É cada vez mais evidente a interferência israelita nos assuntos internos de Portugal. Vários influencers foram acusados de receber dinheiro em troca de uma viagem a Israel com o objetivo de promoverem em Portugal a narrativa propagada pelas autoridades daquele Estado, apontado como responsável por um genocídio contra o povo palestiniano. Mas já em Julho de 2024, quando decorriam massacres a larga escala em Gaza, várias figuras públicas, entre deputados, autarcas e comentadores televisivos, tinham estado presentes na despedida do embaixador de Israel, Don Shapira. Carlos Moedas, Rodrigo Saraiva (IL), Pedro Frazão (Chega), Pedro Delgado Alves e Sérgio Sousa Pinto (PS), Liliana Reis e Alexandre Poço (PSD), Telmo Correia (CDS) e os comentadores Helena Ferro Gouveia e Nuno Rogeiro foram alguns dos convidados.
Meio ano depois, em Fevereiro de 2025, de acordo com a revista Sábado, Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, dava uma descompostura «praticamente em público» a quatro deputados do PSD, acusando-os de serem «terroristas anti-Hamas». Bruno Ventura, Carlos Reis, Liliana Reis e Regina Bastos tinham estado, pouco tempo antes, numa visita oficial a Israel, em contactos com o governo e militares, e foram também acusados de «passar informações» sobre Portugal a Israel.
Agora, numa orquestra bem afinada, assistimos a meios de comunicação social, deputados, comentadores televisivos, influencers e o embaixador de Israel a falarem no mesmo tom sobre a participação de organizações palestinianas na Festa do "Avante!". O facto de isto acontecer há tantos anos e de só estar a ser falado agora mostra bem como é um caso criado artificialmente para atacar o PCP.
Os mesmos que não estranharam a publicação de imagens de crianças ucranianas em formações de como fazer cocktails molotov nas televisões portuguesas e que nunca questionaram, e bem, a resistência armada dos polacos no Gueto de Varsóvia contra as forças nazis vêm agora questionar o direito inalianável dos povos à resistência contra o colonialismo através de todos os meios, incluindo a luta armada, consagrado pelas Nações Unidas. Já muito se disse sobre o facto de Nelson Mandela ter sido acusado de terrorismo. O histórico líder sul-africano dirigiu o Umkhonto we Sizwe, braço armado do ANC, que esteve durante décadas nas listas de organizações terroristas dos Estados Unidos e do Reino Unido.
De facto, há muito que a discussão sobre o que é ou não terrorismo é estéril. Mais do que uma designação penal, o termo é instrumentalizado politicamente. O próprio PCP foi acusado de terrorismo pela ditadura salazarista. O UÇK kosovar que foi acusado de traficar os órgãos das suas vítimas nunca foi considerado terrorista porque era aliado do Ocidente, mas era considerado terrorista pela Jugoslávia e, mais tarde, pela Sérvia. Os exemplos sucedem-se para mostrar que classificar de terrorista uma organização é uma escolha apenas política. Portanto, a decisão dos Estados Unidos ou da União Europeia de incluirem a FPLP na lista de organizações terroristas é isso mesmo: política.
«A questão dos métodos é muito abordada e discutida, mas apenas quando se fala da luta dos povos pela sua libertação. A imprensa raramente fala dos métodos do opressor e expõe dedicada atenção aos métodos do oprimido. É justo debruçarmo-nos sobre a humanidade de cada um dos actos mas não os podemos desligar da luta colectiva. Perder esse horizonte é perder tudo.»
«Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência e ao desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão». Isto não foi retirado de um panfleto comunista. Isto é o que diz ipsis verbis o ponto 3 do artigo 7.º da Constituição da República Portuguesa. E também esta foi uma decisão política aprovada pelos deputados constituintes eleitos pelos portugueses.
Evidentemente, a maioria dos governos, imprensa e partidos ocidentais tem-se mostrado mais chocada com os 15 mil civis mortos na Ucrânia, segundo dados das Nações Unidas, do que com os 80 mil civis mortos em Gaza. Também é uma opção política. Fingir que apoiam a Ucrânia porque é o país agredido quando praticamente em todos os casos estiveram do lado do agressor (Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Líbano, Venezuela, Irão, etc) é também uma decisão política.
A questão dos métodos é muito abordada e discutida, mas apenas quando se fala da luta dos povos pela sua libertação. A imprensa raramente fala dos métodos do opressor e expõe dedicada atenção aos métodos do oprimido. É justo debruçarmo-nos sobre a humanidade de cada um dos actos mas não os podemos desligar da luta colectiva. Perder esse horizonte é perder tudo. Sobretudo quando silenciamos os crimes do opressor. Lembro-me do filme A Batalha de Argel. Um dos principais dirigentes da Frente de Libertação Nacional Argelina está algemado e é interrogado pelos jornalistas franceses numa conferência de imprensa. Um repórter pergunta-lhe sobre os métodos utilizados pela resistência argelina. «Não é cobarde usarem malas de mulher com explosivos que matam inocentes?». O dirigente argelino olha-o e responde: «Não é mais cobarde atacar as nossas aldeias indefesas com napalm que mata milhares de vezes mais? Obviamente que ter aviões deixaria tudo mais fácil para nós. Dêem-nos os vossos bombardeiros e nós damo-vos as nossas malas». Para o povo palestiniano, resistir é existir. De cada vez que assinam um acordo de paz, são traídos por Israel. As leis que serviram para punir a Rússia não existem para Israel. As armas e o dinheiro dos nossos impostos que serviram para fortalecer a Ucrânia não chegam aos palestinianos. Só se pode defender quem o Ocidente decide. Os restantes são terroristas.
«O que está em curso é evidente. Uma campanha internacional liderada por Israel e pelos Estados Unidos, com a conivência de vários países europeus, para silenciar, amedrontar e criminalizar a solidariedade com o povo palestiniano. Não podemos permitir que no nosso país isso aconteça.»
Portugal tem no seu território uma embaixada do Estado que massacra palestinianos em massa e ocupa o seu país, de um Estado que aprovou a pena de morte exclusivamente para palestinianos. Vários partidos apoiam Israel e recebem representantes desse regime. Essa é uma decisão política. E a decisão política do PCP foi a de receber na sua festa, uma vez mais, aqueles que lutam pela libertação da Palestina.
Nos últimos anos, várias pessoas acabaram presas ou multadas pela sua solidariedade com a Palestina. Nove juízes do Tribunal Penal Internacional e procuradores; a relatora especial das Nações Unidas para a Palestina, Francesca Albanese; Fergie Chambers, o principal doador para projetos humanitários em Gaza está preso em Madrid a pedido dos Estados Unidos; em toda a Europa, protestos foram proibidos e milhares de manifestantes solidários com a Palestina foram detidos, sobretudo em Inglaterra, Alemanha e França. O que está em curso é evidente. Uma campanha internacional liderada por Israel e pelos Estados Unidos, com a conivência de vários países europeus, para silenciar, amedrontar e criminalizar a solidariedade com o povo palestiniano. Não podemos permitir que no nosso país isso aconteça.
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