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|Síria

A vitória maior da al-Qaeda

Tudo o que Guterres diga agora, desde que legitimou a vitória da al-Qaeda em Damasco, reduz a pó as suas proclamações e faz dele mais um profeta de falsas promessas.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, é recebido pelo presidente sírio Ahmed al-Shar’a, antigo representante da al-Qaeda no país (sob o nome de al-Jolani). Damasco, Síria, 25 de Julho de 2026 

Créditos Mohammed Al-Rifai / EPA

O secretário-geral da ONU, António Guterres, visitou Damasco no desempenho do cargo e avistou-se com o “presidente interino” da Síria, chamado Ahmed al-Sharaa depois de, durante toda a vida, ter sido conhecido por Abu Mohammed Jolani. Apesar de ter recorrido, durante a visita, às habilidades semânticas em que é reconhecido mestre desde o desempenho das funções de secretário-geral do PS português e primeiro-ministro de Portugal, Guterres cavou ainda mais fundo a sepultura da ONU, quando parecia que tal já não seria possível.

Ao percorrer a sua “estrada de Damasco”, e ao contrário do seu antecessor de há dois mil anos, Saulo de Tarso (depois São Paulo), António Guterres, felizmente, não chegou cego à capital síria. Também não deve ser responsabilizado directamente pelas perseguições de cristãos que se tornaram um lugar comum no país; no entanto, foi confraternizar com o autor desses massacres o que, para quem é conhecido como homem de fé cristã, não parece muito ortodoxo.

Neste mundo sobre o qual Guterres reina nominalmente, a rogo das vontades do império, as ortodoxias e os dogmas estão, porém, sujeitos a sofrer constantes mutações, das quais são vítimas alguns conceitos fundamentais em desuso acelerado como direitos humanos, liberdade e democracia. As armas aplicadas nesse processo de invalidação funcionam segundo pretextos que pretendem justificar a própria defesa sangrenta de tais conceitos. O secretário-geral da ONU foi a Damasco abençoar este comportamento degenerado, fazendo da organização a principal cúmplice da tragédia.

Uma farsa de “moderados”

Ahmed al-Sharaa veste fatos de marca, usa barba e cabelos com requintes visuais ocidentais proporcionados por algum estilista de renome. No entanto, chegou a “presidente interino” da Síria quando dizia chamar-se Abu Mohammed Jolani e usava a indubitável imagem de um terrorista da al-Qaeda. A sua caminhada e a dos bandos sanguinários por ele conduzidos deixou um rasto de morte e destruição graças ao apoio estratégico e operacional de uma nada discreta panóplia de recursos e “coligação de vontades” ocidentais – leia-se Estados Unidos, NATO e União Europeia –, que se prolongou por mais de 11 anos e teve como objectivo desmantelar a República Árabe Síria, nação considerada a mais antiga do mundo.

A chegada vitoriosa de Jolani a Damasco, à frente do grupo terrorista Hayat Tharir al-Sham (Organização para a Libertação do Levante), representou a maior vitória de sempre da al-Qaeda, como instrumento do expansionismo ocidental, em 40 anos de existência. O grupo nasceu no Afeganistão durante os anos oitenta do século passado, fundado pela CIA, o MI6 britânico e os serviços secretos da Arábia Saudita e do Paquistão, no quadro dos esforços para expulsar as tropas soviéticas daquele país. O principal fundador foi Osama bin-Laden, membro da família real da Arábia Saudita e multimilionário da construção.

«Depois da eclosão da al-Qaeda, as máscaras assumidas pelo terrorismo “islâmico” foram muitas, conforme os países, as regiões e as condições mais propícias dos pontos de vista operacional, propagandístico e até “diplomático”.»

