Na história da música houve sempre dois movimentos que concorreram para a afirmação de uma cultura popular e simultaneamente contemporânea. Um desses movimentos tenta intelectualizar as raízes populares da música e reproduzi-las na sua estrutura, recorrendo às novidades tecnológicas e estéticas para lhe dar uma aparência de inovação. No fundo, perpetua a ideia de uma estrutura e de um modelo cristalizados, tratando como inovação apenas a novidade tecnológica e o meio de produção musical (o arranjo). O outro movimento decorre da cultura vivida e da memória cultural do artista, que integram espontaneamente e sem esforço a sua criação. Talvez por isso, quando olhamos para a música popular portuguesa encontramos artistas a quem a urgência da novidade, num determinado momento, tornou a sua música datada e outros artistas cuja música continua, ainda hoje, décadas depois, a ser uma constante novidade.
Na segunda metade do século XX, em particular na década de 1960, no meio de circunstâncias repressivas, num mundo em profunda mudança, começou a nascer uma nova música portuguesa. Herdeiros da cultura popular, também ela em movimento, músicos como José Afonso ou Carlos Paredes abriam novas possibilidades, dessacralizando (e desdiabolizando, também) a música popular, reconhecendo nela outras paisagens, outra realidade, outra atualidade. Depois desse primeiro impulso, outros artistas se seguiram. A música popular portuguesa entrou no universo da pop, no jazz, no rock, no hip hop. As últimas décadas estão cheias de artistas que, sem esforço, integram na sua criação, recheada de referências do seu próprio tempo, um conjunto de elementos da cultura popular, dando à sua obra uma textura singular, inimitável.
Se tal aconteceu em diversos estilos e registos, na música eletrónica as soluções para encontrar uma ligação da cultura popular às tessituras dos instrumentos têm sido pouco convincentes. O recurso ao sample, ao corta-e-cola de um pequeno e breve elemento de uma música pré-existente (cliché que associamos a uma certa portuguesidade) abriu, claro, espaço para imaginar possibilidades de fusão. Porém, em rigor, esse é um elemento subsidiário, que pouco nos diz sobre a raiz cultural da própria criação artística. É como se estivéssemos perante a inevitabilidade de dois mundos que se cruzam acidentalmente, num esforço demasiado óbvio e que poderia ser feito por qualquer artista no mundo, entusiasmado por uma qualquer sonoridade folclórica.
«Foi este sentimento que me acometeu quando, na primeira vez em que ouvi Sensible Soccers, fui atirado para a memória do Douro Litoral, tanto para a sua atmosfera atlântica como para uma urbanidade nem sempre feliz, nem sempre fácil, rude, onde há sempre lugar para a ternura.»
A espontaneidade na integração da cultura popular na criação artística está, por vezes, na subtileza que só nos surge quando, expostos a uma paisagem sentimental, a música nos transporta para um lugar que reconhecemos, encontrando um sentido inesperado na nossa memória cultural. Foi este sentimento que me acometeu quando, na primeira vez em que ouvi Sensible Soccers, fui atirado para a memória do Douro Litoral, tanto para a sua atmosfera atlântica como para uma urbanidade nem sempre feliz, nem sempre fácil, rude, onde há sempre lugar para a ternura.
Essa paisagem, que como diz Álvaro Domingues em A Rua da Estrada (2009) é a nossa (real, verdadeira, concreta), não conhecia ainda o som que melhor a ilustra. Desde o seu EP de estreia, de 2011, até hoje, os Sensible Soccers transportam para a música essa herança inescapável de uma cultura vivida, de uma paisagem que nos acompanha todos os dias, das histórias do quotidiano, da pronúncia, dos mitos e desse horizonte absolutamente luminoso e singular que o litoral do Atlântico revela, mesmo que na neblina, mesmo que na noite húmida ou na violência da nortada.
É como regressar a casa (regresso sempre a casa). 15 anos e 5 álbuns depois, desde esse primeiro momento em que a paisagem surge como cenário especular, chega uma nova abordagem com «Camminando di Notte» (2026), um disco em que a paisagem não se impõe. Antes, sugere, deixa em aberto todas as possibilidades, permite-nos construir uma paisagem só nossa, uma viagem íntima pelo tempo e pelo espaço, colorindo com um conjunto de elementos que distinguem estes músicos e que nos deixa um mapa para a sua própria identidade cultural. É, sobretudo, isto que sustenta a hipótese de os Sensible Soccers serem a mais relevante banda de uma nova música popular portuguesa, mais contemporânea, mais sugestiva.
Se a textura sintética da eletrónica funciona como um prolongamento do tempo, a repetição das linhas harmónico-melódicas enceta a possibilidade de essa viagem se expandir pelo infinito, carregando como bagagem os fantasmas de um território vasto de referências que se encontram num transe para lá da introspeção. Sempre que o tema se repete, que a melodia vai e vem, como um som que oscila com o vento, a música devolve-nos à terra, onde os nossos pés dançam como quem caminha pela rua. Depois, o tema descobre uma breve abertura, libertando-se do furacão, dessa ansiedade do furacão que nos aflige, e mostra-nos a possibilidade da mais simples das felicidades.
Aqui se dá o encontro inevitável entre diferentes culturas, entre diferentes experiências, num chão comum, projetado de forma poderosa e envolvente ao vivo e que, em estúdio, prefere conscientemente a subtileza. Mas nada se perde. São os ângulos possíveis para a mesma intenção artística e a afirmação de um trabalho intenso e, de certo modo, obsessivo, que nestes músicos nunca transparece. Parece tudo fácil, porque tudo é feito com uma alegria tão evidente, tão jovial, tão fresca – essa alegria de quem não se permite envelhecer.
Talvez por isso haja em Sensible Soccers uma recusa constante da derrota, uma estrada otimista que se vai construindo, sem urgência. É na ausência dessa urgência, de uma espera que se faz de esperança nos dias claros, que o quadro de referências surge como num sonho onde aquilo que aparentemente não se relaciona se vai montando como um puzzle, entrelaçando, dando sentido ao nosso próprio tempo de vida, como quem pinta.
Enquanto escrevo estas linhas, ouço um dos meus temas preferidos deste novo disco: «Efeito Zandinga». E em pleno outono regresso a um desses junhos soalheiros do Litoral Norte, onde os dias passavam sem mágoa e as noites não tinham fim. A melodia repete-se e alimenta esta sensação de não querer que nada acabe, que as pequenas felicidades nunca acabem, que as conversas com os amigos, as paisagens e o cheiro da nossa casa nunca acabem. E então penso em levar esta música revolucionária para o meio da rua, como um manifesto do nosso tempo, demasiado importante para ficar só nos meus ouvidos e inspirar a rua inteira com este sol que brilha para todos.
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