Há qualquer coisa de profundamente irónico no entusiasmo com que se fala de inteligência artificial (IA) nas escolas. De repente, parece que descobrimos uma espécie de varinha mágica capaz de resolver problemas que há anos não conseguimos resolver: falta de professores, excesso de burocracia, turmas demasiado grandes, trabalho administrativo que se multiplica, alunos com dificuldades cada vez mais diversas. A máquina chegou e, com ela, chegou também a promessa de que talvez seja possível fazer mais com menos.
Só que há uma pergunta incómoda que convém fazer: mais com menos de quê?
A inteligência artificial entrou nas escolas muito mais depressa do que entrou a reflexão sobre aquilo que queremos que seja a escola. Os professores começaram a experimentar ferramentas, a procurar respostas, a descobrir possibilidades e a enfrentar problemas. Fizeram-no, em grande medida, por iniciativa própria, porque a tecnologia avançou mais depressa do que as políticas públicas, a regulamentação e a formação.
Não há, evidentemente, nenhuma razão para recusar a tecnologia. A inteligência artificial pode ser útil. Pode ajudar a preparar materiais, apoiar determinadas tarefas, reduzir trabalho burocrático e libertar tempo para aquilo que verdadeiramente importa. O problema começa quando aquilo que deveria ser uma ferramenta passa a ditar a forma como trabalhamos.
E essa fronteira é mais perigosa do que parece.
Porque a inteligência artificial não é neutra. Os sistemas que usamos foram desenvolvidos por empresas, obedecem a determinados modelos, recolhem dados e funcionam segundo algoritmos que a maioria dos utilizadores desconhece. Quando entram na escola, não entram apenas ferramentas. Entram também interesses económicos, modelos de negócio e formas particulares de olhar para a educação.
É por isso que a discussão sobre IA não pode reduzir-se à pergunta: “Como podemos usar isto?”
É preciso perguntar também: quem desenvolveu isto? Com que objetivos? Que dados recolhe? Quem controla esses dados? Quem define os critérios? Quem beneficia economicamente? E quem responde quando a máquina erra?
Os professores conhecem bem o problema do erro. Sabem que uma resposta produzida por inteligência artificial pode parecer absolutamente convincente e, ainda assim, estar errada. Sabem também que os sistemas podem reproduzir preconceitos e apresentar informação falsa com a segurança de quem nunca duvida de si próprio.
Ora, talvez seja precisamente aqui que a escola tenha uma das suas tarefas mais importantes no futuro: ensinar a desconfiar.
Não a desconfiar da tecnologia por princípio, mas a desconfiar daquilo que se apresenta como verdade apenas porque foi produzido por uma máquina. Ensinar a verificar, comparar, questionar, procurar fontes, identificar interesses. Ensinar, enfim, a pensar.
Porque uma escola que entrega aos alunos respostas prontas pode produzir utilizadores muito eficientes de tecnologia e cidadãos extraordinariamente frágeis. Há depois uma outra questão, talvez ainda mais próxima dos professores: quem controla quem?
«Quase todas as tecnologias chegam acompanhadas da promessa de que vão simplificar o trabalho. Muitas acabam, paradoxalmente, por acrescentar novas exigências. O problema nunca foi apenas a quantidade de tecnologia. É a forma como ela é integrada na organização do trabalho.»
A IA pode ajudar a aliviar o trabalho docente. Mas também pode ser utilizada para o intensificar. Pode gerar novas tarefas, aumentar a vigilância, criar mecanismos automatizados de monitorização e avaliação ou introduzir novas formas de controlo sobre o desempenho profissional.
E aqui a história repete-se. Quase todas as tecnologias chegam acompanhadas da promessa de que vão simplificar o trabalho. Muitas acabam, paradoxalmente, por acrescentar novas exigências. O problema nunca foi apenas a quantidade de tecnologia. É a forma como ela é integrada na organização do trabalho.
Se uma ferramenta poupa tempo ao professor para que este possa estar mais tempo com os alunos, é uma coisa.
Se uma ferramenta serve para exigir ao professor que produza mais, registe mais, responda mais depressa e seja permanentemente avaliado por sistemas automáticos, é outra completamente diferente.
No fundo, talvez a verdadeira questão seja saber se queremos tecnologia para servir a escola ou uma escola progressivamente organizada para servir a tecnologia.
E há ainda uma dimensão que não pode ser esquecida: a relação entre professor e aluno.
Ensinar não é transmitir informação. Se fosse, talvez uma máquina pudesse fazer o trabalho bastante bem. Ensinar é conhecer quem está diante de nós, perceber uma dificuldade que não aparece num teste, reconhecer um silêncio, adaptar uma explicação, incentivar quem desistiu, contrariar quem se acomodou, estabelecer uma relação de confiança. É uma atividade humana, feita por profissionais do humano.
É significativo que a Fenprof/CGTP-IN tenha apresentado, em 2025, na Conferência Intergovernamental da UNESCO sobre a profissão docente, a proposta de reconhecimento da relação professor-aluno como património imaterial da humanidade. A formulação é poderosa porque lembra uma coisa aparentemente simples e que, no entusiasmo tecnológico, corremos o risco de esquecer: a relação professor-aluno é um património construído pela humanidade ao longo dos tempos e das culturas.
Talvez seja essa a melhor resposta a quem pergunta se a inteligência artificial poderá substituir os professores.
Pode substituir algumas tarefas. Pode produzir textos, exercícios, imagens, sínteses e respostas. Pode ajudar a organizar informação. Pode até, em determinadas circunstâncias, fazer coisas que um professor demoraria muito mais tempo a fazer.
Mas não pode substituir aquilo que não é uma tarefa.
A relação.
E talvez seja precisamente por isso que a discussão sobre inteligência artificial seja, no fundo, uma discussão sobre democracia.
Quando uma pequena quantidade de grandes empresas concentra uma capacidade extraordinária de produzir e distribuir informação, influenciar comportamentos e moldar a opinião pública, a questão deixa de ser meramente tecnológica. Passa a ser política. E quando se acrescentam os impactos ambientais de sistemas que exigem enormes quantidades de energia e água, percebemos que também não estamos perante uma simples inovação sem consequências.
A escola pública terá, por isso, uma responsabilidade acrescida. Não deverá ensinar apenas a utilizar inteligência artificial. Deverá ensinar a compreendê-la. A compreender quem a controla, quem lucra com ela, que riscos comporta, que direitos estão em causa e que sociedade queremos construir com a tecnologia que temos à nossa disposição.
Porque a pergunta mais importante não é se as máquinas serão suficientemente inteligentes para substituir as pessoas.
É saber se as pessoas continuarão suficientemente livres, críticas e conscientes para decidir o que querem que as máquinas façam.
E, numa escola, isso começa por uma coisa que nenhuma inteligência artificial deveria substituir: um professor diante de um aluno, dois seres humanos envolvidos na difícil, imperfeita e extraordinária tarefa de aprender e ensinar.
Contribui para uma boa ideia
Desde há vários anos, o AbrilAbril assume diariamente o seu compromisso com a verdade, a justiça social, a solidariedade e a paz.
O teu contributo vem reforçar o nosso projecto e consolidar a nossa presença.
Contribui aqui