Foi falta de «tática» ou reflexo de um problema social? Ao longo do campeonato do mundo de futebol vimos diversas identidades e referências da esfera do futebol nacional apontarem o dedo à falta de «fio de jogo» ou de um estilo de jogo próprio, culpando em grande medida o selecionador Roberto Martínez!
Fazer uma análise concisa da forma de jogo de uma equipa, tentando prever resultados ou descobrindo falhas e pontos fortes da mesma, é relativamente redutor. Principalmente quando não fazemos parte da equipa técnica da mesma e não temos acesso a um conjunto imenso de condicionantes que restringem o jogo, acabando muitas vezes por mudar drasticamente o resultado das tais análises! Os melhores analistas da esfera mediática tiveram a grande capacidade de descobrir que Portugal tendo um «talento» enorme a nivel de jogadores e uma equipa técnica de topo que acompanha todo o elenco, deveria ter alcançado resultados muito melhores do que aqueles que foram obtidos pela mesma!
Pois bem, os mesmos analistas e comentadores, que devoraram Roberto Martínez e toda a equipa técnica em relação à tática «escolhida», foram incapazes de prever que seleções com menos «talento» alcançassem resultados positivos contra equipas com muito mais talento, tal como Equador, Noruega, México e Paraguai ou Cabo Verde, Senegal e Egito, que, apesar de não terem vencido contra super potências do futebol como Argentina ou Inglaterra, deram bastante dificuldade às mesmas! Estes analistas não conseguiram adivinhar isto pelo simples motivo que o desporto não tem um funcionamento linear.
Seria fácil ganhar se fosse uma questão de somar os melhores jogadores e esperar que pela soma matemática de tanto talento as vitórias viessem em seguida, porém, o futebol (e o desporto) é a soma de muitas mais condicionantes! Dentro da soma destas condicionantes todas está, sem embargo, o valor individual de cada jogador, que obviamente vai ter um papel importante no resultado final. Porém, este talento individual vive por si mesmo, dependente da forma como consegue ou não consegue somar-se e adaptar-se às demais partes da equipa, formando por sua vez um coletivo! Seguindo esta linha metodológica, ainda não é aqui que termina a «equação matemática» na formação de uma equipa!
Perante este valor coletivo que uma equipa pode ter ou não ter, a mesma vive constantemente em relação direta com o meio e o entorno onde está inserida, e é esta capacidade de adaptação ou não adaptação do coletivo às diferentes condicionantes do entorno que fazem de facto o verdadeiro valor da equipa! Explicando esta parte prévia, os analistas de futebol, não conseguem fazer mais do que observar tendências. Tendências estas que podem variar perante pequenas alterações do entorno!
Peguemos no exemplo de Cabo Verde! Cabo Verde surpreendeu todos os analistas! Principalmente aqueles que fizeram uma analise mais linear da realidade da seleção de Cabo Verde. Saltando os jogos da fase de grupos e analisando com mais detalhe o jogo da seleção contra a Argentina: Cabo Verde fez sem sombra de dúvidas o melhor jogo do campeonato e trouxe o futebol mais divertido até ao momento. Vozinha, jogador irreverente, brinca com a bola e sai a correr com ela da baliza no meio dos pés! Joga na Segunda Divisão de Portugal, porém, não tem medo de nenhum dos Galácticos Argentinos e finta-os em cima da linha de golo! Sidney Lopes Cabral, corre como nunca as suas pernas correram.
Galvanizado pelo apoio de um povo imigrante que gasta o pouco dinheiro que juntou a trabalhar no pais anfitrião do mundial, gritam com todo o ar dos pulmões para apoiar o grito de uma nação que, depois da escravidão, da fome de 40 imposta pela ditadura fascista de Salazar, segue sendo, agora, perseguida pelo Imperalismo, condenada a não passar de uma ilha turística no meio do Atlantico! Retirar todas estas condicionantes de uma «análise» demonstra a forma redutora e simplista com que os analistas e comentadores dos meios de comunicação ensinaram a população portuguesa a «ver futebol». Um futebol irrealista e distante da verdade! Um futebol mecanicista e distante do povo que o observa e que sem saber acaba por ser o principal condicionante dos resultados do mesmo!
«Cabo Verde surpreendeu todos os analistas! Principalmente aqueles que fizeram uma analise mais linear da realidade da seleção de Cabo Verde.»
