Se é uma pessoa paciente, e consegue aguentar uma hora do mais desavergonhado auto-elogio, recomendo que vejam a conferência de imprensa de Pinto Luz e da Vinci do passado dia 22 de Julho. A sério. E depois digam, NO CONCRETO, o que mudou nos últimos seis meses. Passámos do PowerPoint ao vídeo, a ANA/Vinci entregou o quarto dos sete relatórios que «o processo» implica, e a conclusão da obra derrapou mais uns dois anos (a Vinci já fala «em 2037/2039», ou seja, 2039) e o Governo fala em 2035 («vai tentar antecipar para 2035»... antecipar para depois do que estava previsto há seis meses quando o Governo falava em 2034! É a novilíngua.)
É que a única coisa nova na conferência de imprensa de ontem é essa confirmação: a promessa de NAL passou de 2034 para 2035, com a ANA/Vinci a dizer 2039. E com este espectacular avanço para trás temos o ministro Pinto Luz, messiânico, de braços abertos, a deixar para a posteridade um «Sonhámos durante 50 anos com um novo aeroporto e hoje estamos a cumpri-lo».
E oiçam bem, na dita conferência de imprensa, a descrição de todos os passos «necessários» deste «processo» cozinhado no momento da privatização da ANA, e percebam a absoluta estupidez de tudo isto. Até 2028 iremos ter mais três relatórios e uma nova avaliação do impacto ambiental (sim, porque já houve uma avaliação que caducou) que irá despoletar novas discussões que veremos que entraves colocarão. Ou seja, teremos mais três ou quatro conferências de imprensa messiânicas, e mesmo que tudo corra no melhor dos sentidos, em 2028 será então público quem e como vai pagar o aeroporto. E se não houver acordo, vai tudo para o lixo – projecto, avaliações, relatórios, etc. – e o processo do NAL começa todo do princípio (se o Estado resgatar a concessão) ou é cancelado!
Isto só faz sentido porque a ANA/Vinci não quer sair da Portela tão cedo, o Governo é cúmplice mas quer fingir que está a construir o NAL e ambos estão interessados no arrastar do «processo» e em preparar o terreno para tornar público o acordo que já negociaram. Em 2028 ou 2029 chegará o momento em que perante «o acordo» seremos obrigados a denunciar os contornos da negociata que está cozinhada (provavelmente uma nova e massiva transferência de fundos públicos para a Vinci), e nessa altura a chantagem surgirá: é assim ou não há aeroporto! Tal como os improvisos, as melhores inevitabilidades são laboriosamente preparadas.
«Isto só faz sentido porque a ANA/Vinci não quer sair da Portela tão cedo, o Governo é cúmplice mas quer fingir que está a construir o NAL e ambos estão interessados no arrastar do «processo» e em preparar o terreno para tornar público o acordo que já negociaram.»
É nessa preparação das massas que surge a questão do preço. Já se anunciam 9 mil milhões sem contar o custo da auto-estrada, da ponte e das ligações ferroviárias! Mais do dobro do que foi previsto há dois anos pela CTI [Comissão Técnica Independente]. Mas quem diz que são 9 mil milhões? A Vinci! Claro que este exagerado volume é uma forma de preparação para o «futuro acordo». Acordo que deixará intocáveis os 600 milhões de euros anuais que a Vinci quer continuar a enviar para os seus accionistas todos os anos e entregará ainda mais recursos nacionais à Vinci.
Para se ter uma ideia do exagero, o Aeroporto de Istambul, para 200 milhões de passageiros, o maior do mundo quando estiver concluído, tem uma estimativa de custo final de 12 mil milhões de euros para as suas quatro fases, incluindo toda a infra-estrutura de acessos. O NAL, para um quarto dos passageiros, custaria ainda mais!
De resto, voltaram a massacrar-nos com a promessa de que o aeroporto terá «shuttles de 20 em 20 minutos», «comboios normais de 15 em 15 minutos» e «intercidades para todo o país», mas nem mandaram comprar os comboios necessários, nem estão a construir a ponte por onde têm de passar estes comboios, nem alteraram o Plano Ferroviário Nacional, nem assumem a necessária alteração ao projecto da LAV Porto-Lisboa para esta entrar em Lisboa pela TTT passando no aeroporto. Nada. Não estão a fazer nada! E se só em 2028 ou 2029 concretizarem essas medidas, o aeroporto só poderá ser uma realidade lá para 2040...
Recuperar urgentemente o controlo público da ANA afirma-se cada vez mais como a única solução que permite encurtar estes tempos, e ao mesmo tempo, garantir os recursos necessários (que estão, como sempre estiveram, nas receitas da ANA) para a construção do NAL, e também, importa não esquecer, para retirar o AHD do centro da cidade de Lisboa. Pagar, se necessário, à Vinci os 1,2 mil milhões que ela pagou pela ANA e assim resgatar a ANA, é cada vez mais uma opção perante o assalto que está em curso.
Por fim, uma nota sobre o auto-elogio do CEO da ANA/Vinci: «Não há um projecto tão grande neste momento na Europa ocidental.» O que é verdade. Principalmente porque enquanto continuamos com o Novo Aeroporto de Lisboa em projecto, o resto da Europa Ocidental, da Europa e do mundo já construiu ou já está a construir os grandes aeroportos de que necessita.
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