Ao longo da sua intervenção, o deputado do PS procurou enquadrar o actual contexto económico, dando como principal causador para o aumento do custo de vida «o conflito no Médio Oriente», considerando que os preços «não regressam por magia». Elencando as dificuldades das famílias, seria de esperar que João Torres anunciasse um conjunto de medidas estruturais, porém, ao estilo do proprio PS, o deputado reivindicou medidas pontuais que não combatem a especulação de preços.
Assumindo que o determinante para fazer face à actual conjuntura, João Torres defendeu medidas no plano fiscal, medidas essas que, no fundo, salvaguardam os lucros dos grupos económicos que continuam a ganhar milhões com a especulação dos preços. Para o PS, o necessário seriam «medidas de carácter temporário, mas claras», como a redução do IVA dos combustíveis, o IVA zero para bens essenciais, ou apoios a sectores de actividade.
Após a sua intervenção, João Torres teve pedidos de esclarecimento do Chega, do PSD e do PCP, sendo que coube aos comunistas a seriedade do debate, e à direita a recusa de um debate sério, revelando que pouco lhes diz o tema que estava a ser discutido.
Num momento em que muitas famílias não conseguem chegar ao fim do mês, André Ventura optou por falar de José Sócrates, numa lógica de intervenção para as redes sociais e para os soundbytes televisivos. Mais uma vez o Chega nada acrescentou ao debate.
Da parte do PSD, a intervenção não foi muito distante do Chega, ficando evidente que o partido do Governo vive alheado numa bolha. O deputado Almiro Moreira recorreu a Mario Centeno para dizer que não devemos reduzir artificialmente os preços porque isso, alegadamente, redirecciona artificialmente a procura.
As críticas vieram de Alfredo Maia do PCP que, considerando um debate sobre os rendimentos «oportuno», não deixou de assinalar as «ambiguidades e até os entraves colocados pelo PS a avanços na melhoria das condições dos trabalhadores e dos pensionistas», relembrando que os «socialistas» invabilizaram propostas que iriam aumentar o poder de compra.
Desmontando as limitações do PS, Alfredo Maia explicou que a redução de impostos e do IVA Zero sobre os alimentos propostos pelo PS são as mesmas medidas defendidas pela presidente executiva da SONAE e que ausente do discurso do partido de José Luís Carneiro está preocupação com os lucros desproporcionados das grandes superfícies e das gasolineiras.
Face a tal, o deputado do PCP questionou o PS por que razões não acompanhou as
propostas do seu partido para a fixação dos preços dos alimentos e dos combustíveis, para a limitação das margens de lucro, ou para a fixação do preço da botija de gás em 20 euros. Importa lembrar que o PCP voltou a apresentar um projecto de lei para o controlo de preços sobre os produtos do cabaz alimentar essencial e outro para fixar um preço de referência para combater a especulação e reduzir os preços dos combustíveis e GPL.
Tendo a oportunidade de responder às três questões colocadas, João Torres acabou por responder somente ao Chega e ao PSD, defendendo a sua proposta de IVA zero dos bens alimentares. O mesmo aconteceu numa segunda ronda de questões quando questionado pelo Livre e pelo CDS-PP, o deputado do PS só quis responder a Paulo Núncio.
O debate continuou com Inês Sousa Real a apresentar a proposta do PAN que procura criar um Programa de apoio à disponibilização de imóveis devolutos para arrendamento com renda condicionada.
De seguida, a líder da bancada parlamentar do PCP apresentou as duas propostas que o seu partido colocou à votação, anteriormente adiantadas por Alfredo Maia. Na sua intervenção, a comunista deixou bem claro que enfrentar o aumento do custo exige medidas concretas e não medidas de âmbito fiscal que servem para «aumentar as margens de lucro de quem tem vindo a ganhar com a actual situação».
Face às suas propostas, Paula Santos deixou o desafio ao hemiciclo: «Com quem estão, com os especuladores que se apropriam dos salários e das pensões, ou com os trabalhadores e os reformados, com uma vida digna para quem trabalha e trabalhou uma vida inteira?».
Paula Santos acabou por ter um pedido de esclarecimento por parte do Chega e este, numa intervenção ao estilo da Iniciativa Liberal acusou o PCP de, ao longo dos anos, ter obstaculizado o empreendedorismo e a criação de riqueza. «O futuro de Portugal não se constrói com o controlo de preços nem perseguição a quem investe neste magnífico país», disse o deputado desconhecido da extrema-direita, a defender os grandes empresários.
Em resposta, Paula Santos acusou o Chega de querer destruir o país com a doutrina das liberalizações e privatizações, acusando este partido de estar preocupado com os lucros dos grandes grupos económicos e não com a vida das pessoas.
No momento das votações ficou evidente para que lado tomba a balança parlamentar, com o Chega, PSD, PS, CDS-PP e Iniciativa Liberal a obstaculizar o controlo de preços dos bens alimentares e dos combustíveis, dando respaldo à contínua especulação e à imposição de dificuldades.
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