Era um fim de tarde de verão, longo, como o são todos os fins de tarde quando o tempo não tem horizonte. Nessa época, os dias eram insuficientes para explorarmos o mundo e começávamos a estendê-los pela noite fora, caminhando pela cidade, aprendendo com o movimento e o som das coisas. O presente transformava-se em passado numa velocidade superior à que os sentidos conseguiam acompanhar e o passado também trazia novidades daquilo que não vimos ou ouvimos. Foi assim que ele me apareceu – novo. Morrera poucos anos antes, mas eu ainda não sabia nada disso. Ali, nesse fim de tarde de verão, ouvi apenas aquele momento, suspenso, em que não suspeitamos de nada, como quem caminha de mãos nos bolsos, até ele entrar num fôlego só, que se prolongou como a noite, dando outra cor à vida. Tinha 15 anos.
O jazz aparecera-me cedo na vida, nas manhãs da infância, nos desenhos animados – parafernália de sons que davam expressão aos movimentos e às emoções mais simples. Depois, no cinema: a banda sonora de um certo diletantismo cosmopolita, uma cultura urbana que se confundia entre decadência e sinais exteriores de sofisticação. Talvez o tivesse ouvido, então. Mesmo antes de eu nascer, era uma estrela mundial. Mas foi ali, naquele fim de tarde de verão, na sala aconchegante do meu amigo, que o encontrei levando-o comigo para todo o lado. Assim que tudo adormecia, ligava uma pequena e transportável aparelhagem e ficava a olhar para os prédios do meu subúrbio, onde o som me pareceu sempre mais honesto.
No verão seguinte, voltei por uns dias ao bairro da minha primeira infância. Era uma cidade muito diferente, de ritmos diferentes. As traseiras do prédio onde nasci traçavam os limites urbanos e serviam de traseiras da cidade, esbarrando com um monte. O rumor da agitação pendular não chegava ali ao alto. Entre a janela da cozinha e o monte passava a autoestrada. À noite, a música era outra. Pouco depois do jantar, sentado nessa velha marquise periférica, suburbanizada, o som das outras casas, das conversas, dos pratos e talheres que se empilham nas bancadas das cozinhas e o som dos carros em alta velocidade pela autoestrada entrava no silêncio entre cada nota soprada, dançando cúmplice com a secção rítmica e com o contratempo do piano, como a estação de rádio que, hesitante, vai captando duas frequências diferentes, mas que não se estranham.
E eu deixava-me ir, com os olhos postos no topo do monte, só para não ter de os fechar, como se os olhos abertos percebessem melhor aquela descoberta, aquela incrível descoberta de que a música eram as palavras indizíveis num mundo vivo: a paisagem e o povoamento, as canseiras desta vida, a alegria e o amor, a melancolia do povoamento na paisagem – na que transformamos e na que vai resistindo à nossa impaciência.
«Pouco depois do jantar, sentado nessa velha marquise periférica, suburbanizada, o som das outras casas, das conversas, dos pratos e talheres que se empilham nas bancadas das cozinhas e o som dos carros em alta velocidade pela autoestrada entrava no silêncio entre cada nota soprada (...).»
A relação íntima que desenvolvi com Miles Davis no longo verão do meu crescimento passou, inevitavelmente, para a rua. Acompanhava-me nos passeios pelas duas grandes cidades onde dividia a minha atenção ao mundo. Cidades diferentes, culturas diferentes, ritmos diferentes. Sozinho, parado no meio do bulício, dos prédios altos, desenhados em perspetiva para dar forma a novas avenidas, vi o que, mais tarde, perceberia que Fernando Lopes vira na cidade de Belarmino, nos rostos, nos gestos, nos costumes: a vida popular das cidades. E ali estava ele a descodificar, sem moralizar, descrevendo a intimidade da vida em cada nota, em cada deixa para Cannonball e Coltrane entrarem, em cada suspensão, como quando o vento para um momento antes da tempestade. Essa tempestade era uma ligação direta à vida, como que descobrindo músculos que desconhecemos, redescobrindo aquilo que o olhar decide ignorar: os estranhos de todas as cidades, absortos no vidro do autocarro ou nas esquinas; as pequenas marcas do tempo; a luz e a sombra. Imaginei outros universos para além do meu, como se a música fosse um convite para viajar nos outros, não como um turista, mas como um semelhante, um cúmplice, solidário.
Para além dessa voz primitiva, que nos deu o nascimento do Cool e a melancolia urbana, Miles seria, no entanto, muitas outras coisas. Num desses verões, encontraria Sketches of Spain – um diálogo com uma cultura que não era a sua, mas que era a minha. Talvez ele tivesse visto possibilidades de dizer o indizível, pegando nos seus primeiros esboços de flamenco, levando ainda mais longe a nota que se prolonga até descobrir um caminho novo. Dizem que foi em Bitches Brew, o seu disco de 1970, que Miles mudou a história do jazz. Mas é dez anos antes, em Sketches of Spain, que, mais de três décadas depois, senti um movimento diferente, como se fosse sintetizando a sua arte, como se não se prendesse à forma e avançasse destemido para o futuro. Miles Davis faria esse movimento muitas vezes. Mudaria de músicos e de estilo, rejeitaria o cânone, confrontaria o tempo.
Demoraria algum tempo para entender outros discos. Os rótulos são inimigos da possibilidade, impondo limites, restringindo a imaginação, cristalizando-nos num tempo que nem sequer é o nosso. Os meus verões também mudariam e neles entrariam outros artistas, outros sons, do passado e do presente, numa contínua novidade, entre a melancolia e a esperança, entre mim e os outros.
Nestes dias de maio, em que celebramos os 100 anos do seu nascimento, o calor invulgar relembra-me esse verão sentado naquela marquise, a ouvi-lo pela primeira vez, aproveitando essa prenda que nos deu, que é ouvir o que está nos intervalos do som e, com isso, ouvir a vida que corre cá fora. Volto, agora, a Kind of Blue para que essa memória seja ainda mais perfeita. Na rua que passa por baixo do escritório, há gente que vai passando, imersa no seu próprio mundo. Os rostos, ora alegres, ora tristes, são a história do mundo contemporâneo em movimento. É nessa gente, nesse quotidiano, que está, como se diz agora, a atualidade de Miles Davis.
O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)
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