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|Análise

O «lado B» da Revolução (3.ª parte)

Os vestígios da rede paramilitar no Governo

É claro que não foi uma única operação da CIA que decidiu o 25 de Novembro. Ao invés, Washington construiu um ambiente estratégico que permitiu o desenlace dos eventos.

Créditos Inácio Ludgero

As tentativas sistemáticas de enfraquecimento do PCP na região Norte, os financiamentos aos moderados (PS/PPD/CDS) e o cerco ao Comando Operacional do Continente (COPCON) levaram o país à beira da guerra civil. Mais de 100 ataques do MDLP/ELP e do Movimento Maria da Fonte contra sedes do PCP, do MDP/CDE e da UDP, sobretudo no Norte, submeteram o país a uma onda de medo.

Nos dias que sucederam ao 25 de Novembro, PS, PPD e CDS transferem as suas sedes para o Porto, sob a protecção do comandante da Região Militar do Norte, o brigadeiro Pires Veloso, o que só simboliza como a região se tinha tornado, durante o Verão Quente, na rectaguarda segura dos moderados e da contra-revolução. 

Padrões 

O ambiente estratégico não foi único ao caso Português. Mais tarde, este ambiente seria apelidado de «estratégia de tensão», referindo-se ao fomento do medo e do caos de modo a desestabilizar o equilíbrio já pré-estabelecido, neste caso, os valores de Abril. O MDLP e o ELP agiram como a versão portuguesa da Operação Gladio, a rede stay-behind italiana durante os Anos do Chumbo. Em todos os casos, o modelo era o mesmo: a construção de uma fachada democrática enquanto a violência se espalhava na periferia, establecendo uma atmosfera de guerra civil silenciada. 

Onde estão hoje? 

Contudo, o que distingue o caso português é que esta rede nunca desapareceu totalmente. Inversamente, reapareceu nos lugares mais visíveis do poder democrático que ajudou, à sua maneira, a moldar. 

Diogo Pacheco de Amorim fez parte do gabinete político do MDLP a partir do seu exílio em Madrid. A mesma organização responsável por dezenas de atentados à bomba a movimentos democráticos. A mesma organização que resultou na morte de vários inocentes, nomeadamente a do Padre Max e da estudante Maria de Lurdes a 2 de Abril de 1976. Actualmente, assume o segundo cargo mais alto do parlamento, o de vice-presidente da Assembleia da República, assim como o de deputado à Assembleia da República e adjunto da direcção nacional [do Chega] como coordenador do Departamento das Relações Internacionais e Comunidades. 

«O que distingue o caso português é que esta rede nunca desapareceu totalmente. Inversamente, reapareceu nos lugares mais visíveis do poder democrático que ajudou, à sua maneira, a moldar.»

Por outro lado, José Miguel Júdice integrou o departamento político do Comité Superior do MDLP, ao lado de figuras como José Valle Figueiredo, Luís Sá Cunha e António Marques Bessa, numa estrutura concebida por Alpoim Calvão sob o comando de Spínola. Meio século mais tarde, é a sua filha, Rita Alarcão Júdice, quem ocupa desde Março de 2024 a pasta da Justiça no Governo de Luís Montenegro. O que a história regista é uma coincidência estrutural, isto é, o mesmo Estado que a rede tentou silenciar em 1975 acabou, décadas depois, por ser chefiado por uma geração de famílias que a integram. 

O «lado B» de Abril é este: não é uma revolução escrita por Washington, mas é uma democracia que nunca ajustou contas com quem tentou impedir o seu nascimento. Não houve julgamento pelas mortes, nem pelos mais de 100 ataques do Verão Quente, nem pelos milhões que a Internacional Socialista disfarçou de solidariedade europeia.

Houve, em vez disso, um Estado que acabou por absorver os seus próprios inimigos – e que, meio século depois de Kissinger perguntar a Ford se avançava «quer isso venha a público ou não», continua a dar-lhes altos cargos no Governo.

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