|FRANCISCO PALMA

Novos Territórios de Reflexão e Diálogo

José Manuel Castanheira em Leiria numa homenagem a José Afonso, memórias de Espiga Pinto em Extremoz, «Abrigo de Combatentes» de Eugenio Ampudia em Évora e viagens de Mauro Cerqueira em Guimarães.

Exposição «Terra da Fraternidade: 54 Recados para José Afonso» de José Manuel Castanheira, na Galeria de Arte da Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, em Leiria, 5 de abril a 22 de maio
Exposição «Terra da Fraternidade: 54 Recados para José Afonso», de José Manuel Castanheira, na Galeria de Arte da Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, em Leiria, 5 de abril a 22 de maio Créditos / José Manuel Castanheira

«Terra da Fraternidade: 54 Recados para José Afonso» é o título de uma exposição de José Manuel Castanheira, na Galeria de Arte da Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira1, em Leiria, que decorre de 5 de abril a 22 de maio. 

A exposição é composta por 54 aguarelas numa homenagem a um dos símbolos da Revolução do 25 de Abril de 1974, onde se misturam cantigas, acontecimentos e poesia que resultaram de diálogos que estabeleceu com a poesia de Luís Cernuda, Alberto Pimenta, Fernando Pessoa, Yannis Ritsos, Yvette Centeno, José Guardado Moreira, Jorge Fazenda Lourenço, Jorge de Sena, António Salvado, Fernando Tordo e Sor Ana de la Trinidad. 

São «cinquenta e quatro recados para José Afonso, pintados num gesto espontâneo de gratidão e admiração para avivar e alimentar o valor da Liberdade», nas palavras do autor.

«Passaram 50 anos, passaram muito depressa. Ao longo deste tempo senti, bastas vezes, que a palavra essencial parecia vacilar. Aquela que tanto custou a conquistar, a LIBERDADE. E, quando me vejo nessas inquietações, pela névoa da mente, lá vem ele, sempre, o Zeca em contraluz, determinado, a dizer-nos TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM. Foram esses instantâneos, mistura de extraordinárias cantigas com acontecimentos, que num gesto intuitivo me conduziram ao impulso de pintar estas aguarelas. Na onda desse estímulo, o meu pensamento foi também para os amigos Francisco Fanhais, José Mário Branco, o Sérgio Godinho, o Luís Cília, entre tantos outros», escreveu Castanheira na sinopse da exposição.

Obra de Espiga Pinto, «Homens a cavalo», 1964, colecção MNAC. Exposição «Memórias do Alentejo» de Espiga Pinto na Galeria Howard’s Folly, em Estremoz, até 27 de abril CréditosMiguel A. Lopes / MNAC-Chiado

A Galeria Howard’s Folly2, em Estremoz, apresenta a exposição «Memórias do Alentejo» de Espiga Pinto, por ocasião da celebração do 85º aniversário do artista plástico José Manuel Espiga Pinto (1940-2014) e pode ser visitada até 27 de abril de 2025.

Segundo a organização, esta é a primeira exposição em 15 anos de trabalhos da «Série do Alentejo (1960s)» de Espiga Pinto e a primeira após o seu falecimento em 2014, tem a curadoria de Amie Conway e Alex Cousens e o apoio da BIALE - Bienal Internacional de Arte do Alentejo 2025.

As obras expostas, criadas na década de 60, na fase inicial da sua produção artística, «aquando do regresso de Espiga ao Alentejo, refletem a excelência do seu período neorrealista e a infância do artista em Vila Viçosa. A mostra integra peças em diversos suportes, desde a pintura, trabalhos sobre papel, desenho em tinta-da-china sobre cortiça e escultura em bronze. A imagem representa a vida típica do Alentejo histórico, com composições que incluem o cavalo, o touro, a roda, a carroça, a apanha da azeitona, os agricultores, a camponesa e as festas locais», segundo o texto de Hernâni Matos. 

«Mais tarde, este campo de referências cruza-se com uma tendência para a abstração. Observa-se, então, uma crescente importância da geometria na definição da estrutura de obras que aspiram a uma representação simbólica de cosmografias mais amplas…», como refere o texto sobre Espiga Pinto apresentado no CAM-Gulbenkian, instituição que, entre 1973 e 1974, lhe atribui uma bolsa para prosseguir as pesquisas sobre intervenções no espaço urbano na Suécia e em França, permitindo neste período viajar pela Europa, realizando itinerários por cidades como Paris, Munique ou Estocolmo. Neste mesmo texto é também referido que «o imaginário de Espiga nos anos de 1970 concilia tecnologia, ficção científica, poeticidade ou misticismo cósmico e elaboração de uma utopia onde parece reconhecer na arte o potencial de reconectar as pessoas e criar uma sociedade alternativa. O 25 de Abril em 1974 exponenciou essa crença na possibilidade de transformação social, pondo cobro à ditadura do Estado Novo, iniciando a descolonização após anos de guerra colonial, quebrando o prolongado isolamento do país e eletrizando a década de esperança revolucionária.

Ainda com referência ao texto de Hernâni Matos, soubemos que em 2020, Penelope Curtis, então diretora na Fundação Calouste Gulbenkian, selecionou mais de 50 importantes obras, ampliando o já significativo conjunto de obras de Espiga na coleção do CAM – Centro De Arte Moderna Gulbenkian, incluindo peças associadas à temática da presente exposição.

A Fundação Eugénio de Almeida3, em Évora, acolhe a exposição «Abrigo de Combatentes» do artista espanhol Eugenio Ampudia, com curadoria de D. André de Quiroga, uma exposição que pode ser visitada até 15 de junho. 