A partir daí, as narrativas oficiais e mediáticas do Ocidente sobre as actividades de tal organização tornaram-se deliberadamente confusas, difusas e manipuladas perante a opinião pública, para esconder o real papel da al-Qaeda e do terrorismo de fachada “islâmica” como braço operacional mais ou menos clandestino da NATO, Pentágono e União Europeia. A sua utilização percorre todas as guerras na Eurásia, Magrebe e África Central promovidas por estas entidades e que, em quatro décadas, provocaram milhões de mortos e refugiados através de todas as citadas regiões.

Depois da eclosão da al-Qaeda, as máscaras assumidas pelo terrorismo “islâmico” foram muitas, conforme os países, as regiões e as condições mais propícias dos pontos de vista operacional, propagandístico e até “diplomático”.

Um desses disfarces mais conseguidos foi o dos grupos fundamentalistas islâmicos “moderados”, uma nuvem de designações através das quais eram (e são) canalizados os apoios financeiros e militares das principais potências ocidentais. A mentora principal da ideia foi a senhora Hillary Clinton quando era secretária de Estado da administração Obama. Mesmo que, na prática, alguns desses grupos existissem no terreno, a sua actividade era inconsequente: os verdadeiros executores directos da agressão externa foram a al-Qaeda e respectivos heterónimos de circunstância.

O Hayat Tharir al-Sham foi um desses grupos “moderados” na Síria. A designação foi adoptada em 2016 para substituir a chancela al-Nusra, braço da al-Qaeda na Síria, e simular uma ruptura de Mohammed Jolani em relação ao grupo fundado por Bin Laden.

Não foi essa a primeira simulação de uma mudança nominal das organizações do actual “presidente interino” da Síria, de modo a assumirem uma imagem mais conveniente aos seus patronos ocidentais. Na carreira como chefe e operacional terrorista, Jolani foi dirigente da al-Qaeda no Iraque, depois do próprio ISIS ou “Estado Islâmico” no Iraque, conhecido pelas bárbaros liquidações em massa através do país e também por algumas decapitações selectivas de figuras ocidentais, encenadas ou não, cujas imagens correram mundo e revoltaram a opinião pública.

Do ISIS, Jolani transferiu-se para a Síria, onde o seu movimento passou a designar-se Frente al-Nusra, braço da al-Qaeda no país, antes de derivar para Hayat Tharir al-Sham.

Jolani, como se percebe, tem uma longa e bem posicionada carreira de dirigente operacional terrorista ao serviço das guerras imperiais no Médio Oriente.

É impossível que António Guterres desconhecesse o credenciado currículo do “presidente interino” da Síria – ignorando-se a extensão da interinidade – ao estender-lhe a mão no palácio presidencial de Damasco. Um gesto realizado quando estão em curso massacres de minorias étnicas e religiosas, por exemplo cristãos e alauitas, em toda a Síria. País no qual continua em curso um processo de desagregação territorial, objectivo definido pelo regime norte-americano a seguir ao ainda e sempre mal explicado atentado em Nova Iorque no dia 11 de Setembro de 2001.

«É impossível que António Guterres desconhecesse o credenciado currículo do “presidente interino” da Síria – ignorando-se a extensão da interinidade – ao estender-lhe a mão no palácio presidencial de Damasco. Um gesto realizado quando estão em curso massacres de minorias étnicas e religiosas, por exemplo cristãos e alauitas, em toda a Síria.»

Durante o encontro em Damasco, o secretário-geral proferiu votos de paz e estabilidade para “o povo sírio” e manifestou apoio à soberania e à integridade da Síria.

Vindos de quem vem, não há votos mais piedosos e irrealistas, deitando por terra os talentos de Guterres para a ginástica semântica. No interior do povo sírio incentivaram-se e reacenderam-se, por obra e graça da guerra imposta do estrangeiro, velhas fronteiras e ódios de raiz étnica, religiosa e cultural apaziguados durante séculos. A guerra de desmembramento do país transmutou até à actualidade um riquíssimo mosaico civilizacional cuja união na heterogeneidade foi o principal alicerce da grandeza e soberania sírias; e que agora é explorado (a exemplo da Jugoslávia e outros casos) como motor da desagregação das suas soberania, cultura mundividente e antiquíssimas tradições.

