Há um ano, a Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC) entregou ao ministro da Educação, Ciência e Inovação um caderno reivindicativo acompanhado de um pedido de reunião com o objectivo de analisar a realidade intolerável dos bolseiros no nosso país. Mais de 90% dos trabalhadores da ciência em Portugal estão em situação de precariedade, cerca de oito mil bolseiros de investigação suprem necessidades permanentes dos centros de investigação. Para além destes, e ao contrário do que muitas vezes se afirma, há muitos bolseiros, já doutorados, que continuam a trabalhar com este vínculo precário. Contribuem para o prestígio e a produção científica do nosso país, embora vivam num regime de exclusividade sem os direitos que o Código do Trabalho garante a qualquer outro trabalhador, como subsídios de férias, Natal, refeição ou desemprego.
Nos próximos dias 15 e 16 de Julho realiza-se em Lisboa a edição de 2026 do Encontro Ciência e Inovação. O objectivo oficial da iniciativa é debater «as prioridades estratégicas da nova Agência para a Investigação e Inovação (AI²)». Prioridades que, segundo a apresentação, «irão orientar o desenvolvimento do ecossistema nacional de ciência e inovação nas próximas décadas».
«São vozes de quem recusa a normalização da precariedade. De quem exige que a ciência seja valorizada, a começar pelo reforço do financiamento.»
Como as casas não se começam pelo telhado, quem faz ciência acredita que no centro das prioridades deviam estar os trabalhadores. Profissionais devidamente valorizados e com contratos de trabalho, uma necessidade reconhecida em Março pela secretária de Estado Helena Canhão, numa reunião com a ABIC, apesar da falta de compromisso, designadamente com a extinção do estatuto do bolseiro (EBI), que alimenta a precariedade e a exploração.
Os trabalhadores da ciência não baixam os braços. A partir desta sexta-feira, e ao longo das próximas semanas, trazem para o AbrilAbril intervenções feitas há um ano, no que chamaram Encontro de Dec(i)ência 2025 – iniciativa realizada em parceria com, entre outras organizações, a Federação Nacional dos Professores e a Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais. Nelas denunciam o abuso na relação entre doutorandos e supervisores, a falta de reconhecimento dos profissionais, com a transformação das bolsas num mecanismo de exploração, e a crise estrutural que atinge o sistema científico.
São vozes de quem recusa a normalização da precariedade. De quem exige que a ciência seja valorizada, a começar pelo reforço do financiamento. De quem lembra que, quando a NATO exige 5% do PIB para financiar a guerra, o dinheiro aparece, mas para a ciência, para a educação, para a cultura, «nunca há».
Um ano depois, criticam, as reivindicações continuam por cumprir. Mas a luta não pára, porque, como bem recorda André Carmo (um dos autores a publicar nos próximos dias), «só é vencido quem desiste de lutar».
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