Obra de Ampudia, «Durmiendo debajo de un Goya», série «Donde Dormir», 2008, fotografia. Exposição «Abrigo de Combatentes» de Eugenio Ampudia na Fundação Eugénio de Almeida, em Évora, até 15 de junho Créditos

Esta exposição desenvolve-se em parceria com o Festival Bienal de Arte e Cultura «Mostra Espanha» e quanto ao título da exposição «Abrigo de Combatentes», o artista não deixa espaço para equívocos, ao afirmar que «vivemos com inquietação um tempo turbulento. São tão óbvios os sinais onde reside o perigo, que a razão, a cultura e a arte devem amotinar-se e tornar-se um abrigo de combatentes.» 

O trabalho de Eugenio Ampudia «investiga conceitos como o papel político dos criadores, o significado da obra de arte ou o artista como gestor de ideias, sempre a partir de uma atitude crítica e com conotações irônicas», escreveu Blanca de la Torre. 

«Esta exposição é um percurso pela obra de Eugenio Ampudia, que se expressa em múltiplos formatos. A exposição é uma mostra completa dos novos processos de comunicação que o artista estabelece entre o seu trabalho multidisciplinar e os espectadores, tornando-os sujeitos ativos do processo. As obras que compõem esta exposição estão também unidas por um olhar crítico que desafia o espectador, ao conduzir a experiência visual a novos territórios de reflexão e diálogo. (…) Ao percorrer a exposição, o visitante encontrará instalações dinâmicas e esculturas cinéticas, fotografias que documentam ações performativas originais, desenhos e vídeos com narrativas visuais diversas» segundo o texto da exposição.

O curador D. André de Quiroga, chama a atenção para a «pertinência da reflexão, pesquisa e produção artística, nunca desligada do ativismo de Eugenio Ampudia, que não pode deixar de tocar quem se interroga sobre o destino de uma sociedade acossada, por dentro e por fora». Quiroga refere ainda no seu texto, que assistimos a um «consumismo desenfreado» e «ao agudizar das contradições da sociedade ocidental, com a contestação dos valores que considerávamos estabelecidos. O empobrecimento – incluindo o cultural – do Ocidente que conduziram os destinos globais a partir do século XV, e o alargamento da base de apoio a sistemas políticos e religiosos radicais entre largas camadas da sociedade, é um sinal a ter em conta», onde «a censura e a autocensura crescem, o acosso público e mediático a quem está fora das agendas é diariamente constatável, com as matilhas ululantes nas redes sociais e atos de violência perpetrados quotidianamente, que são difundidos pelos media, na busca de audiências voyeuristas e replicados ad nauseam, com o jornalismo e a crítica, livres e formadas na base da capacitação a terem cada vez menos espaço».

O curador não deixa, contudo, de chamar a atenção que «o artista é um crente, laico, mas com fé num futuro melhor. Essa mesma fé, orgânica, porque ontologicamente enraizada no percurso de Ampudia, transparece na sua obra».

Exposição «Canções para um burro morto», de Mauro Cerqueira, no Centro Internacional das Artes José de Guimarães, em Guimarães, até 27 de abril Créditos

«Canções para um burro morto», é o título da exposição do artista Mauro Cerqueira, apresentada no Centro Internacional das Artes José de Guimarães4, em Guimarães, até 27 de abril. Esta exposição é uma retrospetiva de vários trabalhos de Mauro Cerqueira, criados após duas viagens a Marrocos, de onde resultaram diversas obras plásticas, jogos de luzes com espelhos, dois filmes e dez canções. Numa entrevista do jornal universitário «O ComUM», João Terras, o curador da exposição, falou acerca da obra «Espelhos» revelando que «é a primeira vez que os estamos a ver desta maneira, com um foco de luz, dialogando precisamente com esses reflexos», pois estes geralmente são exibidos «a céu aberto, ou seja, com a luz ligada, espelhos a cruz e sem reflexos».

A exposição individual do artista Mauro Cerqueira, «ensaia um cruzamento entre filme e pintura, produzindo um contexto visual para o relacionamento com a sua obra. A viagem nuclear da exposição parte do percurso que Mauro Cerqueira juntamente com o artista e poeta Babi Badalov traçaram entre Paris e Tânger no ano de 2021. Seguindo os passos dos escritores Jean Genet e Mohamed Choukri, e tendo como pronuncio o encontro com a figura de Genet em Larache junto da sua campa, Mauro Cerqueira filma o caminhar de Badalov por entre as ruas de Marrocos enquanto este lê o poema «O Condenado à Morte» de Jean Genet. A exposição alicerçada no rumor desta viagem revela-nos aquilo a que obra de Mauro Cerqueira nos tem conduzido ao longo do tempo, o de encontrar o sentido da história na marginalidade da vida», segundo o texto da exposição.


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

  • 1. Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira-Largo Cândido dos Reis, n.º 6 2400-112 Leiria. Horário: segunda a sexta feira: das 9h30 às 20h; sábado: das 14h às 20h.
  • 2. Galeria Howard's Folly – Rua General Norton de Matos 13, 7100-107 Estremoz. Horários: quarta-feira, das 19h30 às 22h30; quinta-feira, das 12h30 às 22h30; sexta-feira, das 12h30 às 2h; sábado, das 12h30 à 1h, e domingo, das 12h30 às 17h.
  • 3. Fundação Eugénio de Almeida / Centro de Arte e Cultura – Largo do Conde de Vila Flor 7000-804 Évora. Horário: De terça-feira a domingo, das 10h às 13h e das 14h às 18h.
  • 4. Centro Internacional das Artes José de Guimarães - Av. Conde Margaride, 175 4810-525 Guimarães. Horário de funcionamento: de terça a sexta-feira, das 10h às 17h (últimas entradas às 16h30); sábado e domingo, das 11h às 18h (últimas entradas às 17h30).

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