Andriy Melnik, agora honrado por Zelensky e o Estado ucraniano, foi o chefe da OUN desde 1938 até à sua morte, nos anos sessenta. A organização sofreu uma dissidência provocada por Stepan Bandera, relacionada mais com os egos do que por questões estratégicas no combate hitleriano contra a União Soviética e o papel dos chamados «nacionalistas ucranianos».
A OUN e a dissidente OUN-B, juntamente com a UPA, como uma espécie de braço armado, foram as entidades responsáveis por grandes massacres das populações das regiões da Volínia e da Galícia Oriental, desagregadas da Polónia e integradas na Ucrânia Soviética depois do acordo de vida efémera entre Hitler e Stalin.
Neste quadro, e com apoio de Hitler, Melnyk e Bandera tentaram fazer valer o seu conceito de Ucrânia como «um Estado varrido de judeus, polacos e russos». O que equivale a dizer: que se faça uma limpeza étnica.
Se bem o disseram, mais eficazmente o fizeram, através dos massacres de dezenas de milhares de não-ucranianos, ou mesmo de ucranianos integrados em famílias polacas, nos primeiros anos da década de quarenta, à sombra ou com ajuda directa das tropas de Hitler.
«Realidades como a ilegalização de mais de uma dezena de partidos políticos, a censura oficial da literatura e da imprensa, a proibição do uso de línguas nacionais que não seja o ucraniano e a caça violenta aos cidadãos com o objectivo de os mandar para a frente de batalha não incomodam os dirigentes ocidentais.»
Numa carta dirigida a Joachim Ribbentrop, ministro dos Negócios Estrangeiros de Hitler, Melnyk apresentou, em Julho de 1940, as credenciais da OUN: uma organização «ideologicamente semelhante a movimentos semelhantes na Europa, especialmente o nacional-socialismo na Alemanha e o fascismo em Itália». Nessa missiva, de facto dirigida a Hitler, Melnyk solicitou ainda «que nos seja permitido marchar lado a lado com as legiões da Europa e com a nossa libertadora, a Wehrmacht alemã». Nada por esconder.
A resposta do Reich foi afirmativa. A OUN formou o Batalhão da Bucovina da Abwehr, a espionagem militar nazi, e o processo de constituição foi dirigido pelo próprio Wilhelm Canaris, que chefiou esse departamento entre 1935 e 1944.
O novo batalhão e a UPA dedicaram-se a liquidar mais de cem mil pessoas na Volínia e na Galícia Oriental, sobretudo polacos, arménios, judeus, russos, checos, georgianos, ucranianos contaminados «com sangue polaco». O carniceiro e «herói nacional ucraniano» Dmytro Klyachciwsky, comandante da UPA na Volínia, decretou, em 1944, «a liquidação física geral de toda a população polaca». A chacina incidiu sobre as vítimas mais vulneráveis, mulheres e crianças, como acontece sempre nestes casos, vide nos campos de refugiados palestinianos de Sabra e Chatila, em Beirute, 1982, e em Gaza, há quase 80 anos.
A OUN de Melnyk distinguiu-se igualmente pela sua violência brutal contra o movimento de revolta em Varsóvia, em 1944. A veneração de Volodymyr Zelensky pelos responsáveis destes actos, assumida em nome do actual Estado ucraniano como herdeiro ideológico, social e militar de tais práticas genocidas, tem passado em claro perante a esmagadora maioria dos dirigentes da União Europeia e dos governos dos Estados membros.
A Polónia, porém, guarda recordações doridas desses tempo. Não chegando ainda ao limite de retirar o apoio ao regime ucraniano na guerra contra a Rússia, os dirigentes polacos, pelo menos os que não se integram na elite europeísta de Donald Tusk, têm feito saber a Kiev que estas homenagens aos terroristas violam linhas vermelhas definidas pelo Estado polaco. O processo ainda está em desenvolvimento e Zelensky parece atiçá-lo em crescendo, como quem tenta isolar Varsóvia no contexto europeu.
A Polónia considera oficialmente as acções da OUN, ao lado das forças hitlerianas, contra as populações da Volínia e da Galícia Oriental, como «comportamentos de genocídio». Qualificação que corresponde, ponto por ponto, à definição de genocídio estabelecida pelas Nações Unidas.
Não se nota, dentro das classes políticas ocidentais da «democracia liberal», qualquer incómodo perante as sucessivas homenagens de Zelensky a reconhecidos genocidas. Não temos de nos surpreender, porque a mesma complacência existe em relação ao criminoso de guerra Benjamin Netanyahu, sem que nada aconteça.
O presidente da Polónia, Karol Nawrocki, escapa a esse unanimismo cúmplice, por razões óbvias. Depois da cerimónia de veneração a Andriy Melnik, encabeçada pelo presidente da Ucrânia, determinou que seja retirada a condecoração polaca «Ordem da Águia Branca» a Zelensky. Na realidade, embora a decisão seja natural, mas corajosa no âmbito europeu, o que surpreende é a anterior atribuição de tão elevada condecoração polaca a um defensor de exterminadores do povo polaco.
Zelensky não é nazi, defendem os dirigentes europeus, de Von der Leyen a Costa, de Montenegro a Macron, Merz, Starmer a Kallas. E a comunicação social oficial vai atrás, lançando anátemas contra as posições responsáveis de quem se limita a constatar a definição da Ucrânia actual como herdeira dos heróis terroristas aliados, colaboradores e cúmplices do regime hitleriano.
Zelensky não é nazi? Mas é público que os venera. Nestas circunstâncias, ser ou não ser deixa de ser uma questão. Entretanto, em todo o continente europeu, a besta cresce, cresce, cresce…
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