Um futebol sem vida, sem amor, sem alegria, onde o mais forte está destinado a ganhar e o mais fraco está condenado à derrota! Pois bem, Cabo Verde foi a prova do contrário. Apesar da sua derrota, é justo dizer que quase toda a população mundial (tirando o povo argentino, que, até lá no fundo no fundo, sentiu que o resultado deveria ter sido outro) torceu por Cabo Verde. Não por ódio aos argentinos, mas sim pela força e vontade do povo cabo-verdiano se fazer expressar através do seu jogo! Argentina marca o 3-2, o árbitro soma mais 3 minutos de compensação e termina o grito de revolta cabo-verdiano! Até Galeano deu voltas na tumba e certamente discutiu com os deuses do futebol, que empurrados em parte pela FIFA, traíram a vontade popular da maioria dos fãs de futebol!
Mas, se os jogadores de Cabo Verde trouxeram com eles «unidade e luta» e um grito de revolta de todo um povo que historicamente vive explorado e condenado à miséria pelos «senhores da terra», o que trouxeram os jogadores portugueses? Pois bem, antes de mais, temos que nos perguntar, o que será que sentiram a maioria dos jogadores portugueses quando vestiram um uniforme com simbolos referentes às «navegações» portuguesas? Orgulho? Ódio? Humilhação? Vários especialistas do futebol apontaram o dedo ao Rafael Leão por ser um jovem promissor, que, porém, joga sem aparente vontade e com uma carga defensiva baixa comprometendo a equipa.
Será que estes mesmos analistas teriam vontade de correr atrás de uma bola se o uniforme que são obrigados a usar fizesse referências (apesar de indiretas) ao episódio histórico que escravizou os seus antepassados? Talvez falte somar estas condicionantes nas análises da seleção! Bola para trás, atrair a equipa adversária até ao bloco médio e então, com a magia de Vitinha e João Neves, vascular o jogo até aos extremos. Os extremos quando podem e conseguem buscam a linha de fundo, e enviam a bola para a área, maioritariamente em passe atrasado para a entrada da mesma ou para a zona de penálti.
Quando os extremos não conseguem furar no 1x1 voltam para trás e voltasse a vascular jogo ou os alas tentam uma combinação com o objetivo de alcançar a linha de fundo ou então se já estiverem no último terço do campo, o cruzamento para a área. De forma resumida esta foi a tendência de jogo ofensivo da seleção portuguesa.
Os analistas observaram isto, e conseguiram chegar à conclusão final de que Portugal precisava de mais jogo entre linhas no corredor central, mais diagonais por parte dos extremos, e pelo meio, conseguiram criticar o Bruno Fernandes por não «aparecer» no jogo. Veja-se a tremenda incoerência e injustiça, analisar que a tendência é um estilo de jogo lateralizado e apontar o dedo ao numero 10 por não «aparecer» no jogo.
Porém, os analistas não se perguntaram pelo «porquê»? Por que será que Roberto Martínez escolheu este estilo de jogo? Por que será que segue apostando neste estilo de jogo, apesar de não funcionar? Será que o selecionador e os demais 20 membros do staff e jogadores da equipa não conseguem ver o que todos estavam a ver? Sim, conseguem, porém nada podem fazer! Nada podem fazer, porque qualquer outro estilo de jogo envolvia reduzir as oportunidades de golo de Cristiano Ronaldo. Bolas entre linhas, um jogo ofensivo mais coletivo com os extremos a terem maior probabilidade de golo representaria automaticamente uma tendencia muito menor de situações de golo nas zonas onde Cristiano teria maior probabilidade e facilidade de golo. Roberto Martínez desenhou um estilo de jogo ofensivo para vender.
Para vender t-shirts, para vender views para vender uma personagem. Não o fez por obra do acaso ou tão pouco o fez por vontade própria. Fez-lo porque assim demanda a ordem mundial do futebol vigente aos dias de hoje. A ordem mercantilista. A ordem capitalista. Outros fatores e condicionantes, intervêm diretamente nos resultados da seleção. Entre eles, (um que tem bastante peso) a falta de um estilo de jogo próprio do nosso país. Portugal encontra-se, dentro da organização mercantilista do futebol, como um país com o objetivo de vender e promover novos talentos. A liga portuguesa vive acorrentada a esta função, fazer clubes que sejam fortes potências na criação de ativos (jovens promessas) e valorizar jogadores (especialmente da América do Sul) para clubes e ligas potentes do resto da Europa.
Esta condicionante retrasa todo o processo de criação de um futebol autêntico e característico que seja reflexo da nação portuguesa. Como o futebol é um espelho da sociedade, é justo dizer que Portugal apresentou-se ao mundo como uma sociedade condicionada aos interesses do mundo mercantilista. Trouxe um futebol egocentrista, um futebol em busca de promover os recordes e o sonho de uma só «peça» do coletivo. Certamente não era este o futebol que Portugal merecia, que Ronaldo e os seus companheiros mereciam, e muito menos que Roberto Martínez quis ficar associado, porém os condicionamentos dos interesses mercantilistas... empurram-nos para uma derrota injusta. Talento havia, mas havia interesses mais fortes também.
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