A cartografia geológica do país está por terminar há décadas, com cerca de um terço do país por cartografar devidamente, não colocando sequer aqui a necessidade de uma revisão profunda da cartografia efetuada há mais de 50 anos e, portanto, desatualizada, em resultado da evolução do conhecimento científico.
O país não conhece os seus recursos minerais ou energéticos, nem sequer enquanto reserva estratégica. Podem falar de economia, da investigação aplicada, ou de investigação competitiva, mas não é mais do que uma desculpa, ora vejam: mesmo representando o setor da economia mineral cerca de 2% do PIB direto, e sendo responsável pela coesão territorial e social em territórios de baixa densidade populacional, nomeadamente no Alentejo, o setor da investigação científica e desenvolvimento tecnológico na área da geologia é alvo de tanta precariedade e alienação como todas as outras.
Os institutos e laboratórios do Estado estão fortemente subfinanciados e com falta de recursos humanos. As unidades de investigação tiveram cortes brutais no seu financiamento, apontando a necessidade de captar mais financiamento «competitivo». A lógica do trabalhador precário por décadas mantém-se como pedra de toque para o avanço do conhecimento. Eu não lhe chamo competitividade; chamo precariedade!
«Os institutos e laboratórios do Estado estão fortemente subfinanciados e com falta de recursos humanos.»
Na verdade, a precariedade regista-se das mais diversas formas, da falta de contratos, à falta de investimento na ciência, até à falta de estabilidade pessoal e profissional de todos os investigadores.
E vamos ao meu caso pessoal, que não é mais que o decalque de tantos outros investigadores e geólogos por este país fora. Entre bolsas de gestão de ciência, de doutoramento e de pós-doc em projetos, a recibos verdes por mais do que um momento, contratos de investigador a termo e até de professor convidado: todos contratos precários! São anos, na verdade, quase duas décadas de precariedade. Esta precariedade que coloca em causa toda uma geração de cientistas e até da ciência produzida em Portugal.
Ali dentro, ignorando o que se passa aqui fora, estão vários dos responsáveis por décadas de desinvestimento na ciência e é por isso que aqui estamos, para chamar a nós aquilo que nos pertence. O respeito e a decência pela ciência e por todos os que a produzem.
Texto lido no dia 9 de Julho de 2025, na concentração «Em Defesa da Ciência Pública e pelo Fim da Precariedade na Ciência», realizada em frente à Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA SBE), em Carcavelos, onde decorreu o Encontro Ciência 2025.
O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)
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