No sua opinião semanal na revista Sábado, José Pacheco Pereira, ao sublinhar aquilo a que chama de «asneiras da CGTP», parece ainda não ter percebido o que aconteceu em relação ao chumbo do pacote laboral ao escrever que «no actual contexto, fazer greve apenas para dar uma imagem de força da CGTP é um erro colossal como aconteceu no dia 3. Diminui a mobilização, escolhe-se um calendário absurdo, afastam-se todas as forças que permitem dar dimensão à greve, como a UGT, por aí adiante. Ao fazer um ensaio de greve geral numa altura em que se presumia não ir haver um acordo no pacote laboral, foi um desperdício».
Ora bem, o voto contra o pacote laboral por parte do Chega é, exactamente, o reflexo da força e da determinação dos trabalhadores, nomeadamente nas greves gerais de 11 de Dezembro e de 3 de Junho, para além das manifestações como a de 18 de Junho junto à Assembleia da República, sob um calor tórrido. André Ventura, no seu projecto de longo prazo, não quis perder o pé em relação a uma parte da sua base de apoio eleitoral, e, sem nada para apresentar (Luís Montenegro não cedeu nada na idade da reforma), acabou por votar contra a proposta do Governo.
Pacheco Pereira acrescenta ainda no seu escrito que «agora, que parece haver um acordo com o Chega, é que era preciso haver uma greve geral, a UGT dificilmente poderia pôr-se à parte, e a ameaça iminente de passar a legislação seria o principal factor de mobilização». O cronista e comentador político quer fazer-nos acreditar, tal como a UGT, que depois do pacote laboral ser aprovado é que se devia lutar e convocar uma nova greve geral. Isto é, como diz o povo, «depois de casa roubada trancas à porta».
A ideia peregrina de que os trabalhadores não deviam ter agido, mas apenas reagido à aprovação do pacote laboral, é tão absurda como a ameaça de greve geral feita pela UGT. Considerando que tal ameaça, e só isso, foi feita no dia 18 de Junho, quando tencionava aquela central sindical decidir-se a convocar a greve geral e para quando? Por este andar lá para finais de Julho ou Agosto, no pico de férias...
Não tivessem a CGTP e os trabalhadores agido, numa acção com forte impacto, e André Ventura não teria sido obrigado a votar contra o pacote laboral, mesmo quando nas suas propostas convergem, no essencial, com os ataques do Governo aos trabalhadores.
De facto, como a história ensina, há momentos em que o melhor era mesmo ficar calado.
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