A mobilização deste domingo foi organizada pela plataforma Stop ReArm Europe, que reúne mais de 800 organizações sociais, sindicatos e movimentos. «A coligação rejeita a ideia de que a segurança da Europa possa ser comprada através de um projecto de rearmamento massivo que suga os orçamentos sociais e intensifica os confrontos», escreveu a plataforma ao anunciar o protesto.
Em declarações ao portal BreakThrough News, Juliette Mattijsen, do Movimento pela Saúde dos Povos (PHM, na sigla em inglês), destacou as guerras em curso, o genocídio, a violência militar que afectam povos no Médio Oriente e em África. «Estes conflitos são alimentados por sistemas globais de militarização, incluindo alianças militares ocidentais, fluxos de armas e intervenções directas», disse.
«Neste momento, as instituições da União Europeia [UE] estão a direccionar os recursos públicos para a defesa, incorporando as prioridades militares em todas as áreas políticas», acrescentou Mattijsen. «Isto é reforçado pela expansão das metas de despesa da NATO, que deverão atingir 5% do PIB até 2035, e desvia recursos dos sistemas de saúde, da protecção social e da acção climática», frisou.
Este ano, o PHM Europa dedicou o Dia Mundial da Saúde a fazer campanha contra a militarização e a alertar para o modo como uma fracção do dinheiro gasto em novos caças e tanques reforça os constrangimentos sobre os serviços de saúde.
A rede destacou que, pelo preço de apenas um avião F-35, 100 mil pessoas na Alemanha poderiam ter acesso a cuidados dentários. O mesmo valor poderia cobrir o salário base de mais de 5000 enfermeiros em Espanha ou a compra de 170 máquinas PET/CT nos Países Baixos.
Aumento previsto de 100 mil milhões de euros no orçamento da defesa
«Recusamo-nos a aceitar que os jovens sejam carne para canhão e os idosos sejam apenas rubricas orçamentais», comentou Peter Mertens, secretário-geral do Partido do Trabalho da Bélgica (PTB-PVDA), durante o protesto. «Recusamos um futuro que consiste em mais armas e mais guerras, financiadas por dias de trabalho mais longos, menos cuidados de saúde e contas mais elevadas», disse.
Na manifestação, os participantes exigiram que, em vez de destinar mais fundos ao armamento, a UE e os governos europeus invistam no bem-estar social, incluindo a saúde, a educação e a habitação.
Esta reivindicação tem em conta a próxima reunião do Conselho Europeu, marcada para os dias 18 e 19, e cuja agenda inclui o novo orçamento de sete anos da UE. A Stop ReArm Europe alerta que este orçamento está a ser moldado para canalizar dezenas de milhares de milhões de euros para a indústria do armamento.
Entre outras coisas, o orçamento visa aumentar o montante destinado à defesa, segurança e espaço no âmbito do Fundo Europeu de Competitividade para 131 mil milhões de euros. «O salto para 131 mil milhões de euros representa um acréscimo líquido de pelo menos 100 mil milhões de euros ao longo de sete anos no actual montante destinado à defesa e ao espaço», afirmou a Stop ReArm Europe.
«Esta verba poderia, em vez disso, financiar os salários de cerca de 300 mil enfermeiros ou construir aproximadamente meio milhão de habitações sociais – um quarto do défice de 2,25 milhões de unidades habitacionais que o Banco Europeu de Investimento identificou apenas para 2025», acrescentou.
Alimentar as guerras e os lucros da indústria da guerra
As organizações que coordenaram o protesto de domingo alertaram que os programas de investigação europeus poderão ser abertos à utilização militar, introduzindo, na prática, a indústria armamentista em todos os aspectos da vida.
A plataforma alertou que «a Europa está a embarcar numa economia de guerra permanente que aprofunda os conflitos em vez de os resolver, irá alimentar ainda mais uma corrida armamentista global e incorporar cada vez mais a militarização na vida quotidiana».
Tanto em Bruxelas como em acções descentralizadas, noutras cidades europeias, denunciou-se a militarização dos centros de ensino. Em Helsínquia, a rede Antimilitaristas da Classe Trabalhadora sublinhou que existe «uma transferência de riqueza da vida para a destruição».
«Também atinge a geração seguinte. Um rearmamento da Europa exige soldados. Os jovens são chamados a lutar e a morrer em guerras que não escolheram. Isto deixa também uma dívida ainda maior para as gerações futuras», declarou a organização antes de uma iniciativa na capital finlandesa.
Por seu lado, Katerina Anastasiou, da Stop ReArm Europe destacou que «o rearmamento é vendido como segurança, mas a única coisa que realmente garante são os lucros das indústrias de armamento».
«Uma sociedade com hospitais em ruínas e um clima instável não é segura. Gastar milhares de milhões em armas enquanto se negligencia a saúde, a educação e a coesão social torna a Europa mais pobre e perigosa, não mais segura», acrescentou.
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