A operação de destruição do grande país foi organizada pelos poderes ocidentais, mas tem o regime genocida de Israel como um dos principais beneficiários. Desmantelar a Síria foi, desde sempre, um dos objectivos de Israel, tendo em conta que era o seu principal obstáculo militar ao massacre do povo palestiniano e à estratégia da expansão política e territorial sionista no Médio Oriente.

Ahmed al-Sharaa, o “presidente interino” sírio, é, por razões objectivas, um aliado potencial de Benjamin Netanyahu e do sionismo. Durante a guerra de agressão contra a Síria, membros dos grupos terroristas feridos em combate, designadamente da al-Qaeda e do ISIS, eram evacuados para os Montes Golã ocupados e depois tratados em hospitais no interior de Israel. Netanyahu deixou-se fotografar enquanto visitava alguns destes terroristas recolhidos em hospitais sionistas, um sinal político assumido da coincidência de interesses entre Israel e os ”islamitas”.

Ahmed al-Sharaa tenta aparentar uma distância estratégica em relação ao regime sionista, mas as tropas israelitas vão avançando pelo interior do território sírio, para além dos Montes Golã, estabelecendo bases de ocupação cada vez mais internas, apesar dos “protestos” internacionais e da própria ONU. Aos quais responde o governo israelita com a afirmação peremptória de que as suas tropas não irão sair dos territórios sírios onde se instalem. 

Estes desenvolvimentos demonstram que o processo de construção do Grande Israel está em marcha no exterior da Palestina, e logo no território do ex-maior inimigo de Israel. Que deixou de o ser graças ao trunfo do terrorismo da al-Qaeda jogado pelo Ocidente, que não hesitou em sacrificar centenas de milhares de pessoas e deixar um imenso território em ruínas.

António Guterres, secretário-geral da ONU, sabe tudo isto. Pelo que não será abusivo inferir deste cenário a falta de credibilidade das suas frequentes e “bem intencionadas” declarações em defesa do povo palestiniano.

Ao apertar a mão de Ahmed al-Sharaa ou Jolani e vice-versa, reconhecendo, na prática, a sua legitimidade como “presidente” da Síria, o secretário geral da ONU não se limitou a destruir ainda mais o prestígio e o papel da organização. Deu legitimidade a um regime implantado pela al-Qaeda através de um pacote completo de violação dos direitos humanos, da democracia, da paz e também da lei e do direito internacional; traiu e deixou ainda mais isolado o povo palestiniano, que tanto diz defender; e fez um favor, com custos humanos e legais incalculáveis, a Trump e Netanyahu.

«Tudo o que Guterres diga agora, desde que legitimou a vitória da al-Qaeda em Damasco, reduz a pó as suas proclamações e faz dele mais um profeta de falsas promessas.»

Ao legitimar a maior vitória de sempre da al-Qaeda, o secretário geral da ONU deixou o presidente dos Estados Unidos, o primeiro-ministro de Israel e a subserviente elite dirigente da União Europeia, da qual inegavelmente faz parte, com as mãos livres para continuarem a apostar no terrorismo, na invalidação do direito internacional, na guerra, no expansionismo e até na limpeza étnica da Faixa de Gaza e construção de um repugnante resort milionário. Em suma, a paz de Guterres é a do Conselho da Paz de Trump.

Tudo o que Guterres diga agora, desde que legitimou a vitória da al-Qaeda em Damasco, reduz a pó as suas proclamações e faz dele mais um profeta de falsas promessas. Os lamentos e a aparente revolta em relação ao dramático destino do povo palestiniano são expressões cruéis e impiedosas de hipocrisia.

Na verdade, este gesto catastrófico do secretário-geral da ONU, pelo cargo que envolve, é o maior dos atentados contra o direito internacional, uma vez que foi praticado em nome da organização que é sua depositária, defensora e representante.  

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