Portugal estava atrasado e, portanto, apareceu aí a importância de atingir os 3% do PB em investimento no setor. E a verdade é que, desde então, praticamente todos os governos foram prometendo os 3% de formas diferentes e cada vez com mais criatividade. Eles desapareceram na altura do período da Troika, mas rapidamente voltaram sem nunca, na verdade, alguém os ter implementado.
Das últimas vezes que o Partido Socialista foi governo, durante a pandemia, depois mais tarde na maioria absoluta, já prometeram os 3%, mas em que 2% desses 3% eram de investimento privado. Ora, na verdade, o que na altura já estava a ser prometido era que havia um corte na Ciência, porque nós já estávamos um bocadinho acima dos 1%. E, portanto, na verdade, os 3% para a Ciência foram transformados num mantra de praticamente todos os governos, do PS e do PSD, para dizer: «Bem, nós estamos muito preocupados com isso, mas, na verdade…». Muito rapidamente bastou a indústria da guerra bater à porta do país e o atual primeiro-ministro assinar de cruz um acordo para 5% daqui a muito pouco tempo.
«Nunca houve qualquer garantia, nem nunca houve vontade desses 3% para a Ciência, muito menos que esses 3% fossem de esforço público (...).»
Portanto, aquilo que não existiu, nem aconteceu no país durante 25 anos ou mais, na verdade, em 15 dias, muito rapidamente a NATO e a União Europeia conseguiram impingir a todos os governos. Nunca houve qualquer garantia, nem nunca houve vontade desses 3% para a Ciência, muito menos que esses 3% fossem de esforço público, mas muito rapidamente os 5% para a Defesa vão garantir, isso sim, cortes no Estado Social, problemas brutais no funcionamento de serviços públicos como a Educação, a Saúde, a Segurança Social e, evidentemente, a própria Ciência, aquela que, sobrevivendo dos parcos fundos públicos, vai ser empurrada para reprogramar tudo para aquilo que vem aí da indústria da guerra. Parece mais ou menos evidente.
O protesto de hoje é importante pelas carreiras, é importante pelo financiamento, é importante pela democracia, mas também é importante por um modelo de país que nós acreditamos ser mais justo, mais solidário, mais fraterno, assente num verdadeiro desenvolvimento onde a Ciência e o Conhecimento fazem parte do nosso horizonte.
Obrigado a todas as organizações que ergueram este protesto, a começar pela ABIC, que está de parabéns! Esperemos, pelas piores razões – infelizmente – encontrarmo-nos mais vezes. Estamos cá na luta!
Texto lido no dia 9 de Julho de 2025, na concentração «Em Defesa da Ciência Pública e pelo Fim da Precariedade na Ciência», realizada em frente à Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA SBE), em Carcavelos, onde decorreu o Encontro Ciência 2025.
O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)
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