A questão da Linha Circular do Metro de Lisboa arrasta-se há oito anos. Assim que o Governo PS anunciou esta opção, em 2018, o PCP, as comissões de utentes e as organizações de trabalhadores da empresa opuseram-se a ela. As razões invocadas eram muito simples:
– O Estado ia gastar 200 milhões de euros numa obra que iria deixar a linha pior do que estava, pois a linha circular obrigava a transbordos que hoje não existem, objectivamente prejudicando toda a população da Zona Norte (Telheiras, Lumiar, Odivelas, Loures). Por outro lado, qualquer problema nas vias entre Campo Grande e Cais Sodré leva a que toda a zona central de Lisboa fique parada (hoje, se a Linha Verde é cortada continua a circular-se na Linha Amarela / Azul e vice-versa);
– O troço Campo Grande/Cais do Sodré não é de uma Linha Circular, pois, no essencial, trata-se de duas linhas quase paralelas, que percorrem o eixo central da cidade. Uma Linha Circular, como as que existem em Moscovo ou Londres, exigiria que a geografia de Lisboa fosse outra. Em Lisboa, a função redistribuidora de uma Linha Circular é feita pela Linha Vermelha que, se ligada a Alcântara, cruza todas as restante linhas ferroviárias e de Metro da cidade;
– A manutenção vai ficar mais cara e as reparações mais complexas, com as curvaturas demasiado apertadas a impactar negativamente na velocidade e no material;
– Havia investimentos muito mais importantes para a expansão do Metro e que acrescentariam muito à rede, nomeadamente levar o Metro à Zona Ocidental da Cidade e a Loures.
Entretanto, alguém fez a caricatura do projecto como «um carrocel de turistas», no fundo sublinhando que esta medida para o Metropolitano estava ligada ao projecto urbano para a cidade, onde a gentrificação avançava a passos largos pela mão de António Costa e Fernando Medina (e prosseguiria até aos dias de hoje, em passo de corrida, com Carlos Moedas).
O PS estava então na Câmara Municipal de Lisboa (CML) e no Governo, sem maioria. Mas, apesar de publicamente isolado nesta questão, foi impondo a sua vontade contando aqui e acolá com as cumplicidades certas (não tinha maioria na CML, mas o BE deu-lha nesta questão, apesar da posição do partido ser contrária à Linha Circular).
O Orçamento do Estado para 2020 foi aprovado por todos os partidos, menos o PS, com uma alteração que instava o Governo a suspender a Linha Circular. O PS chamou o Presidente da República e o Tribunal Constitucional a defender o direito do Executivo executar sem a intromissão da Assembleia da República. E a obra avançou.
Já com a obra em curso, aparece uma alternativa que evitava ter de se fazerem novas obras para destruir as alterações já realizadas no Campo Grande: colocar a Linha a funcionar em laço. O PCP e o PSD deram o seu apoio a esta alternativa, que era pior que a solução existente anteriormente, mas era menos má que a linha circular. Pelo menos, evitava-se metade dos transbordos obrigatórios.
Entretanto, o PSD assumiu a presidência da Câmara de Lisboa, e esta mudou oficialmente a sua posição passando a estar contra a linha circular e a defender a linha em laço (ou seja, os comboios seguiriam desde Telheiras pela antiga Linha Verde regressando a Odivelas pela antiga Linha Amarela e vice-versa), enquanto o governo central, nas mãos do PS, continuava a mandar avançar com a obra tal como estava.
Em 2024, na sequência de eleições legislativas, o PSD assumiu a liderança do Governo da República e passou a defender a necessidade de estudar a questão do laço, mas mandou avançar com a linha circular.
A estratégia parece simples: avançar com a obra, fazer a inauguração a tempo das próximas eleições autárquicas. Quando surgirem os problemas, dizer que a culpa foi do PS e fazer então as alterações. Mas, enquanto o PSD executa a obra, o PSD aprova moções contra a obra, enquanto Pinto Luz se prepara para inaugurar a linha circular, Carlos Moedas exige estudos sobre a linha em laço.
Claro que quem se prejudica são os utentes e as contas públicas. Vão-se gastar 400 milhões de euros (quase o dobro do inicialmente anunciado) numa obra com poucos benefícios para a cidade e muitos prejuízos para os utentes e o serviço. Daqui a uns anos a cidade vai ter que reverter esta obra e gastar milhões a desfazer a linha circular.
A questão é que, ao mesmo tempo que se desbaratam 400 milhões de euros, o que os utentes precisavam era que a oferta aumentasse, nomeadamente com menores espaçamentos entre comboios, como é tecnicamente possível. Mas isso não se faz por causa dos critérios economicistas que determinam que o ideal é um metro andar a abarrotar, e que recusam pagar horas extraordinárias para assegurar à cidade transporte quando ela precisa de oferta extraordinária.
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