Regularmente, nos jornais, nas televisões, nos congressos reaccionários, discute-se a questão das comemorações do 25 de Novembro. Quem os ouve falar fica com a ideia que tais comemorações são reprimidas ou proibidas. Não são. Em quase 50 anos nada impediu o povo português de descer ou subir uma avenida a celebrar o 25 de Novembro.
E, apesar de tanta conversa, as comemorações do 25 de Novembro continuam confinadas a locais mal frequentados, uma garrafa de champanhe numa triste mesa de tristes reaças, uma intervenção mais estridente numa convenção de fachos, um brinde numa almoçarada de saudosistas do fascismo e do império colonial.
Com a contra-revolução eles têm o dinheiro todo. Podem alugar autocarros, comboios, aviões, até táxis. Podem encher os seus jornais de anúncios. Podem imprimir bandeiras, panos, pancartas, e porque não camisas e cachecóis. Podem fazer um quadrado[fn]O quadrado é como é conhecida a cabeça da Manifestação Popular do 25 de Abril em Lisboa, que ganhou esse nome por estar colocada dentro de um quadrado feito com panos vermelhos.[/fn] cheio de gente importante: alguns deputados, muitos CEO, os patriarcas e as matriarcas das grandes famílias, mais uma selecção de personalidades tirada da última edição da Caras. Se se esforçarem, até poderão levar no quadrado algum concursante famoso.
E, no entanto, a cada ano, limitam-se a falar da vontade de comemorar o 25 de Novembro, da importância do 25 de Novembro, do papel do 25 de Novembro para a liberdade deles, para fazerem o que fazem. Porquê? Desde logo, porque sabem que no espaço mediático que controlam ninguém lhes perguntará pelas causas da não comemoração popular. Depois, e principalmente, porque estão a construir uma mitologia para as próximas gerações. Para tentarem ganhar a sua cumplicidade para com a contra-revolução. Uma mitologia onde inventam um 25 de Novembro à sua medida, usando e abusando do espaço público de que se reapossaram com a contra-revolução.
«Que contraste com a alegria, a esperança, a luminosidade com que o povo português continua a comemorar Abril. Literalmente iluminando a mais chuvosa das manhãs de Abril. Desde logo na gigantesca Manifestação Popular que desce cada ano a Avenida da Liberdade em Lisboa.»
Que contraste com a alegria, a esperança, a luminosidade com que o povo português continua a comemorar Abril. Literalmente iluminando a mais chuvosa das manhãs de Abril. Desde logo na gigantesca Manifestação Popular que desce cada ano a Avenida da Liberdade em Lisboa. Mas, por todo o País, é na rua, nas «vinhas sobredos vales socalcos searas serras atalhos veredas lezírias e praias claras» de que fala o poeta, que o povo comemora Abril. Com concertos, exposições, debates, almoços-convívio. Onde Abril é confiança no futuro, confiança no povo português, confiança em Portugal. Onde Abril é Liberdade e Democracia, e se grita «Fascismo Nunca Mais!».
Mas o que mais dói aos tristes fachos, enquanto beberricam a sua garrafa de champanhe murcho, é que nas escolas e nos jardins infantis deste País, cada Primavera, são sempre cravos de Abril que as crianças desenham. Cravos vermelhos, com o caule verde, que fazem as cores da nossa bandeira. Nunca se viu uma criança desenhar um cravo murcho.
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