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|Bolhão

Câmara do Porto «acelera descaracterização» do emblemático Mercado do Bolhão

Comerciantes estão a abandonar o mercado após as bancas de frescos serem adjudicadas por valores que chegam aos 7550 euros mensais. CDU acusa maioria municipal de desprezar função histórica do Bolhão.

Créditos Estela Silva / Agência Lusa

Em causa estão rendas incompatíveis com a actividade de venda de produtos frescos, colocando em risco a identidade do emblemático equipamento municipal.

A hasta pública, realizada no passado dia 14 de Julho, atribuiu licenças para bancas de peixe, fruta, vegetais e plantas, com o valor mais elevado – 7550 euros mensais – a ser alcançado por uma banca de peixe com 19 metros quadrados. Uma banca de fruta foi arrematada por 6100 euros, e duas bancas de vegetais por 4800 e 3660 euros.

Ermelinda Lopes, comerciante histórica que durante anos pagou 190 euros mensais pela sua banca de peixe, viu o espaço ser adjudicado por 7550 euros e decidiu abandonar o mercado. «7500 euros por mês em peixe fresco? Onde é que eles vão fazer esse valor? Só se venderem o oceano todo», afirmou, citada pela SIC Notícias. «Isso leva-me a crer que realmente não é para peixe fresco, é impossível», denunciou.

«É legítimo concluir que este modelo favorece actividades de maior rentabilidade comercial, acelerando a substituição progressiva do comércio de frescos por espaços de restauração e consumo imediato», reage a CDU, através de comunicado.

A coligação recorda que, «desde o primeiro momento, denunciou que a estratégia seguida pela maioria municipal (PSD/CDS/IL e vereador eleito pelo PS) colocava em causa a identidade do Mercado do Bolhão, privilegiando uma lógica de rentabilização económica, orientada para o turismo e para a restauração, em detrimento da sua função histórica como mercado de abastecimento da cidade, de apoio ao comércio tradicional e de valorização da produção local».

Considera por isso que a Câmara Municipal do Porto deve rever os critérios das hastas públicas, «impedindo que as rendas especulativas inviabilizem a actividade tradicional», e garantir que a maioria das bancas continue afecta à venda de produtos frescos. A CDU exige ainda um «processo de diálogo efectivo com os comerciantes» e que seja «reafirmado o carácter público, popular e de proximidade» do Mercado do Bolhão. Também a Associação do Comércio Tradicional Bolha de Água, que representa os comerciantes, contesta o regulamento da hasta pública, afirmando que o mesmo não cumpre as regras do próprio mercado.

Recusando a perda da função pública do espaço, a coligação PCP-PEV (CDU) insiste que o Bolhão «não pode ser gerido como um centro comercial nem como um espaço de restauração destinado sobretudo ao consumo turístico». Para a coligação, o valor patrimonial, social e económico do equipamento municipal «reside precisamente na sua função de mercado de frescos, na relação de proximidade entre comerciantes e população e no apoio aos pequenos produtores».

Esta não é a primeira vez que a CDU critica o que considera ser a «gentrificação comercial» do Bolhão. Em Outubro do ano passado, a cabeça de lista da coligação à Câmara do Porto, Diana Ferreira, já defendia que deveriam «ser tomadas medidas para que haja uma aproximação» do mercado aos portuenses, para que «esteja menos dependente dos turistas».

Classificado como monumento de interesse público desde 2013, o Mercado do Bolhão reabriu em 2022 após um processo de reabilitação pela Câmara Municipal do Porto. Em Setembro de 2025, a Associação do Comércio Tradicional Bolha de Água lançou a petição «Devolver o Mercado do Bolhão ao Porto», que continua a recolher assinaturas.

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