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|Música

Mães Solteiras, a punkalhada que precisávamos porque «a gente tem que lutar»

O supergrupo Mães Solteiras lançou um novo álbum no início deste mês. Puxa-Vida é punk de actualidade que questiona «Que tem medo o patrão?», tece críticas ao individualismo, neoliberalismo e imperialismo, resgatando Zeca Afonso para o cunho antifascista do projecto. 
 

Quim Albergaria (PAUS, Bateu Matou, Vicious Five), André Henriques (Linda Martini), Pedro “Gaza” Cobrado (Besta, Men Eater, If Lucy Fell) e Ricardo Martins (Lobster, Pop Dell’Arte) são os membros de Mães Solteiras, um super-grupo que parece lançar trabalhos ao ritmo dos acordes típicos do punk.

«A ideia de uma mãe solteira é a mais punk possível: criar um filho sozinha, contra o mundo». Foi assim que, ao Expresso, André Henrique explicou o nome da banda, e desta forma é possível entender já uma noção social que está na raiz deste projecto.

Em nove meses lançaram dois álbuns e, para uma banda cujos membros têm mais de 40 anos e provas mais que dadas no panorama musical português, a fome e vontade de «partir tudo» são uma das marcas de Mães Solteiras. A atitude coaduna-se com o género musical, ou seja, o cunho é inteiramente punk, contra-sistema, crítico, inconformado, irreverente e afirmativo.

O mais recente trabalho, Puxa-Vida, foi lançado no início do mês de Outubro e continua a saga de Vamos ser Breves, lançado em Janeiro deste ano. Ao ouvir Puxa-Saco fica evidente que cada faixa advém da necessidade de dizer algo e ao ouvinte é dada aquela vontade de ir para o mosh, mesmo que esteja a ouvir o álbum no autocarro na ida para o trabalho.

O traço punk não fica por aqui. Cada grito de Albergaria é o grito de uma sociedade revoltada com a actual situação política. Na música de abertura do álbum, que também se chama Puxa-Vida, os Mães Solteiras denunciam o aumento do custo de vida e o facto de só termos boas notícias no fim do telejornal quando nasce um panda, quando é quase Natal, ou quando a Miss Mundo desejou paz mundial.

Este grito de revolta geracional, num contexto de efervescência que cria um ambiente eminentemente explosivo, fica patente em Junta, aquela música que podia ter sido a banda sonora de uma manifestação contra o pacote laboral. «Que tem medo o patrão?» é a questão colocada, numa faixa que apela à união «porquê que a gente não se junta? Amar é uma forma de luta, e a gente tem que lutar».

A crítica à ideologia do individualismo que promove a competição em detrimento da solidariedade segue-se em Eu Vou Ser Como o CEO. Já em Sala de Espera surge a crítica ao neoliberalismo responsável pela degradação do SNS com vista à privatização deste.

Também o imperialismo norte-americano é alvo da pontaria afinada de Mães Solteiras, através do processo de desencanto de um país que tanto influenciou culturalmente gerações. «Quando era puto queria ser americano», ouve-se em Branco, Azul e Sangue, seguindo-se a realização «América, sério? Merda de império», depois de um conjunto de acusações à violência perpetrada por aquele país dentro e fora de portas.

Se já não fosse evidente, o carácter antifascista do álbum surge em Era de Noite e Levaram, uma versão do tema original de José Afonso com poema de Luís de Andrade que retrata a repressão política e as detenções feitas pela PIDE durante a calada da noite. A música lançada em 1969 com o álbum Contos Velhos, Rumos Novos, é, assim, trazida para a actualidade, numa evocação histórica que nos relembra dos projectos de retrocesso que ameaçam a democracia.

Mães Solteiras são o punk que precisávamos e que sabíamos que fazia falta. 
 

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