«Ao longo de toda a costa do Sri Lanka, podem-se ver fortes antigos. Estes fortes pertenciam às diversas potências coloniais – portugueses, holandeses e ingleses. Estão em ruínas. Há propostas para os restaurar e embelezar para fins turísticos. Mas, na verdade, deviam ser deixados como estão, em ruínas. Porque este é o único legado verdadeiro que o colonialismo merece no Sri Lanka», declarou Ahilan Kadirgamar, docente do Departamento de Sociologia da Universidade de Jaffna, ao intervir na conferência «Mãos fora da Ásia», na capital cingalesa.
A declaração arrojada de Kadirgamar ocorreu na sessão intitulada «Dívida, Tarifas e o Novo Cerco Económico: Soberania sob Ataque», presidida por Srujana Bodapati, da Tricontinental (Índia) e que contou também com a participação de Jeong-eun Hwang, do Centro de Estratégia Internacional (Coreia do Sul); Taimur Rahman, do Partido Mazdoor Kisan (Paquistão); Jeff Xiong, do Centro de Estudos do Sul Global (China), e Nicholas Dobrijevic, da Red Spark (Austrália).
Os oradores reflectiram sobre o modo como as políticas económicas de muitos países do Sul Global são determinadas em Washington, não nos seus territórios, revela o portal Breakthrough News, sublinhando que a dívida e os regimes tarifários são dois dos instrumentos mais comuns usados pelos países imperialistas, com os EUA à cabeça, para drenar a riqueza dos países do Sul Global.
Taimur Rahman quantificou este fenómeno: entre 1960 e os dias de hoje, estima-se que a magnitude desta drenagem seja de 152 milhões de milhões de dólares. Ou seja, mais de 2,3 milhões de milhões por ano, o que explica que actualmente 54 países do mundo se encontrem numa situação de extrema dificuldade devido a uma crise da dívida.
Imperialismo e drenagem de recursos dos países pobres para os ricos
Este sistema global de extracção de riqueza dos pobres para os ricos é imposto pelas interligações entre as instituições financeiras e os bancos, por um lado, e as bases militares norte-americanas, por outro, algo que Jeong-eun Hwang explicou. A coreana disse que o seu país, uma das dez maiores economias do mundo e aliada fiel dos EUA há muito tempo – com mais de 28 mil soldados norte-americanos no seu território –, ainda não é imune à pressão tarifária de Trump.
Por seu lado, Nicholas Dobrijevic explicou como a Austrália, ela própria uma colónia de colonos, passou de parceira minoritária do imperialismo britânico a parceira minoritária do imperialismo norte-americano. Hoje, a Austrália é usada pelos EUA para pressionar a China. Isto tem a sua própria contradição, disse, porque a China é também o maior mercado de exportação da Austrália.
Já Jeff Xiong abordou a inteligência artificial (IA) e falou sobre o falhanço do bloqueio imposto pelos EUA à China nos semicondutores. Em vez de empresas chinesas como a Huawei sucumbirem à pressão do bloqueio, a China expandiu a sua capacidade de produção e desenvolveu modelos de IA extremamente baratos – apenas cerca de 1% do custo dos modelos de IA desenvolvidos por Silicon Valley (Califórnia, EUA).
Referindo como exemplo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST, Brasil), que treinou os seus quadros para utilizarem a IA em benefício do movimento, Xiong lançou um apelo à democratização da IA.
A arquitectura de coerção e hegemonia da direita
Outra sessão, no mesmo dia, teve como título «A Extrema-Direita, o Autoritarismo e a Infra-estrutura Doméstica do Império», sendo presidida por Ambedkar Pindiga, do Tricontinental (Índia) e contando com a participação de Hilmar Farid, do Instituto Megawati (Indonésia); Fatima Shehzad, da Federação Progressista de Estudantes (Paquistão); Muhammad Zikri Bin Abdul Rahman, do Pusat Serarah (Malásia); Aishe Ghosh, da Universidade Jawaharlal Nehru (Índia); e Khyl Ashlee Ramos, do Partido das Massas Trabalhadoras (Filipinas).
De acordo com a fonte, os oradores abordaram a arquitectura de coerção e hegemonia que a direita procura construir nos respectivos países; os golpes de Estado contra movimentos que procuram afirmar a soberania em países como o Irão e a Indonésia; a aliança entre o clero e os militares em países como o Paquistão e a Malásia; a ascensão de figuras autoritárias da extrema-direita em países como as Filipinas e a Índia; bem como a resistência a esta hegemonia por parte dos movimentos populares, particularmente dos estudantes e dos jovens.
Solidariedade com Cuba
A sessão final, dedicada à solidariedade com Cuba, teve como oradora principal a embaixadora de Cuba no Sri Lanka, Patricia Pego Guerra, além das intervenções do cingalês Vasudeva Nanayakkara, do paquistanês Ramis Suhel e do jornalista indiano R. Prasanth.
Pego Guerra abordou os «desafios inimagináveis» que o povo cubano enfrenta na actualidade, como resultado do endurecimento do bloqueio, imposto pela administração de Donald Trump, a um nível sem precedentes.
«Este é certamente o período mais difícil que enfrentámos na nossa história», disse. Ao mesmo tempo, afirmou que o povo cubano se fortalece com o facto de a grande maioria dos países do mundo, e a esmagadora maioria dos povos do mundo, apoiarem firmemente Cuba.
Os demais oradores – refere a fonte – prestaram homenagens emocionadas à revolução cubana e ao espírito internacionalista do seu povo, sublinhando que Cuba é um farol de esperança e uma inspiração para todos os que lutam pelos seus direitos em todo o mundo.
O encontro, que decorreu entre quinta-feira e sábado passado, organizado pela Assembleia Internacional dos Povos com o apoio do Instituto Tricontinental de Investigação Social, terminou com os participantes a erguerem palavras de ordem contra o imperialismo e em solidariedade com o povo de Cuba, e expressando o desejo de que as bases norte-americanas no continente se tornem ruínas, tal como os fortes do colonialismo a que Ahilan Kadirgamar se referiu.
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