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Conta Lá mete trabalhadores em layoff e com salário em atraso vira «paga lá»

Com a transmissão iniciada em Setembro de 2025, o canal Conta Lá está já a colocar trabalhadores em layoff. Numa carta enviada aos trabalhadores, o CEO Sérgio Figueiredo reconhece salários em atraso e diz que «empresa irá cooperar com quem queira desvincular-se o mais rapidamente possível». 
 

Créditos José Sena Goulão / Agência Lusa

O regresso de Sérgio Figueiredo foi noticiado no ano passado depois do imbroglio em que esteve envolvido ao ter sido contratado, por ajuste directo, pelo Ministério das Finanças tutelado por Fernando Medina, para ser consultor estratégico do mesmo. A polémica instalou-se porque o vencimento seria equiparado ao de um ministro e Sérgio Figueiredo e Fernando Medina tinham já um historial.

Quando Medina foi presidente da Câmara Municipal de Lisboa, foi contratado por Figueiredo para comentador na TVI, era este director da estação. Tempos depois, Figueiredo saiu da TVI e criou uma empresa que seria contratada pela CML de Medina para realizar uma campanha de comunicação destinada aos estabelecimentos de comércio tradicional. A campanha durou 13 dias a efectuar e custou 30 mil euros aos cofres da autarquia.

Na sequência da polémica aquando da contratação de Sérgio Figueiredo para o ministério das Finanças, o ex-director de informação da TVI desapareceu do radar público. Voltou com o canal Conta Lá, canal esse que se destacou durante as eleições autárquicas um vasto leque de debates das várias autarquias.

O projecto queria apresentar uma programação dedicada à cobertura regional, prometendo fugir à grelha dos principais canais generalistas. Ou seja, a ideia passava por criar uma plataforma que combinasse televisão, digital e eventos presenciais para dar visibilidade a temas regionais, rurais e turísticos.

A Sérgio Figueiredo juntaram-se Maurício Ribeiro, COO da produtora MauMauMia, e como investidores os empresários Luís Santos e Luís Fernandes, donos da holding New Anderthal, os accionistas de referência. É nesta última parceria que ficou evidente o modelo de negócio. A ideia passava por viabilizar o canal numa lógica híbrida, combinando parcerias com stakeholders locais, monetização de conteúdos, publicidade segmentada e subscrições.

O modelo de negócio falhou e, passado um ano, o Conta Lá está a passar por graves dificuldades, podendo ser visto como «paga lá», tendo em conta os salários em atraso e o elevado número de trabalhadores que foram colocados em layoff .

Numa carta enviada aos trabalhadores que foi partilhada pelo Sindicato dos Trabalhadores de Telecomunicações e Comunicação Audiovisual (STT), o CEO da empresa quis responder a duas questões: quando é que os trabalhadores vão receber os salários em atraso e se o projecto é sustentável. Foi, então, com a maior das facilidades que relativamente à primeira questão, Sérgio Figueiredo diz «não conseguimos responder como prometido» e sobre a segunda que «houve avanços importantes».

Na carta, Sérgio Figueiredo alega que «prioridade das prioridades continua a ser o pagamento de salários», porém «a empresa não dispôs até à data de fundos suficientes para pagar a todos». O mesmo informa que só foi possível pagar a 40 trabalhadores, sendo que os restantes poderão vir a receber até ao dia 31 de Julho. «Sei o que significa, na vida concreta de cada um, carregar este fardo que não é vosso – é um peso emocional que não me abandona», escreveu Sérgio Fernandes depois de avançar com a possibilidade de mais um mês sem vencimentos.

Depois de um longo parágrafo no qual tenta explicar o modelo de negócio, relegando para 15 de Setembro o início de uma nova fase do projecto, Sérgio Figueiredo acaba, depois por escrever: «Aqui entra o tema da reestruturação: reduzir a escala de custos é vital. Temos de voltar a ser menos, para voltarmos a ser mais. A solução que pretendemos implementar imediatamente é um processo de layoff, que é no nosso entender o que protege mais as pessoas e a empresa».

Depois de não garantir os salários em atraso, afirmar que os trabalhadores estarão mais um mês sem ver um cêntimo e prometer uma nova fase no projecto, o ex-director da TVI, com toda a leviandade, anunciou cortes salariais como algo positivo. «São várias as vantagens desta opção, sendo que a mais importante de todas é que evita a "bomba atómica" do despedimento colectivo», pode ler-se na carta dirigida aos trabalhadores.

Como se tal não fosse suficiente, o mesmo abre a porta às demissões voluntárias, o que seria um favor à empresa: «Evidentemente que, nos casos extremos de dificuldades financeiras que algumas das nossas pessoas estão a viver, a empresa irá cooperar com quem queira desvincular-se o mais rapidamente possível (em escassos dias), em busca de uma alternativa que lhe assegure fonte de rendimento imediato».

É neste sentido, após pedir aos trabalhadores que trabalhem na construção de uma nova grelha de programação, que Sérgio Figueiredo diz não ter palavras para o que sente, deixando a garantia de que «mesmo na bonança que há de vir – e há de vir – há cicatrizes que demoram a sarar. O que vos desejo, apenas, é que o que está para chegar seja suficientemente bom para valer a pena ter ficado».

A carta pode, por isso mesmo, ser encarada como um insulto. As promessas multiplicam-se, o apelo ao trabalho também, os pedidos de desculpa não existem, e os salários são uma miragem de futuro. Na prática, Sérgio Figueiredo anunciou um layoff e abriu a porta a despedimentos.

 

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