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|Análise

«Os trabalhadores do sector privado não queriam esta greve»? Fomos avaliar

Um passarinho patronal sussurrou ao ouvido da ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho, e disse-lhe que basicamente ninguém aderiu à greve geral de 3 de Junho. O AbrilAbril identificou dezenas de grandes empresas com produção parada.

Créditos Adérito Machado

Depois da chacota generalizada de que foi alvo o ministro Leitão Amaro, comparado com o ministro da Informação do Iraque que garantia que o país estava normal enquanto os Estados Unidos martirizavam a população, calhou a fava a Maria do Rosário Palma Ramalho. Em relação à greve geral de 11 de Dezembro de 2025, o ministro da Presidência meteu os pés pelas mãos para justificar que um dia que teve uma quebra económica na ordem dos 8% (dados do Banco de Portugal; apenas superados nesse ano pelo apagão, de 14,7%) era, na verdade, uma dia normal.

Em declarações proferidas às 11h30 do dia 3 de Junho, a ministra do Trabalho precaveu-se e evitou apresentar números concretos no que toca à adesão (Leitão Amaro tinha tentado o número de dizer que a adesão era de entre 0 e 10%), ainda assim foi taxativa: falou com todas as associações patronais, da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP) à Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), alegando que todos garantiram que a produção não tinha tido qualquer impacto. «Os trabalhadores do sector privado não queriam esta greve», concluiu a ministra.

Mário Jorge Machado, da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, secundou as palavras de Palma Ramalho logo de seguida, numa entrevista realizada às 12h30 na RTP Notícias: a adesão no sector é irrelevante e «a grande maioria dos trabalhadores entendeu que não faria sentido, na opinião deles, estar a aderir a esta greve». Mas falou com os trabalhadores? «Estou a intuir, não falámos com trabalhadores», assumiu. Já Gonçalo Lobo Xavier, presidente da APED, afirmou também na RTP Notícias que não tem registo de supermercados fechados no país - também neste caso faltou com os trabalhadores, teria certamente conhecimento de vários supermercados encerrados (Pingo Doce Torres Novas, Lidl Alcochete, Mercadona de Santo Tirso, Auchan de Eiras, entre outros).

As declarações da ministra contrastam com as observações de vários órgãos de comunicação social espalhados por todo o país e pelos próprios dados de adesão à greve no sector privado. Vamos aos números. Embora a Autoeuropa esteja de férias (agendadas antes da convocatória desta greve geral), podemos aferir a sua oposição ao pacote laboral pela adesão massiva aos plenários realizados na semana passada e à adesão quase total nas restantes empresas do complexo, em Palmela: a produção foi parada na Hanon e na Visteon e basicamente travada na Forvia (65%), Teijin (90%) e SMP (95%).

O sector vidreiro na Marinha Grande também foi afectado, com «paralisação total» na Gallo Vidro e na Santos Barosa e constrangimentos na BA Glass. O sector alimentar ressentiu-se com a paralisação total da produção nas unidades da Bimbo, na Knorr, na Fima/Olá, na Vitacress ou na Cerealto (Milaneza/Nacional) e forte adesão nas Carnes Nobre (70%) e na Dan Cake (67%). 

Os últimos dados dão conta de paragens na produção de empresas como a Hutchinson, a Orica Mining Services Portugal, a Mitsubishi Fuso, a Schnellecke, a Groz Beckert, a Bosch, a Euroresinas, a Exide e a Aptiv.

O que poderá ter levado a ministra ao engano é que não são os patrões, os únicos com quem falou, quem fez a greve na quarta-feira.

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